Arquipélago de Chiloé guarda histórias e mitos da cultura chilena

EDUARDO VESSONI

Colaboração para o UOL Viagem

Por pouco o arquipélago de Chiloé, no Chile, não virou mito. Em maio de 1960, mar e terra se uniram para serem os protagonistas de uma das maiores tragédias naturais do país: o terremoto que, acompanhado de um maremoto, atingiu impressionantes 9,5 pontos na escala sísmica.

As águas retrocederam três vezes e, com a fúria de um tsunami, alagaram anos de história dos huilliches, "homens do sul", em língua mapuche, considerados os principais indígenas da região; levaram casas de madeira de cipreste sustentadas sobre palafitas, um dos maiores símbolos chilotes; destruíram todos os edifícios públicos de Ancud; e deixaram mais de 800 habitantes mortos ou desaparecidos. Até o pacato rio Pudeto ganhou força e virou mar após o alagamento na região.

No entanto, a força da natureza foi incapaz de apagar o imaginário popular de Chiloé e suas fantásticas histórias que fazem a fama desse destino chileno localizado a pouco mais de 80 km de Puerto Montt, na Região dos Lagos, e do outro lado do canal Chacao.

Mitologia

Os mitos continuam encantando a população de todo o país e viajantes estrangeiros que chegam a esse arquipélago de 180 km de extensão com pouco mais de 150 mil habitantes. O índice de temas desse livro a céu aberto inclui navio fantasma, deusas e anão sedutor de donzelas.

Numa sociedade que está isolada do continente e rodeada por canais, baías e pelo Oceano Pacífico, não é de se estranhar que muito dos mitos tenham protagonistas vindos das águas. O isolamento é tanto que os locais só souberam da independência do Chile, decretada em 1810, três anos mais tarde e o arquipélago, formado por 40 ilhas, só foi anexado ao resto do Chile 16 anos depois. A região foi residência dos últimos colonizadores espanhóis da América do Sul.

Fiura, a deusa do vício e da perversidade, é a mulher dos pântanos do bosque que se satisfaz com as maldades que prepara para os homens que a rejeitam. Como castigo, enlouquece sua vítima e a deixa vagar sem rumo.

Outra divindade temida, menos por sua crueldade e mais pelo que essa bela mulher tem para dizer, é Pincoya. Vestida com algas e acompanhada de seu marido Pincoy, a deusa da fertilidade aparece nas praias de Chiloé para uma esperada dança. Se Pincoya termina o ritual virando-se para o mar é sinal de abundância, mas se for concluído em frente às areias da praia, serão tempos de escassez.
  • Eduardo Vessoni/UOL

    Com sete quilômetros de extensão, o balneário Lechagua é uma opção de passeio dos visitantes de Ancud, muito procurada pelos amantes da prática de caiaque


E por falar em mar, vem também das águas agitadas do Pacífico outro mito que os habitantes de Chiloé, a segunda maior ilha do Chile, adoram temer: o Caleuche, um barco fantasma de velas negras que costuma navegar pela região com o terraço iluminado e música de festa. Carregado de bruxos, o veleiro é capaz de transformar-se em outros objetos quando decide não ser percebido.

Porém, o personagem mais famoso da região não é do mar, é pouco discreto e quer mesmo ser visto. As mulheres já sabem: quando um anão de aspecto repugnante e machado na mão aparece, é o famoso Trauco, o sedutor de donzelas. O feioso ser mitológico costuma aparecer em sonhos eróticos e, após seduzir as moças, as leva ao bosque para possuí-las.

E com tantas histórias populares e de origens culturais que remetem às culturas mapuche e polinésia, chega ser curioso que Chiloé abrigue tantas igrejas. São 150 em todo o arquipélago, 16 delas consideradas Patrimônio da Humanidade.

Basta uma caminhada pela região para o visitante perceber que, além dos contos imaginados, a população local tem uma certa mania de construir monumentos religiosos. Erguidas com madeira, as igrejas chilotes são tão famosas quanto as casas construídas sobre as poucas palafitas que sobraram em Castro, a capital da Ilha de Chiloé.

Se depender da mitologia chilote e da fé religiosa, a Ilha de Chiloé ainda deve ter muita história para contar.

  • Eduardo Vessoni/UOL

    A tradição de enfeitar janelas com adornos decorativos e símbolos mitológicos mostra quais são os costumes e as preferências dos habitantes do sul do Chile


COMO CHEGAR

A Isla Grande é o principal e maior centro comercial desse arquipélago formado por 40 ilhas. A principal acesso se dá por Puerto Montt, localizado a menos de duas horas da capital da Região dos Lagos. A viagem inclui travessia pelo Canal de Chacao, onde animais marinhos como focas e toninas costumam acompanhar as balsas que levam visitantes e locais ao norte de Chiloé.

Cruz del Sur
Tel: 600 401 4100
www.busescruzdelsur.cl

Queilen Bus
Tel: (65) 253 - 468
www.queilenbus.cl

ONDE FICAR

Hostal Lluhay
Rua Lord Cochrane, 458.
Tel: (56) (65) 622-656. - Ancud
www.hostal-lluhay.cl

Posada e Cabanas El Antiguo Chalet
Rua Irarrázaval, s/n. - Chonchi
Tel: (56) (65) 671-221 / (09) 215-9559
fco_barrientos@hotmail.com

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