Em passo de inca, Bolívia revela seu lado mais radical

EDUARDO VESSONI

Colaboração para UOL Viagem

Estradas de terra, casas simples construídas com adobe e pequenos povoados localizados a mais de 3.000 metros de altitude. A paisagem parece familiar, sobretudo para viajantes acostumados a pisar cenários exóticos da América do Sul. Parece, mas não é.
  • Eduardo Vessoni/UOL

    Bonete Palca, uma das mais belas paisagens, está construída em uma plataforma aérea que parece estar pendurada entre montanhas


A discreta e desconfiada Bolívia, país que ganhou fama internacional com produtos turísticos como o lago sagrado Titicaca e a imensidão branca do Salar do Uyuni, começa a revelar seu lado mais distante e radical para os raros visitantes que desembarcam no setor rural de Sud Lípez, província localizada no departamento de Potosí, a sudoeste do país.

No lugar das lagoas coloridas da região, entram rios e quebradas frequentadas apenas pelos trabalhadores locais; a imensidão plana do deserto boliviano é substituída por um terreno montanhoso com agulhas rochosas de tons alaranjados; o conforto dos tours pelo Uyuni se transforma em privações; e no centro de tudo isso, povoados isolados que seguem a vida no mesmo ritmo de seus ancestrais incas.

Primeiras impressões

A descoberta começa em Mojinete, uma minúscula cidade agrícola de 80 habitantes localizada a 90 km de Tupiza e a 3.490 metros de altura, em plena Cabezera del Valle. Os habitantes locais ainda ficam paralisados quando chega algum visitante estranho à região. Olhares curiosos espiam pelas janelas; as portas se enchem de crianças tímidas; mulheres de vestidos coloridos abrem um longo sorriso, enquanto senhores levantam o chapéu para saudar os recém chegados. Há tempos, o viajante de terras altiplânicas não via tanta autenticidade.

Mojinete, município formado por seis povoados, é o ponto de partida para uma rota de 120 km que corta o altiplano boliviano, na fronteira com a Argentina, e que pode ser percorrida em três dias de intensa e transformadora caminhada. A trilha, um caminho improvisado que risca as altas montanhas da região, é uma antiga via de comunicação entre povoados esquecidos no mais profundo da Bolívia, como Tolaba e Calipata. Você ainda correrá o privilegiado risco de ser um dos primeiros visitantes a colocar os pés sobre aqueles solos distantes. E essa é uma das melhores sensações do programa.

A regra é subir, por isso o Camino Ahuta será a primeira entre as dificuldades que o caminhante deverá encontrar durante a escalada da primeira rocha, com mais de 45° de inclinação. Pise como inca, firme e constante, e do alto você terá a real dimensão do esforço que aquela gente faz em nome das tradições.

Durante a caminhada, é comum encontrar crianças e jovens que cruzam a região para chegar à escola de Mojinete, em um trajeto que eles costumam fazer em seis horas; além dos trabalhadores rurais que utilizam o caminho íngreme para fazer negócios em povoados próximos ou soltar animais em currais que se alimentam da árida vegetação local.

O roteiro é intenso e exige preparo físico e emocional do visitante desacostumado a trilhar o centro das cordilheiras dos Andes, em altitudes que chegam aos 4.500 metros sobre o nível do mar, com variedades de temperaturas e clima, extremamente, seco.

As distâncias entre um povoado e outro alcançam, com facilidade, 40 km em terrenos acidentados e escorregadios que, em certos pontos, devem ser escalados sobre penhascos, abismos e vales profundos; os pontos de apoio contam com pequenos negócios improvisados sem estrutura para receber os caminhantes; e diversos trechos da trilha são "feitos" na hora pelo guia que acompanha o visitante. A Pacha Mama (Mãe Terra) dá, mas também cobra esforço do viajante.

Em outros momentos, um forte odor de urina felina chama a atenção do forasteiro caminhante. Não se trata do gatinho de estimação da velha chola que habita as terras altas e distantes de Sud Lípez. É a estratégica demarcação de território dos pumas que, assim como lhamas e guanacos, frequentam a região. E por que, então, aventurar-se em uma atividade de alto risco no mais profundo do altiplano boliviano?

As surpresas

A paisagem encontrada durante os três dias é única em todo o território boliviano. O mais impressionante é observar a sequência de montanhas e rochas que se encaixam em si mesmas ao longo do circuito, e que em outros tours bolivianos só se vê de longe. Quando você alcança o topo de uma delas, a respiração ofegante parece parar por um instante. É necessário total silêncio para contemplar o cenário que se abre diante do corpo cansado e dos olhos atônitos.

O guia não entrega o tesouro de uma só vez e vai revelando, ao longo dos três dias, os segredos escondidos da rota. A Quebrada Orosmayo abriga as imensas agulhas alaranjadas das Piedras Pucas, no trecho entre Mojinete e La Ciénaga; picos nevados, como o do cerro Azulejos, começam a surgir por detrás de rochas pontiagudas; e cavernas que serviram de abrigo para seres mitológicos enfeitam a beleza rara da Quebrada Tiqueo.
  • Eduardo Vessoni/UOL

    As noites em povoados isolados localizados no interior das cordilheiras dos Andes são algumas das opções naturais da caminhada pelo sul da Bolívia


Conta a lenda local que, antes mesmo dos incas grudarem seus pés como ventosas naqueles paredões verticais, anões viviam escondidos no interior daquelas montanhas enquanto o mundo só conhecia a escuridão das noites e o brilho das estrelas. Logo, surgiu a luz do dia, fatal para os pequenos chulpas, como são conhecidos esses antigos moradores de casas flutuantes construídas no interior de rochas alaranjadas.

O terceiro e último trecho é um dos dias mais intensos e belos da viagem. Os pés, sujos de terra, parecem deslizar sobre o terreno árido; o cérebro responde lento aos estímulos do corpo; e a trilha exige maior esforço do caminhante por conta do zigue zague a 4.500 metros, o que costuma causar o famoso 'mal de puna'.

Procure não calcular as distâncias que ainda faltam para a parada seguinte. Todas as cidades estão isoladas pelo mais alto da cordilheira central dos Andes e desistir no meio do caminho significa voltar, a pé, tudo o que já foi percorrido. As cidades intermediárias do circuito não contam com nenhuma estrada que possa receber qualquer tipo de automóvel.

A essa altura, o espírito já está marcado pelas tradições ancestrais e será difícil voltar para casa com os mesmos princípios que pesavam as mochilas no ponto inicial. Mais do que aprender a chegar, nessa caminhada aprende-se a estar. E assim, em passo de inca, chega-se longe, mesmo depois de ter andado "apenas" 120 km.

Dicas

A caminhada entre Mojinete e Guadalupe ainda é um programa turístico novo do sul da Bolívia, de modo que o visitante deve estar preparado para a total falta de estrutura ao longo do trajeto, o que garante um tom aventureiro e genuíno pelo interior do altiplano boliviano.

O circuito inclui paradas em Mojinete, La Ciénaga, Bonete Palca e Guadalupe, e conta com hospedagens improvisadas em salões de reuniões ou casas de locais. Não espere banheiros e nem estrutura para comprar água ou alimentos, embora os simpáticos moradores recebam os forasteiros com um carinho e um jantar simples capazes de fazer o caminhante esquecer todas as dores e o cansaço. Leve muita água, frutas e alimentos como bolachas e barras de cerais para o dia. Na medida do possível, contrate mulas para fazer o transporte de equipagem. Será o dinheiro melhor aplicado de toda a viagem.

Não hesite em prolongar sua estadia, caso você não se sinta preparado para a longa caminhada do dia seguinte. Passar uma noite a mais com os locais será uma experiência única.

Não tente fazer o caminho sem o acompanhamento de um guia que conheça bem o percurso. A trilha tem terreno acidentado, oferece riscos de vida para quem não conhece a região e apresenta trechos encobertos pela dura geografia local.

:: SERVIÇO ::
Imperio Inca
Onde: Rua 20 de agosto e Praça 6 de agosto, s/nº - Villazón
Tel: (02) 596-5744 / (02) 7385-3381.
www.imperinca.com

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