Riads em Marrakech, onde crianças são bem-vindas

JENNIFER CONLIN

New York Times Syndicate

Era hora do coquetel, e que melhor lugar para passá-la do que no terraço na cobertura do Café Arabe, assistindo o pôr-do-sol em Marrakech? Com minhas duas companhias, Charles e Florence, eu me sentei em um dos rechonchudos sofás brancos decorados com almofadas sedosas laranjas, enquanto acima de nós, no céu, uma colcha de quadrados de tecido cor de creme, cada um margeado pelo céu azul que escurecia, flutuava como uma centena de pipas.
  • Divulgação/Café Árabe

    No Café Árabe o turista encontra uma combinação de cozinha italiana e marroquina


Abaixo de nós se encontrava um mar de telhados de terracota e cor de rubi, interrompido apenas pelo vão de um pátio, uma alta palmeira ou uma mesquita reluzente, com a silhueta das montanhas Atlas emoldurando o horizonte. Todos nós ficamos hipnotizados com a cena diante de nós. "Lindo", disse Florence. "Uau", completou Charles.

"É hora de uma bebida", eu declarei, com sede após uma tarde de compras na medina (cidade velha) abaixo.

Momentos depois chegou meu marido, Daniel, após pechinchar a compra de um tapete e mais do que pronto para experimentar os mojitos com hortelã que eu tinha acabado de pedir. "Saúde", disse Florence, erguendo uma mistura de suco de laranja, limão e pêssego. "A mais viagens como esta", acrescentou Charles, bebericando sua bebida espumosa de morango e ameixa. "Ao primeiro coquetel de mentirinha de vocês", eu acrescentei, tilintando as taças com minha filha de 12 e meu filho de 11 anos.

Apesar de amigos terem nos recomendado fazer uma viagem de "casal" a Marrakech e deixar as crianças para trás (é um dos lugares mais românticos do mundo, combinando o melhor do design africano e europeu), nós tínhamos um plano diferente em mente -descobrir se as crianças já eram crescidas o suficiente para férias não centradas nelas (isto é, nada de Disneylândia, parques aquáticos, resorts de praia ou clubes da criança). Em vez disso, nós queríamos um descanso de uma semana em um ambiente urbano onde o único itinerário seria encontrar a próxima ótima refeição, museu, mercado ao ar livre ou café.

Marrakech foi uma escolha fácil, não apenas porque Daniel e eu queríamos visitar há muito tempo a chamada capital do jet set do Norte da África (muitas celebridades americanas têm casas aqui), mas também por ter uma cidade antiga com muralha, os mercados ao ar livre (souks), os palácios e o deserto e a cadeia de montanhas próximos.

Meus temores de que as crianças eram jovens demais para uma viagem exótica dessas evaporou no momento em que entramos na cidade. Passando de carro por burros carregados de cestas de alimentos e camelos com selas para passeios, nós fizemos perguntas sobre tudo, dos djellabas, os mantos longos tradicionais vestidos pelos homens, até a história dos Sete Santos -sete torres grandes, da altura de três andares, nas margens da cidade e que contêm os túmulos de diferentes saliheen, ou homens virtuosos, do século 12 a 16. Em uma rua eles notaram um homem usando turbante e carregando uma cobra, em outra um macaco de chapéu. Só ficou faltando um gênio passar voando em um tapete.

Sem querer dar uma ênfase exagerada nos aspectos "educativos" desta viagem (outro tema recorrente de muitas de nossas férias em família anteriores), nós permitimos que nossos dias se desenvolvessem organicamente, visitando apenas um grande endereço cultural por dia e permitindo bastante tempo livre para comer, fazer compras e descansar à beira da piscina em nosso hotel, localizado na Palmaraie, um bosque de palmeiras a 15 minutos de táxi do centro da cidade.

O primeiro dia começou lentamente, enquanto andávamos vagarosamente pelo Jardin Majorelle, um renomado jardim botânico criado nos anos 20 por um pintor francês, Jacques Majorelle, e posteriormente de propriedade de Yves Saint-Laurent (as cinzas do estilista foram espalhadas aqui). Após uma manhã perambulando por caminhos azulejados, admirando flores fragrantes, lagos com sapos e pássaros cantando, nós ficamos algum tempo no café do jardim, diante de pratos quentes de panquecas marroquinas com mel e pequenas xícaras de chá antes de passarmos uma hora no intimista museu de arte islâmica do jardim, repleto de potes de cerâmica, pinturas, jóias e tapetes, muitos deles parte da coleção pessoal de Saint Laurent.

No Palácio Bahia (que significa brilhante), um complexo de salas de recepção ornamentadas, apartamentos e jardins construídos por um grão-vizir no final do século 19, nós admiramos a arquitetura: tetos com mosaicos, pátios azulejados e colunas de madeira entalhada. Livres da visita com guia que transcorria próxima de nós, as crianças exploraram animadamente o palácio por conta própria, apesar de que, sem dúvida, a promessa de uma tarde pedalando no deserto fornecia algum incentivo. O passeio, apesar de um tanto "voltado para as crianças", provou também ser bastante divertido para nós adultos.

De acordo com nosso planejamento, mesmo nosso dia mais ativo -uma excursão com um motorista às altas montanhas Atlas, com suas gargantas profundas, planícies rochosas e colinas cor de cominho- não foi muito cansativo. Após um pouco de caminhada, assim como um passeio montado em burro na pequena aldeia montanhosa de Imlil -o ponto de partida para escalada do Jalab Toubkal, a montanha mais alta no Norte da África- nós terminamos nosso passeio com uma refeição civilizada no retiro luxuoso próximo de propriedade de sir Richard Branson, o Kasbah Tamadot.

Ainda assim, nada se compara ao dia na cidade velha, onde passeamos com um guia, após sermos avisados que os turistas frequentemente se perdem no labirinto de ruas apenas para pedestres da medina, um Patrimônio da Humanidade da Unesco. As crianças adoraram o labirinto de ruas pequenas e sinuosas que levavam a mercados que vendem condimentos, tapetes, jóias, trabalhos em couro e, o mais fascinante para elas, as "caixas mágicas", com compartimentos secretos. Elas aprenderam uma rápida lição de austeridade ao visitar a Madrassa Ben Youssef, uma escola corânica fundada no século 14, onde cerca de 800 alunos vivem, estudam e até fazem refeição em quartos minúsculos. E, sem causar surpresa, não queriam ir embora da Place Djemaa el Fna, a praça da cidade, que ganha vida toda noite com acrobatas e contadores de histórias, mágicos, malabaristas, curandeiros e barracas de alimentos.

Enquanto estávamos na medida (onde descobrimos que um bom mapa é melhor do que um guia, cuja maioria gosta de arrastar você para as lojas de seus amigos), eu lamentei não ter passado pelo menos duas noites em uma riad (casa tradicional com jardim interno) na cidade velha. Apesar de nem todas as riads aceitarem crianças, uma em particular, a Noir D'Ivoire, seria perfeita. Ela aceita crianças e tem piscina, um terraço na cobertura e até mesmo um burro chamado Cuscuz que ajuda a transportar as bagagens dos hóspedes. Além disso, as áreas de bar e lounge são impressionantemente decoradas em tons naturais (preto, bege, branco e marrom), cheias de antiguidades e palmeiras. Quando o tempo está bom, os hóspedes jantam ao lado da piscina no pátio.
  • Divulgação/Noir D'Ivoire

    Noir D'Ivoire, uma das riads mais lindamente decoradas de Marrakech


Nossa única concessão às crianças foi visitar o Chez Ali -um palácio árabe gigante com tendas para refeições armadas ao redor de uma circo para cavalos no deserto, que poderia facilmente ser rebatizada de "terra do Aladdin", apesar de ser habitada mais por adultos com pacotes de turismo do que famílias. Conhecido por seu tradicional banquete com seis pratos (sopa de legumes apimentada, cuscuz de frango com legumes e cordeiro grelhado para citar alguns) e pelo show "Fantasia", que inclui cavaleiros, acrobatas montados, dança do ventre, música tradicional, desfile de camelos e até queima de fogos, eu fui informada que era uma "armadilha para turistas" e "uma noite inesquecível". Ambas as afirmações são verdadeiras.

Poucas noites depois, nós descobrimos uma versão mais sofisticada, apesar de menos espetacular, do jantar do Chez Ali, no Dar Marjana, um restaurante elegante na medina, ao qual se chega a pé passando por um túnel iluminado por lanternas, com comida melhor e um show mais contido, apesar de elegante. Mas uma de nossas refeições favoritas da semana foi no Le Foundouk, uma riad convertida em restaurante ao redor de um pátio com um terraço na cobertura. Para as crianças ele parecia mágico, desde o interior escuro, iluminado apenas por lanternas e candelabros, até o porteiro, vestido todo de preto, que nos conduziu para fora à luz de velas, até um táxi à espera na medina.

Juntos em nossa noite final no Café Arabe, com o terraço agora banhado em um brilho alaranjado do pôr-do-sol, nós repentinamente ouvimos o chamado à oração em toda sua glória. Vindo de pelo menos cinco mesquitas, as vozes dos muezzins se erguiam sobre a cidade, se sobrepondo diante de nós como uma canção dissonante cantada nos arredores.

"Legal", sussurrou Florence. "Bacana", disse Charles. Duas palavras de meus filhos que me fizeram perceber que a viagem foi um claro sucesso.

Em vez do sul da Flórida, o Norte da África



Para chegar lá
Não há vôos diretos de São Paulo para Marrakech, mas com uma escala em algum país europeu (normalmente Lisboa ou Madrid), é possível chegar à cidade do Marrocos. Um táxi do aeroporto até a cidade leva cerca de 20 minutos.

Assim que está lá, é fácil visitar a cidade de táxi (preferivelmente agendado com antecedência por intermédio do seu hotel) e a pé (a medina é uma zona para pedestres). Mas use guias apenas contratados por intermédio do hotel.

Onde ficar
O Jnane Tamsna (douar Abiiad; 212-24-32-84-84; www.jnanetamsna.com) fica na Palmeraie, uma propriedade murada de mais de dois hectares que inclui jardins de flores, ervas e plantações orgânicas. Com 24 quartos de hóspedes elegantemente decorados divididos entre quatro prédios, cinco piscinas, uma quadra de tênis e um banho público, as crianças são bem-vindas (eles possuem babás e um cardápio infantil). As diárias variam de 250 euros (US$ 325, com o euro cotado a US$ 1,30) para um quarto simples até 420 euros por uma suíte no jardim.
  • Divulgação/Jnane Tamsna

    O Jnane Tamsna conta com jardins de flores, ervas e plantações orgânicas


O Noir D'Ivoire (31-33, derb Jdid Bab Koukkala; 212-24-38-09-75; www.noir-d-ivoire.com) é uma das riads mais lindamente decoradas de Marrakech. A proprietária fornece de tudo, de chapéu para sol e sacolas de compra de palha até celulares pré-programados com seu número (a riad também oferece tratamentos de beleza e tem um banho público). As diárias variam de 180 euros por um quarto duplo até 460 euros por uma das três suítes com terraço privado e uma banheira de hidromassagem.

Onde comer
Dar Marjana (15, derb Sidi Ali Tair Bab Doukkala; 212 -24-38-51-10; www.darmarjanamarrakech.com). Coma pouco durante o dia, já que a refeição marroquina clássica de cinco pratos é deliciosa e mais do que farta. Os destaques incluem torta doce de pombo, cuscuz leve com legumes e um tagine de cordeiro com ameixas. Um jantar com cinco pratos custa 660 dirhans (cerca de US$ 74, com o dólar cotado a 8,90 dirhans) por adulto, 330 dirhans por criança.

Le Foundouk (55, souk Hal Fassi Kat Bennahid 212-24-37-81-90; www.foundouk.com) é um dos restaurantes mais elegantes de Marrakech. Ele oferece uma variedade de pratos franceses clássicos como foie gras e carne com molho bearnaise, pratos marroquinos e até mesmo um frango tailandês. Cerca de 300 dirhans por pessoa.

O Café Arabe (184, rue el Mouassine; 212-24-42-97-28; www.cafearabe.com) é um ótimo lugar na medina, para onde vão tanto os moradores locais quanto os turistas em busca de pratos simples, uma combinação de cozinha italiana e marroquina (massas e tajines). Cerca de 300 dirhans por pessoa para uma refeição com três pratos, não incluindo as bebidas.

Onde comprar
Os mercados ao ar livre na medina cobrem uma área de cerca de 16 hectares. É fascinante ver os artesãos trabalhando. Com um bom mapa, vá ao babouche souk, ao souk sebbaghine para ver tingidores pendurando os tecidos de lã coloridos para secarem, e o souk dos ferreiros. E não perca os leilões diários de tapetes no Joutia Zrabi, às 17h.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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