Viagem

No Piauí, maior acervo de pinturas rupestres do mundo sofre com o poder público

LUIZ CITTON

Colaboração para o UOL Viagem

Escolhido pela comunidade científica mundial para sediar, este ano, o Congresso Internacional de Arte Rupestre, o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, sofre com a omissão do poder público, um aeroporto inacabado, rodovias nas quais só se consegue trafegar com veículos "off-road", pouca capacidade hoteleira para receber os visitantes internacionais, além dos problemas já "costumeiros" relacionados à caça predatória dentro da área protegida, assentamentos e queimadas que têm comprometido uma história de mais de 100 mil anos da existência do homem.

  • Marcelo Leite

    Pesquisadora Dra. Niède Guidon, que dedicou mais de 35 anos aos sítios arqueológicos do Piauí


Em 1991, o Parque Nacional da Serra da Capivara foi reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade por abrigar o mais importante patrimônio pré-histórico das Américas e a maior quantidade de pinturas rupestres do mundo. A reserva é administrada por um convênio entre o poder público e a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM) que tem como Diretora Presidente, desde a criação da fundação, a pesquisadora Dra. Niède Guidon.

Às vésperas de completar 76 anos, mais de 35 deles dedicados a escavar, estudar e proteger com unhas e dentes a riqueza dos sítios arqueológicos do Piauí, Niède conta que "no começo disseram que era loucura eu me mudar para o sudeste da região, que eu deveria ficar na capital ou próximo ao litoral. Discordei, se não trouxermos estas iniciativas para cá, se não fizermos acontecer transformações que melhorem a situação sócio-econômica destas populações, nunca iremos desenvolver o interior do Brasil".

Niède nasceu na cidade de Jaú, interior de São Paulo, e se formou em História Natural pela Universidade de São Paulo. Viveu na França, onde se especializou em arqueologia e nos estudos de pinturas rupestres pela Universidade de Sorbonne. Na década de 1970, motivada por fotografias das pinturas da Serra da Capivara, organizou expedições à região de São Raimundo Nonato e lá está até hoje. Suas descobertas traçaram novos rumos às pesquisas internacionais sobre a origem do homem na América.

Antes dos vestígios descobertos no Piauí, as pistas mais antigas de ocupação humana nas Américas, datadas de 12.000 anos, só tinham sido encontradas em sítios arqueológicos no estado do Novo México, nos Estados Unidos. Batizados de "tradição Clóvis" (nome da cidade próxima a região onde os fósseis foram encontrados), os achados norte-americanos foram por muito tempo as únicas provas que levavam a uma explicação de como o homem pré-histórico saiu da África, caminhou até o estreito de Bering durante o período das glaciações e chegou a América.

Descobertas posteriores nos sítios de Monte Verde, no Chile; Lagoa Santa, em Minas Gerais, e os achados da Dr. Niède, no Piauí, contribuíram, e continuam contribuindo, para reescrever as teorias da ocupação das Américas. Hoje é tido como certo o homem pré-histórico ter feito migrações anteriores há 12.000 anos pelo estreito de Bering (Pré-Clóvis) e se fala na possibilidade dessas populações terem escolhido também outras rotas para atingir o continente americano, como por exemplo, pelo mar.

  • Luiz Citton/UOL

    Funcionários da FUMDHAM fazem a manutenção e limpeza das pinturas do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí


Discussões de relevância como a desses estudos serão realizadas no Congresso Internacional de Pintura Rupestre, agendado para os meses de junho e julho deste ano no Piauí. "Caso aconteça", completa Niède em tom de desapontamento. "Para mim o sucesso ou o fracasso do congresso será uma das maiores provas que enfrentará o Parque Nacional da Serra da Capivara e todo o trabalho que desenvolvemos aqui. Vai ser um ótimo indicativo para sabermos se devemos continuar lutando contra o descaso do poder público, a falta de verbas ou se devemos, mais do que nunca, tomar novo fôlego e continuar batalhando para preservar esse patrimônio que é de toda humanidade."

Segundo pesquisas feitas por empresas nacionais e internacionais a região do Parque comportaria um complexo hoteleiro de seis estrelas com potencial turístico para atrair cinco milhões de turistas por ano, mais do que o Brasil todo recebe anualmente. O parque emprega moradores locais, investe em pesquisas e tem mais de mil sítios arqueológicos descobertos e catalogados, grande parte deles abertos a visitação. O Aeroporto Internacional da Serra da Capivara, peça-chave para o desenvolvimento das potencialidades da região, está há mais de dez anos em construção. Leia a entrevista exclusiva com a pesquisadora Niède Guidon:

UOL Viagem: Hoje, grande parte da comunidade científica internacional já reconhece como legítimos os vestígios encontrados no Piauí datados de até 60 mil anos. As teorias de terem existido outras correntes migratórias, distintas das que ocorreram pelo estreito de Bering, ainda suscitam controvérsias entre a elite da pesquisa mundial?
Niède Guidon: Nossos dados indicam, e cada vez mais, com os estudos de antropologia física e datações antigas no México, que quando houve uma seca muito grande na África os homens saíram de lá em busca de alimento e de água e começaram a se espalhar pelo mundo. Eles foram tanto para leste quando para o oeste. Naquela época o mar estava 140m abaixo do nível atual, existiam muitas ilhas e a passagem da África para cá era muito fácil, pois a corrente (marítima) traz as águas para o Nordeste e também para o México.
A primeira teoria de que eles teriam vindo pelos Estados Unidos, pelo Alasca, é muito antiga, data dos anos 1950, quando não se conhecia tudo isso. Sobretudo não se sabia que o Homo Sapiens apareceu na África há 160 mil anos, naquela época se pensava que o Homo Sapiens só tinha 40 mil anos. A arqueologia vai evoluindo e as novas descobertas trazem novos dados.

UOL Viagem: No Brasil, o que falta ser encontrado ou, que local precisa ser escavado, para encontrar as provas que corroborariam as teorias mais controversas da ocupação do homem nas Américas?
Niède Guidon: Para eles chegarem até aqui, tiveram que vir um pedaço por terra. Nossa hipótese é que eles teriam chegado então no litoral do Nordeste e alguns grupos seguiram até a Amazônia, onde evoluíram e deram origem aos Marajoaras. Um grupo pode ter subido o Rio Parnaíba, que era um rio muito grande, nossas pesquisas demonstraram que até nove mil anos atrás a região era tropical úmida, a parte norte do parque tinha Floresta Amazônica e a parte sul, Mata Atlântica.
Os rios eram muito grandes, do tipo do Rio Amazonas, tanto que temos inclusive pinturas de botos. Tínhamos um cenário completamente diferente da caatinga de hoje. Esses homens então teriam subido o Parnaíba, tomado o rio Piauí e chegado até aqui.
Infelizmente a costa brasileira foi muito destruída, não houve pesquisas anteriores. Acho que seria essencial começar a se fazer pesquisas em alguns locais, próximo à costa, onde as condições ainda estejam preservadas para que os sítios possam ser explorados.

UOL Viagem: A resistência da comunidade científica norte-americana em reconhecer como legítimas as descobertas no Piauí se deve, em grande parte, a uma mentalidade norte - centrista de dominação política e socioeconômica?
Niède Guidon: Não, acho que como a primeira teoria tinha nascido lá eles devem ter ficado um pouco apegados e, sobretudo, esqueceram uma base da metodologia científica: uma teoria é uma tentativa de explicar dados, mas se novos dados aparecem essa teoria tem de ser refeita.

UOL Viagem: Baseada em descobertas no Parque Nacional da Serra da Capivara, a senhora afirma estar certa da presença do homem na região do sul do Piauí há 100 mil anos? Qual a repercussão dessas descobertas na comunidade científica mundial?
Niède Guidon: Sim, nós temos na Pedra Furada datações de até 100 mil anos associadas a fogueiras e a material lítico. Essas datações foram feitas por técnicas que não são a do Carbono-14 então alguns alegam que elas não são muito seguras. Entretanto, com o Carbono-14 chegamos a 60 mil anos e, abaixo desta camada, ainda tínhamos um metro e meio com material lítico e carvão, indicando uma presença anterior a essa data.
A questão do homem no mundo muda o tempo todo. As novas descobertas acrescentam novos dados e as teorias são reavaliadas. Veja agora, por exemplo, o sítio de Atapuerca, na Espanha, está revolucionando grande parte das teorias do homem no mundo pelo que está se descobrindo por lá. Somente aqui (América) ficou aquela coisa parada que tinha que ser sempre pelo Clóvis.

UOL Viagem: Qual é o principal empecilho à pesquisa científica no Brasil?
Niède Guidon: Na realidade, sobre pesquisa científica aqui no Brasil, eu sempre achei extremamente eficaz para se conseguir os financiamentos. Nós temos financiamentos pelo CNPq, pela FINEP, acho muito bom. Nossa equipe teve também financiamento, enquanto fui funcionária francesa, da França, que acaba de renovar, pois apesar de estar aposentada, tenho outros colegas trabalhando por aqui. Para nós, o financiamento da pesquisa científica sempre foi favorável.

  • Luiz Citton/UOL

    Parque Nacional da Serra das Confusões, no Piauí


UOL Viagem; A senhora cita um potencial turístico de aproximadamente cinco milhões de visitantes/ano para a região do Parque Nacional da Serra da Capivara. Em que pesquisas se baseiam esses dados?
Niède Guidon: Hoje estou voltando da Serra das Confusões, onde vi um sítio que, se fosse em outro país, teria milhões de pessoas visitando. Em uma paisagem maravilhosa, um sítio com pinturas belíssimas, parece uma capela, algo fantástico. É pena que no Brasil não se dá a devida atenção ao turismo, parece que o brasileiro não gosta de ganhar dinheiro, prefere continuar plantando mandioca e feijão, com o perigo de morrer de fome.
Estamos escavando agora na Serra das Confusões, encontramos uma sepultura coletiva dentre outras coisas maravilhosas e faz pena que o Brasil não aproveite isso. O estudo do potencial turístico da região foi feito por uma empresa suíça, em 1998, quando o aeroporto deveria ter ficado pronto. Contratamos essa empresa, que fez todo o planejamento para nós e todo o estudo do potencial da região e a viabilidade econômica. A conclusão dos suíços -e você sabe que os suíços são excelentes em matéria de dinheiro- é que a única maneira de desenvolver a região de forma auto-sustentável é através do turismo.

UOL Viagem: A questão da reforma agrária e os assentamentos de famílias no entorno do parque continuam a atrapalhar a criação do corredor ecológico entre os parques da Serra da Capivara e das Confusões?
Niède Guidon: Dentro do Parque não fizeram ainda, mas eles estão fazendo junto ao Parque, no limite do Parque, o que é proibido pela lei federal. O IBAMA diz que não pode, mas o Incra põe e estamos tendo problemas. Um dos divertimentos deles (assentados) é entrar no parque para caçar, atirar nas pinturas. Outra coisa que eles têm feito muito é quebrar as placas indicativas que colocamos para os turistas.
Semana passada o IBAMA veio me avisar que em uma área extremamente importante, com muitos sítios, vizinha ao Parque - que inclusive a Fundação (FUMDHAM) comprou e cercou inteirinha justamente para proteger, para evitar a caça, pois tem animais e tudo-, os assentados arrebentaram a cerca e estavam caçando lá dentro. É muito difícil porque acho que hoje o problema principal do Brasil é que o País tem muitas leis, mas não faz seguir essas leis. Quando você fica lutando para que a lei seja aplicada, você se torna uma pessoa antipática. Não vejo que o país possa ser um grande país se essa situação continuar.
Sobre o corredor, não estive lá ultimamente, mas já me comunicaram que há muita gente lá, muitos caçadores além de pessoas desmatando. Esse corredor até hoje não foi efetivado e quando for, não terá mais nada. É lamentável, você vai à Serra das Confusões, vê pessoas transitando irregularmente, gado dentro do parque, e tudo por lá é absolutamente maravilhoso e poderia trazer muito dinheiro para o Brasil.
O poder público é muito dividido, cada ministério acha que é o dono da bola, não é uma equipe. Acredito que parte disso acontece pelo fato de os ministérios mudarem muito, toda a política envolvida, não há nada técnico. Prevalece o interesse político sobre o interesse nacional. Acredito que enquanto não tivermos ministérios formados por pessoas que fizeram concurso, funcionários de carreira, com uma formação técnica, as coisas não vão melhorar. Aqui (Piauí) muda todo mundo, principalmente os chefes. Um chefe de um Parque Nacional tem que ser uma pessoa que tenha uma formação em biologia, em geologia, que tenha um conhecimento da natureza e que tenha também um conhecimento de administração. Não é possível que seja só por razões políticas.

UOL Viagem: Sobre a questão do aeroporto internacional, em que pé está a negociação ou até onde vão as promessas do poder público para a finalização das obras?
Niède Guidon: A promessa de conclusão era para 1998, mas as obras continuam. O governador prometeu que terminam agora em junho para o Congresso que teremos aqui este ano.

UOL Viagem: A senhora disse que o Congresso Internacional de Arte Rupestre representaria um momento decisivo para o Parque. Como está a preparação e quais são as suas expectativas para o evento?
Niède Guidon: É um momento em que vem gente do mundo todo e em que o Piauí vai mostrar o que é capaz de fazer. Quer dizer, se está fazendo bem, se as coisas vão dar certo ou se vai ser tudo malfeito. Aí ficará ruim para o Piauí, que correrá o risco de perder as pessoas interessadas em visitar o patrimônio.
Eu tenho uma mania, gosto de trabalhar com muita antecedência, mas infelizmente, aqui no Brasil, parece que tudo é feito de última hora. Vamos ver, o pessoal do governo está por aqui, já estão começando a trabalhar e acredito que dará certo.

UOL Viagem: Qual é a principal preocupação da pesquisadora Niède Guidon hoje e qual o seu maior desejo/sonho em relação ao Piauí e ao Parque Nacional da Serra da Capivara?
Niède Guidon: O problema principal é a burocracia que atrapalha a administração do Parque. Hoje conseguimos tomar conta do parque através de doações da Petrobrás, nossa principal financiadora, através do dinheiro do CNPq e da FINEP, mas o problema está na administração. As exigências, a burocracia cresceu de uma tal maneira que tenho sido obrigada a contratar advogados do Rio, São Paulo e Brasília, pois o pessoal daqui já não está nem mais entendendo como as coisas são feitas. Nós criamos o Parque com o intuito de desenvolver a região econômica e socialmente, entretanto as licitações são um absurdo e tudo é extremamente complicado. Não acredito que isso acabe com a corrupção, pois aqueles que são corruptos continuam praticando, mas dificulta a vida das pessoas honestas. Nossa dificuldade hoje é a burocracia monstruosa.
O meu sonho é que os deputados e senadores transformem a Serra da Capivara em um principado livre. D. João já prometeu que seria o nosso príncipe, e aí poderíamos viver por nossa conta, sem burocracia e auto-sustentáveis pelo turismo (risos).
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