Norte do Peru tem história muito mais antiga que a dos incas

MARIA EMÍLIA COELHO

Colaboração para o UOL Viagem, do Peru

  • Divulgação/PROMPERU

De imediato a palavra Peru evoca as imagens das ruínas de Machu Picchu, a famosa cidade sagrada dos incas. Mas apague-as agora da sua memória, pois sua história ocupa só uma parte dos 20 mil anos da presença do homem em território peruano. O país deve ser lembrado primeiro como berço das civilizações da América do Sul, guardando boas surpresas para aqueles turistas que se atrevem a sair dos roteiros tradicionais, partindo rumo às rotas menos conhecidas.

A costa norte do Peru é um desses destinos pouco previsíveis e cheio de atrações milenares. O lugar abriga sítio arqueológico que leva o viajante ao universo das culturas Moche (ou Mochica) e Chimú. A 20 minutos do centro da simpática Trujillo (terceira maior cidade do país, a 560 quilômetros de Lima pela estrada Panamericana Norte), é possível conhecer as Huacas do Sol e da Lua. As duas grandes pirâmides de barro foram construídas pelo povo Mochica, que desenvolveu impressionantes técnicas de pesca, agricultura, cerâmica, metalurgia e tecido entre os séculos 1 e 7 d.C.

Próximas ao mar, a Huaca do Sol funcionou como centro político-administrativo, e a da Lua, como templo religioso. A visita turística compreende a Huaca da Lua, onde arqueólogos realizam um minucioso trabalho de investigação e conservação há 20 anos. Em suas paredes podemos observar diferentes desenhos coloridos que representam ao Ai-apaec Degollador, deus principal da cultura Mochica. Mais de 40 guerreiros sacrificados em nome do guia espiritual foram encontrados durante as escavações.

Em 2005, os arqueólogos também descobriram no sítio arqueológico El Brujo, a 60 quilômetros de Trujillo, a tumba de uma mulher mumificada - prática nunca antes vista nessa cultura. Seu corpo ainda conserva pele, unhas, cabelos, dentes e incríveis tatuagens, pois o embalsamamento impediu a decomposição da jovem, que na época de 300 d.C. devia ter entre 20 e 25 anos. A Senhora de Cao, como foi batizada, coloca em xeque a idéia da cultura Moche como uma sociedade patriarcal. A quantidade de jóias e objetos sagrados encontrados no sarcófago são os indícios que se tratava de uma nobre mochica.

O guia explica que o reino Moche se extinguiu por causa dos impactos gerados pelo fenômeno El Niño, que periodicamente castiga o litoral desértico do norte do Peru com chuvas torrenciais e inundações. No século 9, o território foi ocupado pela população da cultura Chimú, que em 1470 foi dominada pelos incas, pouco antes da chegada dos colonizadores espanhóis.

A apenas dez minutos de carro de Trujillo, outro passeio é obrigatório: Chan Chan, a maior cidade de barro da América, é a antiga capital da civilização Chimú. Construída há 700 anos, o lugar é um imenso labirinto de muralhas de doze metros de altura decoradas com figuras geométricas e seres mitológicos. Em sua estrutura, é possível distinguir as ruas, casas, praças, depósitos, oficinas, um verdadeiro centro urbano pré-hispânico, que albergou aproximadamente 100 mil pessoas. A área de 200 hectares que restou da civilização foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, em 1986.

Outro exemplo do legado dos chimús é a Huaca El Dragón (ou Arco Íris), a apenas quatro quilômetros do centro. Nas paredes do monumento construído em adobe há 1.100 anos foram talhadas gravuras de um ser bicéfalo com inúmeras patas e bocas abertas de onde sai um suposto arco-íris. Na loja de artesanato do complexo arqueológico, vale conferir a arte de Angel Tamay Vargas, que há décadas reproduz as curiosas peças de cerâmicas zoomórficas e antropomórficas do antigo povo. "Continuar um trabalho que começou há mais de mil anos é a missão que eu carrego comigo todos os dias", afirma o artesão de 82 anos.

Divulgação/PROMPERU
Restos mortais do célebre Senhor de Sipan, que viveu no Norte do Peru há 1700 anos


Fundada pelos espanhóis em 1535, Trujillo também é uma amostra da esplêndida arquitetura colonial peruana. Por suas ruas, destacando-se edifícios como a Catedral, o Palácio Arcebispal, a igreja da Companhia e o monastério de El Carmen. Na Plaza de Armas, uma pose para a câmera de fotos centenária do simpático senhor Henrique Rebaza deveria estar incluso nos programa de city tour das agências de viagem. Desde que comprou a antiguidade na década de 40, ele realiza a mesma atividade: fotografar os turistas que chegam a capital do departamento La Libertad, também conhecida como a Cidade da Eterna Primavera.

Seguindo pela estrada Panamericana Norte, e a 214 quilômetros de Trujillo, está Chiclayo, importante ponto de confluência comercial entre a costa, a serra e a selva peruana. A capital do departamento de Lambayeque reúne os ingredientes de uma metrópole com o espírito tranqüilo de una cidade provinciana. Assim, o lugar que um dia foi habitado pela cultura Mochica é conhecido hoje como a Capital da Amizade.

Chiclayo abriga o moderno Museu Tumbas Reales do Senhor de Sipán, que exibe um impressionante acervo da cultura Moche, como numerosas jóias em ouro e prata decoradas com pedras turquesa e lápis-lazúli. As peças encontradas no Complexo Arqueológico de Huaca Rajada, em 1987, estavam junto com os restos mortais do célebre Senhor de Sipan, que viveu nessas terras há 1700 anos. No museu, uma simulação em 3D mostra como era o evento funerário de um governante mochica, transportando o visitante do Norte do Peru, mais uma vez, para muitos e muitos séculos atrás.


A repórter Maria Emília Coelho viajou a convite do Promperu

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