Viagem

Novos hotéis criam uma ilha de estilo em um mar de rudeza

MIKE ALBO

New York Times Syndicate

11/11/2008 07h05

Houve um tempo em que muitos de nós seguiam para o centro porque era o lugar para onde iam os bizarros garotos freqüentadores de clubes, poetas bêbados estranhamente sedutores e tipos bacanas-assustadores de teatro experimental. Agora o centro é uma revista de estilo de vida animada, um local onde turistas vão para procurar aquela rua "autêntica" usada em fotos de moda ou no episódio da semana passada de "Gossip Girl".

Ele também é cada vez mais um lugar onde hotéis reluzentes estão despontando com uma freqüência quase improvável, muitos deles nos lugares onde você menos esperaria: entre os prédios de apartamento do Lower East Side, acima dos trilhos de trem abandonados ao longo do Rio Hudson e ao longo das ruas sujas onde funcionários de frigoríficos trabalhavam de dia e prostitutas-travestis faziam ponto à noite.

Vire a esquina e você verá um lobby envidraçado que ontem não estava lá, cheio de pessoas felizes, vestidas elegantemente e que parecem adequadas ao local. Quem são? Compradores estrangeiros delirantes com a taxa de câmbio? Fãs de "Sex and the City"? Banqueiros de investimento iludidos à procura do canto do cisne?

Aqui estão alguns dos mais novos hotéis do centro, alguns badalados, outros nem tanto, onde é possível ficar mais próximo do bairro rude, mas atrás de um vidro, segurando um martini.

Thompson Lower East Side

Divulgação
Thompson LES ainda está em construção, mas já aceita hóspedes desde agosto
O Thompson LES com 22 andares ainda está em construção, mas já aceita hóspedes desde agosto. Desenvolvido por Jason Pomeranc, cuja elegante rede butique inclui 60 Thompsons, o hotel tem uma fachada preta e suave que se destaca no bairro ainda sujo como uma caixa de sapato chique.

Quando cheguei, em uma quinta-feira chuvosa, dois homens robustos com aparência de modelos de catálogo montavam guarda no lobby envidraçado, um clichê minimalista que de alguma forma parecia novo ao lado da Domino's Pizza e de um projeto habitacional. "Clap Your Hands Say Yeah" estava tocando, e todos pareciam bastante empolgados em dizer oi. Eu dividi o elevador para o 11º andar com um grupo de australianos que se queixavam aos brados por seu vôo ter sido cancelado por causa do tempo ruim.

Meu quarto padrão era moderno e vagamente industrial, como uma visão de hotel de luxo de um loft no centro, com concreto exposto, móveis imitando estilo da metade do século e uma orquídea ao lado da cama. Mas foi a vista do quarto que mais me impressionou. Pairando sobre os prédios de apartamento para alugar da Allen Street -e provavelmente pagando o mesmo que eles mas por única noite (US$ 500)- eu me senti como se fizesse parte da "classe criativa" corporativa, um diretor, digamos, dos comerciais da Nike.

Mas a fantasia às vezes era difícil de manter. Apesar do hotel ter sido inaugurado há um mês, marteladas abafadas e perfuração podiam ser ouvidas enquanto a piscina, academia, spa, bar, restaurante e um punhado dos 141 quartos estavam sendo concluídos.

Ainda assim, o hotel oferecia toques agradáveis. Um mini-serviço ao anoitecer veio com pequenos brownies e o banheiro de granito cinza estava estocado de produtos Kiehl's de tamanho para viagem. O minibar também estava bem estocado -com nozes, M&M's e um "Kiki de Montparnasse Sensuality Kit", que continha duas tiras de seda com algemas impressas, um pequeno vibrador, camisinhas e lubrificante pelo nada erótico preço de US$ 195.

Pela manhã, eu acordei livre de algemas, mas atônito com o panorama silencioso do centro de Manhattan. Após uma ducha no chuveiro em box de vidro, eu fui ao 15º andar, onde um bufê temporário de café da manhã foi montado em uma suíte ensolarada. Cinco hóspedes que pareciam executivos do canal VH1 desfrutavam das cestas de frutas, café, chá e pãezinhos. Ninguém dizia uma palavra. Parecia até uma sala de espera de cirurgia plástica.

Eu tomei meu café na sacada, que parecia pairar como um helicóptero sobre as velhas caixas d'água, antenas tortas e as "praias" de piche. Na cobertura de um prédio, a palavra "Heroína" estava rabiscada em letra de mão -algo "autêntico" e bem "centro" para futuros hóspedes do Thompson LES desfrutarem.

Hotel East Houston

Se o Thompson é como uma alta supermodelo, o Hotel East Houston é sua irmã mais baixa e mais feia, situado em um prédio de tijolos de seis andares na esquina das ruas Eldridge e East Houston -talvez um dos quarteirões mais barulhentos do Lower East Side- o hotel lembrava uma rede de desconto encontrada em alguma cidade européia sem charme como Genebra ou Calais.

Meu "deluxe" no terceiro andar era quase que todo tomado pela cama tamanho king, o que dificultava a abertura do guarda-roupa embutido. Ele parecia mais um apartamento reformado às pressas do que um hotel planejado: as paredes eram brancas e sem charme, uma mesa estreita estava socada contra uma parede, um emaranhado de cabos estava enfiado sob a TV de tela plana. Quando puxei a cortina para clarear mais o quarto, ela se desprendeu e caiu.

Eu desci ao lobby para informar aos funcionários sobre a cortina -para que soubessem que eu não estava tentando destruir o quarto como um astro do rock. O funcionário na recepção pediu desculpas, mas nunca ofereceu que fossem reparadas. Enquanto eu estava lá eu vi outros hóspedes se queixando: um casal com um chuveiro que vazava, e um empresário carrancudo pedia pela segunda vez por copos e gelo.

Definitivamente não era o Four Seasons, mas a diária do meu quarto era de apenas US$ 279, o que beira o barato em um bairro que agora tem um Whole Foods Market.

O Jane

Divulgação
Os quartos do The Jane lembram uma cabine de luxo de trem
O Lower East Side pode estar atingindo seu ponto de saturação de hotéis, mas isso empalidece diante do distrito de frigoríficos, onde os ainda frescos Hotel Gansevoort, Maritime Hotel e Soho House em breve serão ofuscados pelo Standard Hotel, de André Balazs, com 300 quartos e inauguração prevista para 2009.

No momento a agitação no bairro é em torno do Jane, um "micro hotel" de 200 quartos que ainda está sendo reformado por Sean MacPherson e Eric Goode, empreendedores da vida noturna conhecidos por pontos badalados como o Waverly Inn e o já mencionado Maritime.

Situado em uma estrutura neoclássica de tijolos vermelhos de 1908, o Jane fica ao lado do Rio Hudson e originalmente hospedava marinheiros (e, posteriormente, sobreviventes do Titanic), apesar dos quartos como cabines mais recentemente terem sido usados como moradia para pobres e sem-teto. Cerca de 90 deles permanecem e, segundo o representante de relações públicas do hotel, são "bem-vindos a permanecer", apesar de que o aumento do aluguel dificultará isso.

Para fins de reportagem, eu optei pela minúscula cabine "padrão", com banheiro compartilhado, pela pechincha de US$ 99.

Eu cheguei em uma sexta-feira quente e úmida e o hotel parecia longe de concluído. O nome anterior, Hotel Riverview, ainda estava no toldo vermelho e o lobby encardido parecia um cenário de filme do Al Pacino dos anos 70, com o balcão da recepção protegido atrás de uma janela em Plexiglas. Mas as coisas melhoraram no quinto andar, onde meu quarto ficava situado. O corredor estreito foi reformado com lustres antigos, placas de latão nas portas e tapetes antigos, e tive uma idéia de qual era a direção pretendida por este hotel: seu passado fantasmagórico.

Meu quarto tinha meros 4,5 metros quadrados, mas podia se passar por uma cabine de luxo de trem: com painéis de madeira e projetado para uso de cada centímetro do espaço. Havia prateleiras sob a cama de casal, um ventilador fixado na parede e um ar-condicionado instalado acima da janela estreita. Eu não consegui encontrar o controle remoto da pequena televisão, mas não importou: tudo estava ao alcance do braço.

O banheiro unissex comunal ficava ao final de um longo corredor. Quando fui até lá para escovar meus dentes, eu notei que minha porta, como a dos outros hóspedes do hotel, era de madeira escura, enquanto a dos inquilinos eram pintadas de cinza. Eu queria encontrar um deles, mas apenas vislumbrei um sujeito cinqüentão grisalho voltando do banheiro, envolto em uma toalha. Ou seria um fantasma.

Outro morador estava com sua porta aberta, com a TV no último volume. Ao passar, tudo o que pude ver foram roupas penduradas no teto e o fedor de alguém que fumava muito e estava com o fígado comprometido.

Eu esperava os lavatórios da Penn Station do metrô, mas quando finalmente cheguei ao banheiro, fiquei agradavelmente surpreso em encontrá-lo limpo e arrumado, com azulejos brilhantes em xadrez preto e branco, e um balcão de mármore com pias de porcelana e sem forte odor de desinfetante. Ao voltar ao meu quarto, eu me senti um pouco assustado -como seu houvesse espíritos vagando pelos corredores- mas suspeito que isso era intencional.

Gild Hall

Inserido nas cavernas do distrito financeiro, o Gild Hall com 126 quartos evoca um passado mais recente -de Wall Street durante seu auge dourado, que, eu acho, acabou no mês passado.

Outra adição à rede de hotéis-butique de Pomeranc, o Gild Hall lembra um clube de cavalheiros, com seu lobby claro mobiliado com poltronas de couro em capitonê, chifres de alce e paredes de nó de pinho. Quando cheguei, estava tocando Scissor Sisters, um tapete de couro de vaca estava colocado sobre o piso e a escadaria era margeada por prateleiras repletas de livros pesados da moda e clássicos como Thackeray. Parecia bacana e inglês -como a casa de solteiro do príncipe William.

Eu fiz o check-in em uma tarde de sábado, quando grande parte de Wall Street estava deserta. Meu quarto, um "deluxe king" no terceiro andar, dava vista para a escura e estreita Platt Street. Mobiliado com um agradável papel de parede e uma cabeceira de couro vinho, ele parecia um apartamento do tipo estúdio de um designer gráfico elegante e muito limpo. O banheiro era pequeno, mas tinha azulejos cinza modernos e um espelho cercado por um halo de luz difusa que dá aos seus olhos aquele reflexo freqüentemente visto nos videoclipes musicais.

O quarto era aconchegante e convidativo, mas sem vista da rua, lounge de coquetel ou kit erótico, eu não sabia ao certo o que fazer. Felizmente o hotel conta com pequenas academias de ginástica em três andares. Naquela que visitei -do tamanho que imagino que seja o closet de sapatos de Mary-Kate Olsen- havia uma esteira, um Cybex Arc Trainer e um conjunto reluzente de pesos.

De volta ao meu quarto, eu ataquei o minibar para uma Heineken pós-malhação. Por volta da meia-noite, uma imensa festa de casamento voltou da recepção e saiu batendo portas até as 5 horas da manhã. O barulho ecoava pelos desfiladeiros silenciosos de Wall Street, fazendo com que me sentisse um viajante a negócios solitário, preso em um distrito estranhamente morto e ansiando por diversão. Eu optei por mais duas Heinekens, meia garrafa de merlot e adormeci.

O Greenwich Hotel

Divulgação
No Greenwich Hotel, "não há experiência que nosso concierge não possa arranjar"
O seguinte está presente no manual do quarto do Greenwich, um novo hotel de luxo em TriBeCa, de propriedade parcial de Robert De Niro: "Não há experiência que nosso concierge não possa arranjar. Algumas poucas idéias para começar: um passeio até as vinícolas de North Fork em um Aston Martin vintage; um perfume personalizado preparado por um mestre perfumista; uma aula particular de culinária sobre as aspectos mais finos da cozinha japonesa".

Espere: como eles sabiam?

Cada quarto é aparentemente único. O meu tinha a aparência de um chalé em Aspen, com mosaico de ladrinhos amarelos, paredes revestidas de madeira, um sofá púrpura, uma poltrona entalhada em madeira e a maior cama na qual já dormi.

Após zapear canais na tela plana gigante de TV, minha companhia e eu seguimos para o lobby, que, em uma recente noite de quarta-feira, estava silenciosa. Um salão atrás da recepção parecia a biblioteca de Martin Scorsese, com cadeiras e poltronas antigas, livros cuidadosamente selecionados (um guia de Nápoles, um imenso volume de Helmut Newton) e portas francesas que levavam a um pátio adorável. Nós pedimos duas taças de vinho Barbera d'Alba para uma bela mulher com saltos pesados e pagamos US$ 30.

No porão, havia uma academia de ginástica bem equipada e o Shibui Spa. Uma porta de madeira em craquelê levava a um banheiro funcional, com armários, um vaso sanitário-bidê Toto Washlet com descarga, jato de água e secador de ar, e duas grandes áreas de banho com chuveiros maiores do que um jato 727. Do outro lado ficava uma imensa banheira ao estilo japonês.

Ao voltarmos ao quarto, nós notamos que o serviço trouxe um misterioso brinquedo japonês: uma espécie de lenço de papel que, quando soprado, se transformava em uma criatura semelhante a um pingüim.

Amanhã eu estarei de volta ao mundo real, ao meu apartamento desarrumado sem bidê e sem alguém para arrumar minha cama. Mas por pelo menos mais uma noite, enquanto adormecia em um oceano de lençóis ricos em fios, o centro de Manhattan nunca pareceu tão rico e convidativo.

Os Badalados e os candidatos


Thompson Lower East Side, 190 Allen Street, (212) 460-5300; www.thompsonhotels.com. Diárias a partir de US$ 395. Um edifício envidraçado luxuoso em meio a prédios de apartamentos manchados de fuligem.

Hotel East Houston, 151 East Houston Street, (212) 777-0012; www.hoteleasthouston.com. Diárias a partir de US$ 249. Quartos modernos apesar de genéricos em uma esquina bastante movimentada do Lower East Side.

Gild Hall, 15 Gold Street; (212) 232-7700; www.thompsonhotels.com. Diárias a partir de US$ 400. Um hotel badalado que parece um esconderijo caro, inserido nos desfiladeiros do distrito financeiro.

The Jane, 113 Jane Street, (212) 924-6700; www.thejanenyc.com. Diárias a partir de US$ 99. Cabines minúsculas mais cheias de estilo revestidas de madeira.

The Greenwich Hotel, 377 Greenwich Street, (212) 941-8900; www.thegreenwichhotel.com. Diárias a partir de US$ 550. Um hotel de luxo para celebridades, ou aqueles que têm dinheiro para ficar próximos delas.

Em Breve

The Standard, 848 Washington Street; www.standardhotels.com. O mais recente do ousado dono de hotéis André Balazs. Cerca de 100 dos 330 quartos poderão estar disponíveis em dezembro.

Mondrian, 150 Lafayette Street; www.morganshotelgroup.com. Esta filial com 270 quartos do original de Hollywood deverá ser inaugurada em 2009.

Cooper Square, 25 Cooper Square, (212) 475-5700; www.thecoopersquarehotel.com. Este hotel envidraçado de 21 andares, que se ergue sobre o Bowery como um frasco chique de perfume leitoso, deverá ser inaugurado em 30 de outubro.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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