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No lugar do cinza soviético, agora uma mistura colorida em Kosice (Eslováquia)

Fotos Tamas Dezso/NYT
Imagem: Fotos Tamas Dezso/NYT

LIONEL BEEHNER

New York Times Syndicate

25/08/2008 21h00

Uma ruela escura abaixo, margeada por cervejarias ao ar livre e bares de narguilé, um banda afro-jazz funk subiu ao pequeno palco do Piano Cafe, um lounge cheio de fumaça no centro de Kosice.

Não era exatamente o que um visitante pela primeira vez esperava encontrar em uma cidade centro-européia de siderúrgicas e prédios de apartamentos da era soviética. Mas, à medida que a batida de samba africano tomava o café lotado, um público artístico de jovens eslovacos vestindo camisetas de rock metal e óculos de estudioso sentou-se em atenção extasiada, bebericando seus mojitos e ignorando a música tecno no andar de baixo.

Por décadas, Kosice, uma cidade de 250 mil habitantes no leste da Eslováquia, era considerada uma cidade industrial atrasada &#8212quando era considerada. (Bratislava, a capital da Eslováquia, concentrava as atenções.) Mas, nos últimos anos, um belo centro recuperado surgiu de trás do feio verniz de concreto cinzento e aço, atraindo artistas, empreendedores e um crescente número de turistas.

Hlavni Namesti, a recém reformada praça principal da cidade, agora brilha com galerias de arte, restaurantes com toalhas de mesa brancas e hotéis de luxo equipados com adegas. As minas e quartéis militares inativos foram transformados em estúdios para artistas underground. E uma coleção de depósitos sem uso no alto da colina está sendo convertida em um local para festivais ao ar livre, festas de música eletrônica e shows de laser.

"Está realmente havendo um boom", disse Michael Hladky, um arquiteto local de 27 anos que é especializado em novo urbanismo. "Não é mais o caso da arte pública ser decidida pelos velhos dos tempos comunistas. Uma geração mais jovem está chegando."

A transformação não foi acidental. Com a desaceleração de suas siderúrgicas, Kosice, uma ex-cidade do bloco soviético, decidiu no final dos anos 90 reformar o centro de ruas de pedras arredondadas da cidade. A idéia era estimular a cultura e as artes.

"Nós queremos ser incubadores de artistas jovens", disse Marek Kolarcik, diretor do projeto Kosice 2013, uma força-tarefa pública que faz lobby para que a cidade seja nomeada Capital Européia da Cultura. "Nós estamos atrasados em relação a Bratislava, mas, em dois anos, o boom chegará."

Sua diversidade histórica pode ajudar. Graças à sua localização na fronteira do Império Habsburgo, Kosice tem tanto raízes eslavas quanto magiares. O único teatro romano da região pode ser encontrado ali, e as livrarias contam tanto com revistas eslovacas quanto húngaras. Os moradores também gostam de apontar que em 1968, quando Moscou enviou tanques ao país para reprimir o movimento de reforma conhecido como Primavera de Praga, parte da intelligentsia tchecoslovaca foi enviada para trabalhar nas siderúrgicas de Kosice, estabelecendo a fundação para a renascença cultural da cidade.

Em uma tarde úmida no final do ano passado, as cervejarias ao ar livre ao longo da praça principal estavam vazias de seus freqüentadores regulares &#8212uma mistura de universitários e operários do aço&#8212, mas as calçadas estavam tomadas por transeuntes apressados. Um par de idosas alimentava os pombos no parque enquanto uma leve música de elevador podia ser ouvida vinda de uma fonte próxima.


No Diesel, um bar kitsch, é possível achar adolescentes com malhas com capuz ávidos por conversar com pessoas de fora


Uma neblina encobria as torres da catedral de Santa Elizabeth. Construída a partir do final do século 14, ela é a maior igreja da Eslováquia, e seu exterior guarnecido com gárgulas faz alguém se perguntar se Quasimodo está pendurado sobre sua entrada gótica. A torre do relógio no topo da catedral oferece vistas panorâmicas, e a cripta abaixo permite que você circule entre as tumbas.

Ao lado da igreja fica a medieval torre do sino de Santo Urbano. Seu interior abobadado foi transformado em um museu de cera esfarrapado dedicado a heróis locais como Andrej Varchola &#8212também conhecido como Andy Warhol&#8212, cuja família vem da região. Sua imagem de cera, completa com seu cabelo branco característico, fica ao lado da imagem de um general e outros heróis da história eslovaca.

De fato, Kosice parece ter abraçado seu lado mais peculiar. Cineastas e tipos da mídia vão à cidade todo mês de junho para entregar um prêmio para documentários chamado de Mendigo Dourado, cuja imagem é um vagabundo levantando o chapéu.

Assim como seu pró-americanismo. Espaguete estilo eslovaco é servido no Bill Restaurant, que recebe o nome &#8212de quem mais? &#8212 de Bill Clinton, mas a garçonete disse que ele nunca pôs os pés no local. A entrada conta com um recorte de uma caricatura do ex-presidente exibindo um sorriso largo, e o interior cavernoso conta com memorabilia kitsch americana espalhada pelas paredes laranja, incluindo, é claro, um saxofone.

Foice e martelo

Mas o passado de foice e martelo de Kosice nunca está distante. Virando a esquina se encontra o Krcma Nositel Radu Prace, um bar saído da guerra fria. Um grupo de operários se reunia ao redor das mesas, cantando o que pareciam canções soviéticas e virando cerveja barata Topvar, enquanto retratos de Lenin e Marx espiam das paredes descascadas e uma babushka de aparência furiosa atende no bar. "Este é um local para desempregados, não turistas", disse Milan Seliga, um caminhoneiro, antes de virar uma dose de vodca.

As tentativas de livrar Kosice de sua imagem provincial não foram fáceis. Parte do problema pode ser a reputação da Eslováquia &#8212não totalmente infundada&#8212 de serviços ruins e falta de domínio de línguas estrangeiras, um resquício de seus tempos comunistas. "Eles freqüentam a escola de hotelaria por quatro anos, mas só aprendem a sorrir no quinto", disse Richard Gibbs, um professor aposentado da Inglaterra, que estava visitando os Altos Tatras, as montanhas que separam a Eslováquia da Polônia.

Mas, após passar pelo Piano Cafe e descer uma rua não sinalizada conhecida como conjunto de clubes, é possível encontrar um homem sociável cuidando do bar no Diesel, um bar kitsch, e adolescentes com malhas com capuz ávidos por conversar com pessoas de fora da cidade entre baforadas de Marlboros.

Esta cordialidade talvez seja mais claramente sentida pelos artistas da cidade. "Este lugar é como imagino que Nova York era nos anos 30", disse James Austin Murray, um pintor de 38 anos de Nova York, que visita Kosice ocasionalmente. "Há esta sinceridade que vem da falta de ambição em relação ao dinheiro."

A PRÓXIMA CAPITAL DA CULTURA

Como Chegar Lá
Kosice fica a cerca de cinco horas de ônibus ou trem de Bratislava ou Budapeste.

Onde Ficar
O Hotel Bristol (Orlia, 3; 421-55-729-0077; www.hotelbristol.sk) com 32 quartos oferece vistas da catedral e um spa romano, com quartos simples a partir de 3.300 coroas eslovacas, ou US$ 171, com o dólar cotado a 19,65 coroas.

O Hotel Bankov (Dolny Bankov; 421-55-632-45-22; www.hotelbankov.sk) conta com alguns dos quartos mais luxuosos na cidade, com vistas do parque em seu terraço de verão e uma sauna finlandesa. Quartos a partir de 2.950 coroas.

Onde Comer
Para pratos tradicionais eslovacos, vá ao Twelve Apostles (Kovacska, 51; 421-55-729-5105), onde os clientes se sentam em bancos de madeira em uma sala parecida com um tabernáculo. O cardápio inclui peito de frango com cerejas (385 coroas) e salmão defumado com legumes grelhados (450 coroas).

O Bill Restaurant (Hlavna, 117; 421-9-07-970-863) serve pratos de inspiração americana.

Outro ponto popular é o Diesel Pub (Hlavna, 92; 421-55-622-2186), que oferece comida gordurosa, mas gostosa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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