Em busca do ouro negro: uma viagem a Dublin para visitar a fábrica da Guinness

CLAUDIA ASSEF

Colaboração para o UOL

  • Fotos Claudia Assef/UOL

Tem gente que vai a Roma para ver o papa. Tem quem vá ao Egito em busca da foto perfeita das pirâmides. Eu e meu marido fomos a Dublin, num bate-e-volta partindo de Londres, com a única e exclusiva intenção de conhecer a Guinness Storehouse, uma das visitas mais desejadas por cervejeiros do mundo todo. Se você é um amante do amargor negro da Guinness, talvez o mais cultuado dos patrimônios irlandeses, prepare-se para ficar com muita inveja.

A Guinness Storehouse é a parte aberta para visitações dentro do conglomerado St. Jame's Gate Brewery, complexo cervejeiro criado em 1759 por Arthur Guinness. Na época, ele fechou um contrato de leasing que previa o uso do terreno por 9.000 anos, ao preço anual de 45 libras. Depois da morte do fundador, em 1803, os herdeiros trataram de levar a paixão do pioneiro adiante e acabaram criando uma das marcas mais fortes do mundo anglo-saxão.

Alardeada como atração número um da Irlanda para turistas estrangeiros, a Storehouse já recebeu mais de 4 milhões de visitantes desde a abertura de suas portas, no ano 2000.

Apesar da simpatia que sempre nutri pela Irlanda, por ícones como James Joyce, bochechas rosadas e U2, a verdade nua e crua é que foi o fascínio pela mais famosa das cervejas "stout" do mundo que me levou a comprar dois bilhetes de ida-e-volta, com data para o mesmo dia, da baratíssima companhia Ryan Air, outro símbolo da Irlanda.

Seguindo a lógica das companhias aéreas de baixo custo da Europa (segundo a qual, quanto maior a antecedência da compra, maiores as chances de se conseguir uma passagem de graça), nossos bilhetes, que foram comprados com quase dois meses de antecipação, saíram por menos de dez libras cada um (cerca de R$ 32). Na verdade, pagamos apenas os impostos, as passagens mesmo saíram na faixa! Mas é bom lembrar que estas companhias baratas nunca voam pelos aeroportos centrais, o que implica um custo razoável com transporte, além de demandar um tempo maior de traslados. Porém tudo é detalhe quando se tem em mente uma jornada em busca de cálice tão sagrado.

Partimos de Londres, do aeroporto de Stansted, longe pra dedéu do centro. Um tal de pegar metrô, trem e, finalmente, um ônibus. Quase duas horas depois, estávamos com nossos cartões de embarque em mãos, sedentos, literalmente, para a chegada a Dublin.

No avião, a constatação de que o passeio é tipo uma Disney dos adultos. Um grupo de senhores e senhoras na casa dos 60 anos de idade tocou o terror na aeronave, bebendo cerveja (paga, é claro), falando alto e pelos cotovelos. Um grisalho gorducho e bem corado nas bochechas usava um chapéu tipo de bobo da corte com o logo da Guinness ornamentando. Tirei uma foto mental do grupo, para usá-la como exemplo da minha própria velhice. Muito digna e feliz.

Uma hora e meia de avião e estamos em Dublin. Rápido assim, é praticamente uma ponte aérea. Havíamos marcado com um casal de amigos no centro da pequena cidade para irmos juntos à meca da cerva.


Visitantes do Guinness Storehouse, em Dublin, degustam a famosa cerveja no final; cada pessoa só pode tomar um pint
VEJA MAIS IMAGENS DA VISITA À FÁBRICA DA CERVEJA IRLANDESA


É impressionante como tudo em Dublin acaba em Guinness. Não que eu esteja reclamando, mas fora o preto-e-branco da rainha das "stouts" e o verde dos suvenires temáticos (de trevos-de-quatro-folhas e duendes), Dublin é cinza e um tanto tediosa.

A pé, é possível cruzar o centro da cidade e chegar em menos de uma hora ao conjunto de fábricas que compõem a St. Jame's Gate Brewery. O logo da Guinness carimbado nos portões faz o coração de qualquer "guinnessólogo" saltar pela boca.

Enfim, chegamos ao portão que interessava, o da Storehouse, único que acolhe visitação pública. O "parque temático" da Guinness foi criado ali no ano 2000, após dirigentes terem constatado o amor e a devoção do público pela marca. Em 2006, o "templo" recebeu investimento de € 2,5 milhões e uma nova ala foi inaugurada.

Erguida dentro de uma cervejaria desativada, a Storehouse é um prédio de sete andares em formato de cilindro. Durante 102 anos, foi a edificação mais alta de Dublin. A construção é circular, como se fosse um grande pátio francês, só que redondo. "É como se estivéssemos dentro de um pint", nos explicou o guia Steve, referindo-se ao tradicional copo de 568 ml que é usado como medida padrão para servir cerveja nos bares saxões.

No andar térreo, ficam a recepção e a bilheteria, onde você pode optar por uma visita com guia multimídia (aqueles fones comuns em museus) ou, pagando um pouco mais, por um guia de carne e osso. Mas atenção: se seu inglês anda enferrujado ou seus ouvidos não estiverem acostumados ao sotaque irlandês (no qual, por exemplo, house vira algo como "rôuse"), fica difícil acompanhar as explicações; talvez pelo formato do prédio, a acústica ali dentro é péssima.

Agora, se você quiser voltar desse passeio com um certificado de "tirador de Guinness", pague um pouco mais e faça a "pint tuition", uma verdadeira aula que te ensina os segredos de tirar uma Guinness perfeita.



Também no térreo fica a lojinha (modo de falar, já que ela é enorme) com todo e qualquer tipo de quinquilharia Guinness que você possa imaginar, de pantufas a abotoaduras de camisa. Uma dica? Segure seus impulsos e deixe para comprar nas inúmeras lojas de badulaques do centro de Dublin. A Carrolls é a melhor, tem uma em cada esquina, e é tudo muito mais barato.

Ainda no térreo, você é apresentado aos quatro ingredientes usados na fabricação da cerveja: cevada, lúpulo, água e fermento. Dá até pra levar pra casa um punhadinho de cevada tostada, elemento que dá à Guinness aquela característica cor escura.

No primeiro andar, você aprende, com a ajuda de vídeos, fotos e peças de época, o processo de fabricação da cerveja, cujo princípio não mudou muito, e seu armazenamento, que nos primórdios era feito em barris fabricados a mão. Neste andar fica o laboratório de provas da cervejaria, onde, todas as manhãs, mestres cervejeiros se reúnem para provar e avaliar o produto.

O livro dos recordes

No segundo andar estão reunidos comerciais de várias épocas, em foto e vídeo. É ali que fica guardada a harpa feita em madeira, que deu origem à logomarca. Não por acaso, o instrumento também simboliza a Irlanda. Lá também está a primeira edição do "Guinness Book of Records", de 1955. O livro foi produzido pela empresa, motivado por um papo de bar e pela falta de referências impressas sobre recordes. Atualmente, o livro "Guinness" não pertence mais ao grupo.

O terceiro andar é reservado ao "ato de beber com responsabilidade", aquelas orientações sobre beber com moderação que você, em viagem de férias, pode pular sem culpa. No quarto andar, um painel repleto de recados escritos por visitantes te dá uma dimensão da popularidade do passeio.

Quinto andar, hora de pegar papel e caneta e prestar atenção à aula no Source Bar. Lá, o guia ensina os seis passos para se tirar uma Guinness com perfeição, processo que dura "119,5 segundos", o que faz dessa cerveja um "drinque de gente paciente", como ensinou Steve. Depois da aulinha, quase acontece uma tragédia. Nosso guia, acostumado com a abundância do local, quase joga ralo abaixo as fresquíssimas cervejas tiradas com esmero. Com olhos de faquir diante de um banquete, impedimos a concretização de tal tragédia e nos deliciamos com nossa primeira Guinness tomada in loco, a poucas horas de sua fabricação. Ah, morra de inveja, é indescritível a sensação de frescor.

Depois do primeiro pint, só pensávamos "naquilo", ou seja, no Gravity Bar, um pub minimalista construído no topo da Storehouse, com paredes de vidro que emolduram uma vista de 360º de Dublin. No bar? Guinness, Guinness e mais Guinness. O único defeito é que a bebida é limitada a um pint por visitante. Nem adianta tentar comprar os bartenders, dinheiro não é aceito ali. É preciso apresentar o canhoto do tíquete de entrada para ganhar a sua. Mas, ao final do copo, a certeza de que aquele foi o melhor pint da sua vida fará valer cada minuto da sua viagem.

Guinness Storehouse
Diariamente, das 9h30 às 17h (em julho e agosto, até as 19h); fecha nos feriados Sexta-feira Santa, Véspera de Natal, Natal e Dia de São Stefano (26 de dezembro)
Quanto: € 15 (adulto) e € 11 (estudante maior de 18 anos). Checar disponibilidade da aula Pint Tuition no site www.guinness-storehouse.com.

iWalk
Ideal para quem vai a pé do centro de Dublin para a Storehouse, o iWalk é um podcast criado pela Guinness, com dicas de pontos de interesse ao longo do percurso. Disponível em inglês, francês, alemão, italiano e espanhol, é só baixar o MP3 em www.guinness-storehouse.com.

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