Viagem

50 horas em Ho Chi Minh, a maior cidade do Vietnã

Fotos Haroldo Ceravolo Sereza/UOL
Imagem: Fotos Haroldo Ceravolo Sereza/UOL

HAROLDO CERAVOLO SEREZA
Em Ho Chi Minh (Vietnã)

Parti do Brasil na noite de domingo, com um vôo em direção à França. Às vezes a gente não se dá conta, mas é impressionante como, em muitas áreas, o mundo está dividido da mesma forma que no século 19. O Vietnã não é colônia da França, a rigor, desde 1954, ou 1945, se aceitarmos a data da proclamação da Independência. Mas qual a companhia ocidental que mais voa pra Ho Chi Minh? A Air France. E a companhia vietnamita que voa para o Ocidente faz escalas principalmente onde? Na França.

O fato é que, após a escala na França (oito horas de espera pelo segundo vôo), parti para a longuíssima viagem, felizmente sem escalas, até Ho Chi Minh, também chamada de Saigon (o nome da cidade antes da unificação do país, em 1975), inclusive por seus moradores. E lá cheguei mais ou menos dentro do horário previsto, no final da tarde de terça-feira. Faltavam exatas 48 horas para o vôo que me levaria a Nha Trang, na região central do Vietnã, partisse. Tinha 48 horas para conhecer a cidade de 6,3 milhões de habitantes, segundo os dados oficiais (mas o censo não contabiliza pessoas que não estão com a situação regularizada, o que significa que ela é maior do que isso) e escrever um pouco sobre ela.

Às primeiras horas

Estava muito cansado, mas também com medo. Se eu dormisse ali, por volta das 18h de terça, a que hora acordaria? No Brasil, eram 10h, plena manhã. E se eu não conseguisse me adaptar ao fuso e passasse o dia dormindo e a noite acordado, nesses dois dias?

Enquanto pensava nisto, o corpo pesava mais e mais. Caí na cama, sem nenhuma programação. Acontecesse o que acontecesse, eu preciso, antes, descansar, pensei. E adormeci.

Acordei às dez e meia da noite, mais ou menos. Resolvi descer para comer, mas o restaurante do hotel já estava fechado. Putz, e agora? Na recepção, eles sugerem que eu vire a rua, que fica no 1º distrito, e escolha. Há muitas opções, avisam-me, num inglês carregado de sotaque —que, aos poucos, fui conseguindo aprender a entender.

Realmente, a rua estava cheia, de turistas e de vietnamitas. E comecei a ser abordado: muitos motoqueiros se ofereciam para uma volta. Na frente dos bares, dos mais variados tipos, eu era convidado a entrar. O alfabeto latino, adotado no Vietnã desde o século 19, não ajuda, só aumenta a angústia de você ver um monte de opções e não saber escolher nada, porque você vê as letras, mas não entende o significado das palavras. Havia opções demais e eu pensei: preciso de um guia, amanhã vou ter de comprar um, calculei.




Mercado Ben Thanh, que combina a venda de comida, roupas e lembrancinhas. O importante é negociar
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Continuei andando, indo e vindo, ainda atordoado com a quantidade de informações que tinha de absorver para me situar, até que encontrei, a não mais do que 150 metros do hotel, uma loja que, entre outros produtos, vendia guias. Boa surpresa, pago qualquer preço, pensei, e peguei o Lonely Planet: 80.000 dongs (cerca de US$ 4,80). Impresso em 2007, ou seja, muito pouco defasado, ou talvez nem um pouco. Na contracapa, o preço nos EUA está impresso: US$ 23,99. Um dos melhores negócios que faria na cidade.

Voltei, já com o guia na mão, pensando no que comeria. Um senhor me abordou e me convidou para dar uma volta no seu triciclo, um riquixá, muito comum no passado na cidade, hoje em geral conduzido por homens que, por falta de dinheiro ou habilidade ou os dois, não usam as motocicletas que encantam os vietnamitas.

Fui, sem acertar o preço. Uma volta de uma hora, numa cidade nesta hora ainda cheia de motos e com alguns caminhões circulando. Motos, bicicletas e triciclos convivem bem pedestres, carros e veículos mais pesados, apesar da falta de semáforos. Mas, para mim, muitas vezes parecia que tudo ia dar errado e que eu perderia uma perna numa batida. Bobagem, tudo deu muito certo.

No final da viagem, ele me pediu 200.000 dongs, cerca de US$ 12. Ainda desacostumado a negociar, paguei. Depois, no guia que eu comprei, fui informado que a quantia pagava um dia inteiro com o triciclo... Pensei: tudo bem, entre deixar a editora do guia mais milionária e dar um dia feliz para o tiozinho do triciclo, acho que, sem querer, fiz a coisa certa. Além disso, não foi um dos serviços mais leves para o senhor que me levou.

Durante o passeio, fui abordado duas vezes por garotos que ofereciam as garotas no banco de trás de suas motos.

A primeira, feita totalmente na língua local, não cheguei a compreender, e o rapaz desistiu. A segunda, mais explícita, em inglês simples, consegui recusar antes que ele desse o preço. No começo, achei que as duas fossem menores de idade, depois concluí que eu estava errado: grande parte das vietnamitas é muito "pequena", em vários sentidos, a começar pela altura, para olhos acostumados com as mulheres brasileiras.

No dia seguinte, várias vezes eu seria abordado por homens que, primeiro, perguntavam se eu queria dar uma volta de riquixá ou precisava de mototáxi. Diante da recusa, ofereciam mulheres jovens ("young ladies"). Diante de nova recusa, maconha. Um vez, em outro contexto, depois de todas essas ofertas fracassadas, um rapaz tentou comprar minha sandália, mas ofereceu muito pouco, cerca de US$ 0,15.




Fachada do pagode Imperador de Jade, um dos espaços budistas de Ho Chi Minh
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Voltei para a rua e decidi comer. Escolhi um bar e, no balcão, pedi uma sopa de frango. Enquanto esperava a comida, fiquei lendo o guia. Perguntei à garota que me atendeu a que horas eles fechavam. Ela, simpática, mostrou uma placa e disse: "A gente fica aberto 24 horas; você pode ler até acabar, se quiser". A comida veio e não era nada que eu já não conhecesse, embora fosse uma comida tradicional. Pedi ajuda apenas para confirmar o que já esperava ser a coisa certa a fazer. Insegurança de primeiro dia num lugar desconhecido, ia passar.

Por volta de 1h, voltei para o hotel, satisfeito com a comida e com a hospitalidade. Tinha de tentar dormir.

Um dia inteiro

Dormi picado, mas acordei, definitivamente, por volta de cinco horas da manhã.

Normalmente, isso seria um problema para um turista em outros lugares no mundo. Mas, como me diria uma suíça dois dias depois, no saguão do hotel em Nha Trang, na região central do Vietnã, "na Ásia as coisas começam muito cedo". Fui tomar café da manhã. Dei-me conta, então, das opções que tinha já a partir das 7h. Eram muitas, e escolhi o Museu Histórico de Ho Chi Minh.

Antes, dei uma volta pelas mesmas ruas que visitara à noite. Elas já estavam cheias, aliás, muito, mas muito mais cheias que na noite anterior. Comprei um jornal em inglês. Há muitas publicações em vietnamita e inglês na cidade, o que, apesar do controle indireto exercido pelo partido comunista, permite uma compreensão bastante boa do que está acontecendo, em linhas gerais, no país.

E o que está acontecendo? O Vietnã viveu alguns anos de enorme crescimento econômico, a taxas chinesas, por volta de 8% ao ano. Ho Chi Minh tem uma economia ultradinâmica, e a grande preocupação do governo (que comanda essa economia, apesar dos investimentos privados) é conseguir equilibrar inflação, taxa de câmbio, consumo e produção de energia, demanda interna e externa, mas também poluição dos rios e do ar, falta de mão-de-obra qualificada, doenças endêmicas, como a dengue.

Problemas de uma economia periférica, mas integrada ao grande mercado mundial, em suma. O que por vezes parece criar conflito entre empresários, governos locais e governo central (pelo menos, foi o que entendi pelas entrelinhas do primeiro parágrafo de uma reportagem).




No aeroporto de Ho Chi Minh, o reflexo das bandeiras do Vietnã e do Partido Comunista, que comanda o país
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Mas voltei à vida de turista e peguei um táxi para lá. O táxi, em geral, é muito barato, com três ou quatro dólares se vai ao longe. A maior tarifa que gastei foi na chegada, US$ 12 pelo câmbio oficial, mas, para circular em Ho Chi Minh, raras vezes passou de US$ 5. Ou seja, a qualquer momento, se precisasse, eu podia pegar um táxi sem estourar o orçamento.

O museu é pequeno, simples e organizado. Combina peças arqueológicas com documentos da história mais recente do Vietnã, abrangendo longos períodos e muitas questões políticas, desde a complexa, longa e tensa relação com o império chinês, muito antes da colonização francesa (século 19, quando o Vietnã adota o alfabeto latino) e da guerra contra os Estados Unidos. A lição que fica do museu é que os vietnamitas narram sua história como uma longa trajetória, em que a guerra anticolonial é apenas um pedaço.

Ao lado do Museu de História, fica o Zoológico e o Jardim Botânico. Aí, o ambiente é agradável. Não são muitos os animais, e achei as jaulas deles um tanto apertadas, para o desconforto dos bichos. Mas o que chama a atenção é mesmo a flora: as grandes árvores e palmeiras são todas conhecidas nossas. Por vezes, tive a sensação de que estava no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, sensação que passava quando eu observava melhor a organização das alas e alamedas, completamente diferente.

Mais uma vez muito perto, apenas atravessando a rua, fui tomar um expresso no Caffé Molinari, no prédio da PetroVietnam. Ao estilo francês, aliás como em alguns outros restaurantes, ofereceram-me água fresca como cortesia. Poucos lugares serviam expresso em Ho Chi Minh, e esse café com sobrenome italiano certamente foi o melhor que provei.

O café fica no térreo e tem um agradável ar condicionado
—faz muito calor nesta época na cidade. Nele, muitos dos clientes ficam conectados a redes Wi-Fi, usam celulares de última geração e certamente integram a fração da sociedade e da economia do país ao mercado global.

Era pouco mais de meio-dia e resolvi voltar para o hotel descansar. Não lembro o que comi, mas provavelmente foi algo rápido, na rua mesmo. Há muitos vendedores ambulantes na cidade, e a comida em geral é feita com bastante higiene, se comparado ao padrão da comida de rua no Brasil.

Descansei algumas horas e fui, a pé, às compras, no grande mercado Ben Thanh. Não é muito diferente de um mercado brasileiro. Uma parte vende roupas e artigos para turistas (destaque para a camiseta de Ho Chi Minh) e outra vende comida.

Provei alguns petiscos locais, e um dos mais interessantes era feito de peixe de Nha Trang. Muito salgado para alguém que tem pressão alta, não pude ir até o fim. Outros alimentos, achei por demais apimentados, apesar de gostosos. Não tomei água de coco, cortado de um jeito muito interessante, e resolvi partir para os suvenires.

Aí o bicho pegou. Os vendedores vietnamitas são bastante "agressivos" e gostam de negociar. Demais, para mim. Numa das barracas, fui "cercado" por três vendedoras. Acabei comprando um jogo de camisetas da seleção vietnamita de futebol para um garoto de dois anos e meio em grande parte porque queria me livrar delas. Não contentes, terminado o negócio, elas ofereceram uma outra camiseta, por 240.000 dongs, essa para adulto. Como não queria levar, elas foram baixando o preço, até que, por 140.000 dongs, consegui ir embora.

Muitos outros artigos inúteis depois —entre leques, camisetas, broches—, voltei, também a pé, para o hotel. Perguntei no balcão por um filme vietnamita. As atendentes primeiro não acreditaram, riram, disseram que eu não ia entender nada sem legendas. Mas acabaram se esforçando bastante e me encaminharam para um shopping.

O shopping Hung Vuong Plaza parecia muito recente, tinha uma academia com equipamentos de última geração e envidraçada, muitas lojas sofisticadas e, claro, um cinema multiplex, onde assisti a um filme bastante engraçado, mas muito simples —deu pra entender tudo, apesar de falado em vietnamita e sem legendas.

Fui para o hotel e dormi, por volta de meia-noite.

Mais algumas horas

Às cinco da manhã, sete da noite do dia anterior no horário do Brasil, voltei a acordar. Mais um dia para aproveitar a Ásia que acorda cedo.

Tinha mais meio dia para aproveitar Ho Chi Minh.

Fui a um pagode budista, Imperador de Jade, construído em 1909. Afinal de contas, qual o sentido de ir até o Vietnã e não conhecer um? O templo fica no meio da cidade e chega a ser difícil encontrá-lo, mesmo com o guia na mão. Desta vez, o táxi saiu mais caro, mas não muito. O pagode era pequeno e interesante. Encontrei um turista espanhol, que havia já passado por Laos e Camboja. Elogiou a cidade, os mototáxis, a limpeza.

A única coisa que não mencionou foi a poluição
—as motos queimam mal a gasolina, se comparadas com os carros, e o ar de Ho Chi Minh é de irritar as mucosas, para dizer o mínimo. Especialmente se você está em cima de uma das motos, como eu fiz, ao pegar um mototáxi e me dirigir ao museu militar que fica em frente ao prédio da PetroVietnam e que eu não havia visitado na véspera.

Pequeno e dedicado quase que exclusivamente à tomada de Saigon, antigo nome de Ho Chi Minh, pelas tropas comunistas entre 1973 e 1975, era o passeio ideal para entender um pouco melhor como os vietnamitas vêem o conflito que marcou o imaginário do planeta.

Acabada a visita e algumas fotos depois, atravessei a rua, tomei água e expresso no Caffé Molinari e voltei ao hotel. Fiz o check-out e fui almoçar no Lemon Grass. O restaurante serve bem, é pequeno e agradável. Mas eu, confesso, esperava algo mais típico. Ali, a comida vietnamita é servida à maneira francesa, ou seja, com entrada, prato principal e sobremesa.

Na rua do Lemon, havia um café de uma rede australiana, Highlands Coffee. Tomei outro expresso ali, li alguns jornais em inglês (só encontraria um título local em francês em Nha Trang) e olhei para o relógio. Hora de voltar ao hotel, dar uma olhada na Internet, trocar os últimos e-mails e partir para o aeroporto.

Cheguei bem a tempo, mas o vôo atrasou. Acabei ficando duas horas a mais do que as 48 horas previstas em Ho Chi Minh, fazendo o único esporte desses dias: airport walking, para não cair duro de sono e não perder o avião para Nha Trang.

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