New York Times: Caminhada pacífica pela Boêmia é legado da Guerra Fria

DAVID FARLEY

New York Times Syndicate

A fronteira entre a República Tcheca e a Áustria ficava a menos de 1,5 km, quando um velho misterioso apareceu no meio de uma estrada cercada de árvores. Há uma geração, ele poderia ser baleado por se aproximar tanto da ex-zona tampão da Cortina de Ferro.

"Dobry den", eu disse, lhe desejando um "bom dia". Mas ele apenas ficou parado lá em silêncio, com aquele olhar "você não é daqui da região" em seu rosto. Então segui em frente, prosseguindo alegremente em minha caminhada cheia de belas vistas em meio à floresta da Boêmia.

Durante a Guerra Fria, este trecho da Europa Central era proibido para qualquer um, exceto os moradores de algumas poucas aldeias antigas e os guardas que patrulhavam a fronteira. O governo tchecoslovaco removeu os moradores locais da zona tampão e a povoou com membros de carteirinha do Partido Comunista. Isto pode explicar por que, duas décadas após a queda do Muro de Berlim, uma quietude fantasmagórica ainda paire sobre esta paisagem de coníferas e colinas baixas arredondadas.


Andarilhos em trilha perto Praga, na República Tcheca, indo para Viena, via Cesky Krumlov | Fotos: Pavel Horejsi/NYT
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Também é o motivo para a rede de trilhas de caminhada e ciclismo nestas colinas do sul da Boêmia permanecer entre as mais imaculadas e desimpedidas do continente.

Os tchecos, conhecidos pelo seu talento na fabricação de cerveja e em jogar hóquei, também adoram caminhar. Gravadas por todo este país da Europa Central estão quase 39 mil quilômetros de trilhas de caminhada divididas por códigos de cores, que se estendem de Karlovy Vary, no noroeste, a Ostrava, no leste. Grande parte delas é mantida pelo Clube Tcheco de Caminhada, uma organização privada, fundada em 1889, que pinta marcadores com tinta em árvores e instala postes de sinalização.

Com tantas trilhas a explorar, como um caminhante não-tcheco pode escolher a rota certa? Para minha mulher, Jessie, e eu, a resposta foi simples. Nós passaríamos cinco dias caminhando por trilhas dos Greenways (caminhos verdes) Tchecos, uma rede de antigas rotas de comércio que foram recentemente reformadas pelos Amigos dos Greenways Tchecos, um grupo sem fins lucrativos com sede no Brooklyn, em Nova York.

A rede, também chamada de Greenways Praga-Viena, é criação de Lubomir Chmelar, um arquiteto aposentado que divide seu tempo entre Nova York e Mikulov, uma pequena cidade do sudeste perto da fronteira austríaca. Ele foi inspirado pelo Greenway do Vale do Rio Hudson, um projeto de revitalização em Nova York que promoveu a recreação e a cultura ao longo das margens do rio de Westchester County até Albany.

Chmelar reuniu uma equipe de paisagistas e MBAs de Harvard e partiu a pé para encontrar a rota com vistas mais bonitas entre Praga e Viena. O resultado é uma rede de trilhas de 400 quilômetros de extensão, que ziguezagueiam entre as duas capitais européias e passam por ruínas de castelos, belas aldeias, florestas densas e a antes proibida fronteira da Guerra Fria.

O passeio mais curto

Poucas semanas antes da minha caminhada, eu me encontrei com Chmelar, 73 anos, em sua casa em Manhattan, na esperança de que ele pudesse me ajudar a decidir que trecho do complexo eu deveria percorrer. Chmelar, um homem alto e animado que fala com sotaque de quem estudou em Oxford, apresentou empolgadamente vários itinerários.

No final, nós decidimos pelo meu passeio curto: nós começaríamos na metade do caminho entre as duas capitais, na pitoresca cidade do sudoeste de Cesky Krumlov, que é tombada pela Unesco, e seguindo para leste e nordeste por cerca de 128 quilômetros, até a cidade medieval de Slavonice, a cerca de 1,5 quilômetro da fronteira austríaca. A caminhada oferecia uma mistura de belas cidades barrocas, terrenos variados e uma dose de história em uma parte do país que os turistas raramente visitam.

O próprio Chmelar ofereceu um pouco de história. Sob o comunismo, ele disse, até mesmo a caminhada era politizada. "O governo preferia manter as pessoas no bar", ele disse. "Não floresta adentro, onde não tinha como saber o que estavam fazendo."

Nós partimos em meados de maio, em uma manhã fria, enquanto o majestoso castelo de Cesky Krumlov lançava uma longa sombra sobre as quietas ruas de pedras arredondadas da cidade. Minha mulher e eu penduramos nas costas nossas mochilas de tamanho médio, cheias de roupas para dois dias, curativos (para bolhas) e vários mapas detalhados do sul da Boêmia. Então tomamos um ônibus.

Apesar de que podíamos cobrir grande parte da trilha a pé, o barato e eficiente sistema de ônibus tcheco também contribuiu para que pudéssemos tomar ônibus para manter nossas caminhadas diárias em menos de 40 quilômetros. A idéia era pegar a trilha logo cedo, para que pudéssemos chegar ao nosso destino no final do horário de almoço e passar o restante do dia fazendo turismo.

O ônibus nos deixou nas colinas escarpadas ao redor e a 24 quilômetros de distância em Kaplice, uma cidade minúscula aos pés dos montes Novohradske. Nós encontramos um marcador de trilha pintado de vermelho e branco no centro da cidade, que nos conduzia a uma trilha de terra. Em poucos minutos nós estávamos caminhando por densas florestas de pinheiros e contornando pradarias cheias de papoulas amarelas, tão intensas e amplas que quase me fez sentir vertigem.


Praça de Trebon, cidade famosa pela fábrica de cerveja Bohemia Regent Brewery, em atividade desde 1379


Cerca de cinco horas e 13 quilômetros depois, nós entramos em Benesov nad Cernou, uma aldeia que era pouco mais que uma praça com uma igreja branca e amarela em uma ponta. Naquela noite, nós celebramos nosso primeiro dia de caminhada em um dos dois bares barulhentos da cidade. Nós acompanhamos os pratos de svickova (filé assado com uma quantidade generosa de molho e coberto com bastante creme e cranberries) com quartilhos de Budweiser (a versão tcheca), enquanto homens bigodudos fumavam sem parar e berravam diante da partida de futebol na televisão.

Os dois dias seguintes nos levaram por terrenos amplamente diversos, que incluíam montanhas de 790 metros de altitude e um parque ao estilo inglês com carvalhos e fortes abandonados. Em Nove Hrady, uma cidade no alto da montanha com uma praça central bastante arborizada, nós dormimos em um mosteiro antes usado pelos guardas que patrulhavam a fronteira. Nós caminhamos por aldeias pacatas onde o único som era o eco de uma bola de futebol rebatendo em um muro de pedra.

Parada perfeita para o descanso

Felizmente Trebon, onde passamos nossa terceira noite, era mais dinâmica. Esta cidade de quase 9.000 habitantes era a parada de descanso perfeita após uma viagem de quase 35 quilômetros por pântanos, florestas de pinheiros e pradarias cheias de cervos. A cidade tem um castelo pequeno, uma praça de formato irregular flanqueada por apartamentos barrocos coloridos, um spa e um bairro de alamedas sinuosas, tudo envolto por largos muros.

Mas não fomos até lá para fazer turismo. Trebon é famosa pela cervejaria Bohemia Regent, que faz sua fabulosa cerveja desde 1379. Após o check-in em nosso hotel, uma pensão tranqüila do lado externo dos muros da cidade, nós fomos ao bar da cervejaria, onde nos sentamos no terraço, conversando com um homem chamado Jiri, que nos contou sobre sua fuga para a França durante a Guerra Fria. Enquanto o Sol se punha, nós pegamos quartilhos de uma cerveja opaca, de tom alaranjado, uma variedade especial não filtrada vendida apenas ali, e brindamos termos chegado à metade de nossa caminhada.

Nós passamos o resto do dia explorando outras peculiaridades de Trebon. Do lado de fora dos muros da cidade se encontram lagos artificiais repletos de carpas. Algumas pessoas consideram lixo as carpas de rio; mas o bom povo de Trebon as chama de jantar. Nós terminamos no Supinka, um restaurante surpreendentemente chique que serve carpa de quase todas as formas imagináveis: frita, tostada na frigideira e escaldada; salpicada com páprica, marinada em molho shoyu, ensopado em molho chili ou coberto em molho de alho.

Esta não era exatamente a caminhada que eu esperava. Tudo tinha saído muito bem até agora, ao invés de estarmos nos perdendo na mata e talvez até mesmo encontrando um urso. E, apenas para assegurar que tudo continuaria bem, nós fomos para a cama cedo.

Para nosso último dia, nós tomamos um ônibus de Jindrichuv Hradec a Nova Bystrice, a cerca de 24 quilômetros de nossa linha de chegada. Um cão preto nos seguiu de Nova Bystrice até chegarmos à aldeia de Klaster, que é apenas um pequeno aglomerado branco no meio de uma imensa campina.

Bunkers de concreto

Cerca de oito quilômetros depois, nós passamos pelo imponente castelo Landstejn e então caminhamos por uma densa floresta de pinheiros coberta de samambaias. Eu meio que esperava ver um troll ou um gnomo. Em vez disso, nós nos deparamos com bunkers de concreto parecidos com iglus, muitos deles camuflados com terra e galhos de árvore.

Estes bunkers foram construídos de 1935 a 1938 para proteger a fronteira tchecoslovaca contra uma invasão por Hitler. Mas, durante a Guerra Fria, os bunkers tinham a função oposta: impedir cidadãos tchecoslovacos de escaparem para o Ocidente. Isto poderia explicar por que a área parecia fantasmagórica, como se estivéssemos invadindo um terreno sagrado.

Ao passarmos pelo último bunker, o sino da torre da era renascentista de Slavonice se tornou visível. Nós caminhamos por um bairro de casas do século 19 e atravessamos um dos portões de pedra medievais da cidade.

A cidade minúscula parecia como se não tivesse mudado em dois séculos, com praças triangulares cercadas por prédios renascentistas pintados com cenas bíblicas coloridas, como se fossem tiras de história em quadrinhos. No século 15, Slavonice era uma parada comum na rota comercial entre Praga e Viena. Hoje, ela se tornou um ímã para artistas e boêmios de Praga.

E, é claro, também atrai visitantes como eu, à procura de um lugar barato para ficar e um bar amistoso no qual descansar os pés e tomar uma cerveja espumosa após uma caminha de 128 quilômetros. Nós retiramos nossas mochilas e seguimos para o primeiro bar que vimos.

ENCONTRANDO SEU CAMINHO
Mapas para caminhada e ciclismo podem ser baixados no site da Amigos das Greenways Tchecas (www.pragueviennagreenways.org), com sede no Brooklyn. Outros são vendidos nas livrarias de Praga, incluindo a Kiwi Travel Bookshop (Jungmannova 23; 420-224-948-455).

PARA CHEGAR LÁ
Ônibus e trens partem regularmente de Praga para Cesky Krumlov (é preciso trocar de trem em Ceske Budejovice). Cheque os horários em www.idos.cz.

ONDE FICAR
Hotéis, pensões e quartos particulares para alugar são encontrados em toda aldeia (procure pelos avisos que dizem "ubytovani", ou "acomodação").

Em Cesky Krumlov, o hotel Na Louzi (Kajovska 66; 420-380-711-280; www.nalouzi.cz) tem 11 quartos em um prédio do século 15 com um bar atmosférico. Os quartos duplos custam a partir de 1.350 coroas, cerca de US$ 85 com o dólar cotado a 15,80 coroas.

Em Nove Hrady, o Mosteiro da Divina Misericórdia (Husova 2; 420-386-301-322; www.klaster.cz) de 400 anos conta com 21 quartos confortáveis, com banheiros compartilhados, por 340 coroas por pessoa para quarto simples, 300 coroas por pessoa em um quarto duplo ou triplo (adicione 40 coroas por uma estadia de uma única noite).

Trebon tem muitos hotéis, mas um dos mais aconchegantes é a Penzion Siesta (Hradebni 26; 420-384-724-831). A pensão, que dá de frente para um minúsculo canal próximo dos velhos muros da cidade, oferece quartos duplos por 1.080 coroas.

Em Slavonice, o badalado Besidka (Horni Namesti 522; 420-384-493-293) tem oito quartos chiques, a partir de 1.290 coroas no verão.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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