Viagem

Trem de Luxo do Sul do país oferece espumante e a sensação de flutuar

Cris Gutkoski/UOL
Imagem: Cris Gutkoski/UOL

CRIS GUTKOSKI

Enviada especial a Curitiba*

15/07/2008 20h02

Por fora, é um vagão de trem comum, com 19 m de comprimento, 2,8 m de largura e 4 m de altura, cor prata reluzente, com janelas arredondadas. Por dentro, logo surpreende uma decoração especial para viajar sobre trilhos. Lembra salas de estar, com luminárias e quadros nas paredes, sofás confortáveis diante de mesinhas de madeira, mais abajures, almofadas, pufes. No Trem de Luxo, que percorre ferrovias do Paraná, a solidez do conforto combina com as paisagens em movimento.

Pago o bilhete, comissários gentis e bilíngües vão servindo os passageiros de quantas bebidas eles conseguirem tomar. O espumante que abre os trabalhos vem do Vale do rio São Francisco, os vinhos branco e tinto são nacionais ou chilenos, tem também uísque, vodca, licores, vinho do porto, cerveja, refrigerante, chá gelado, suco, água e cafés.

O bar prepara lanches rápidos, frios, para as viagens curtas, e quentes, para as mais longas. No cardápio da viagem de Curitiba a Morretes, de três horas de duração, constam croissants, pão com manteiga, queijo, salame e frutas. Em percursos mais longos, rumo a Foz do Iguaçu ou Cascavel, são servidos quiches e empadões de frango, com cinco tipos de sobremesa.

A comida e a bebida enfatizam a arquitetura pró-convivência dos passageiros no Trem de Luxo, uma operação da Great Brazil Express que fez sua primeira viagem comercial em 21 de maio de 2008. Aos sábados, domingos e feriados, há passeios regulares de Curitiba a Morretes, pela Serra do Mar. Para 22 de julho está programada a viagem de Curitiba a Foz do Iguaçu e, no dia 24 de julho, o percurso de volta à capital paranaense.

A partir de agosto, o passeio que combina trem e ônibus de Curitiba até as Cataratas do Iguaçu, uma das grandiosas atrações do turismo brasileiro, deve se tornar quinzenal, segundo o diretor comercial Adonai Aires de Arruda.

Não há vagões-leito, nem planos de tê-los. Dormir no trem seria um conforto extra, nos padrões europeus. Mas a malha ferroviária nacional é irregular e não percorre todas as cidades a serem visitadas. O diretor Arruda explica que as viagens do Trem de Luxo querem inserir as comunidades locais no trajeto. Quando hotéis e restaurantes de uma cidade entram no roteiro, caso de Ponta Grossa e Guarapuava para a viagem de Curitiba a Foz, os moradores e a economia local interagem com os turistas brasileiros e estrangeiros, e não apenas acenam para os vagões na estação.

Os dois vagões de luxo, para 22 passageiros cada, têm nomes e decorações diferenciadas. No Copacabana, em homenagem ao Rio de Janeiro, outro pólo turístico, os quadros reproduzem o cotidiano do Brasil Imperial nas pinturas de Debret e Rugendas. No vagão Foz, a artista escolhida para os temas da mata atlântica foi a paranaense Karla Kozaki. As amplas poltronas, de um ou dois lugares, são revestidas de couro, veludo ou brim em tons predominantes de vermelho e verde. O design é do arquiteto Paulo Peruso.

Cris Gutkoski/UOL
Tela plana com imagens do passeio é um dos requintes do vagão de luxo
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O passeio de Curitiba a Morretes tem partida às 9h15min, na Estação Rodoferroviária, e segue devagar, com velocidade de 35 km/h ou menos, num trajeto de muitas curvas sobre vertiginosos despenhadeiros e algumas paradas para admirar a paisagem e fazer fotos de dentro do trem. Importados da norte-americana Detroit nos anos 60, os carros prateados do Great Brazil Express são automotrizes: não precisam de locomotiva para puxá-los. Os vagões são equipados com dois motores Detroit Diesel de 275 cv cada.

Deixando para trás a região metropolitana de Curitiba, logo surgem no horizonte as colinas com araucárias de Piraquara, depois o trem passa pela estação Banhado, cruza o rio Ipiranga e não demora muito aparece imponente, ao longe, o Pico Marumbi. Entre os pontos mais bonitos da Serra do Mar estão a represa Caiguava, o cânion do Ipiranga e o conjunto de montanhas avistado desde o mirante do Santuário do Cadeado, onde os passageiros podem descer por cerca de 10 minutos.

A ferrovia é histórica, nasceu da necessidade de ligar o porto de Paranaguá a Curitiba e ao sul do país. Na época de sua construção, de 1880 a 1885, representou uma missão quase impossível de ser realizada. As mortes dos trabalhadores por doenças como malária, falta de segurança e acidentes no meio da mata foram contadas em milhares, em cinco anos.

À frente do ousado projeto de engenharia do Brasil Imperial estiveram os irmãos Rebouças: o abolicionista André Pinto Rebouças e Antônio Pereira Rebouças Filho, autor do traçado da ferrovia. A obra foi concluída sob a direção do engenheiro mineiro João Teixeira Soares, que também trabalhou na Central do Brasil e morreu em Paris, em 1927.

"Esta ferrovia não foi feita por escravos", sublinha Adonai Arruda, que tem como sócio no projeto do Trem de Luxo o belga Thierry Nicolas, especialista em turismo ferroviário. "Na época da construção, para abrir túnel na rocha tinha dinamite e só", completa o maquinista Rubens Bittencourt, que começou a guiar trens pela antiga estatal RFFSA em 1966.

São 14 túneis nos 110 km de extensão da ferrovia, sendo que o mais comprido tem 457 m. Dá para imaginar o esforço de Hércules dos operários para retirar do caminho pedra por pedra, árvore por árvore e, aos poucos, abrir uma estreita superfície lisa em que seriam fixados os trilhos de ferro. O assombro dos passageiros diante dos trechos mais complicados permanece até hoje.

A ponte São João foi erguida sobre o vazio a 55 m de altura, ligando duas montanhas de mata fechada. Para o viaduto Carvalho, são necessários cinco pilares de alvenaria na encosta do paredão rochoso. A sensação é de flutuar sobre a Serra do Mar, com ou sem champanhe.

No trajeto até Morretes, os turistas observam também estações de trem e casas em ruínas, um patrimônio público que virou pó nas últimas décadas. O mato e o mofo cobrem paredes onde uma vez havia bilheterias, plataformas, cabines de controle, quartos e cozinhas de funcionários.

São apenas três horas de viagem, mas abrindo bem os olhos (o que não é difícil, dada a formosura da geografia) dá para enxergar direito, por trás das cortinas de seda, cenas de três séculos da história ferroviária do Brasil, do 19 ao 21.

* A jornalista CRIS GUTKOSKI viajou de Curitiba a Morretes a convite do Great Brazil Express

SERVIÇOS

BWT Operadora
www.bwtoperadora.com.br

Serra Verde Express
www.serraverdeexpress.com.br

Rodoferroviária de Curitiba
Av. Presidente Affonso Camargo, 330
Tel: (41) 3323-4007 e 3320-3000

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