Viagem

Tradição e culinária latinas dão ritmo a bairro de Chicago

Fotos Sally Ryan/NYT
Imagem: Fotos Sally Ryan/NYT

JEFF BAILEY

New York Times Syndicate

11/07/2008 20h22

Em uma galeria de arte em um quinto andar em Pilsen, o bairro latino da moda de Chicago, acordes vibrantes de violão escapavam pela janela aberta em uma recente noite de sexta-feira. Quatro artistas latinas estavam expondo suas pinturas e a pequena galeria estava lotada de um público diverso, falador. Alguns balançavam ao ritmo da música, bebiam cerveja ou tomavam vinho. O barulho parecia atrair moradores interessados por artes e festivos de todo o imenso prédio no número 1932 da South Halsted Street, um ponto central do art walk (passeio pelo circuito de arte) que acontece toda segunda sexta-feira do mês.

Muitos que vêm dos subúrbios e de outras partes da cidade participam do art walk, mas o evento extrai sua verdadeira energia da crescente população latina da cidade. Uma das pintoras cujas obras estavam em exibição -Carolina Reyes- se mudou há dois anos de um bairro no norte para Pilsen para pintar. "Sendo latina, eu ainda estou buscando aprender mais sobre minha cultura", ela disse.

Para isto, não há necessidade de deixar Chicago. A mais de 1.600 quilômetros da fronteira mexicana, a cidade é lar de cerca de 800 mil pessoas de origem latina, a maioria mexicana. Isto representa mais de um quarto da população e elas estão ganhando maior participação diariamente -isto após a cidade ter encolhido em quase meio milhão de moradores após os anos 50. Mas na Chicago latina há uma nova cidade próspera a ser explorada.

Natural de um subúrbio de maioria latina em Los Angeles, eu me mudei para cá há 25 anos; minha esposa, uma latina do Texas, veio há 12 anos. Então, é natural que nos sentíssemos atraídos para áreas como Pilsen, onde espanhol e inglês se misturam tendo como fundo mosaicos brilhantes e murais de heróis mexicanos, além da vizinha Little Village, onde bandas de mariachis que carregam seus instrumentos até os restaurantes fazem parecer facilmente que estamos ao sul da fronteira. Mas a região é muito mais do que simplesmente acolhedora e barata. É lá onde se encontra a vibração.

"Está acontecendo tão rápido", disse Carlos Tortolero, que veio do México para Chicago quando tinha 3 anos e, como um professor escolar de 28 anos em 1982, deu início ao que se tornaria o Museu Nacional de Arte Mexicana, a principal organização cultural latina da cidade.

O museu ganhou renome em 2006, quando inaugurou uma exposição sobre a influência dos africanos no México. Em uma cidade conhecida por sua segregação racial, os negros foram a Pilsen para ver a exposição. Neste ano, o museu irá se inserir no debate político nacional com uma exposição aberta em 4 de julho -"Uma Declaração de Imigração"- que vai além da pintura e escultura para apresentar dados argumentando em prol dela. "É pró-americano ser pró-imigrante", disse Tortolero.


A barraca de Tito Toscano prepara tacos e outros
pratos tradicionalmente latinos no mercado de pulgas
Os imigrantes certamente tornaram Chicago uma das cidades mais prósperas da história. Ela se transformou de um pântano quase desabitado, nos anos 1800, em uma metrópole de um milhão de pessoas em 1890. Uma versão atualizada daquela cidade multicultural de fronteira está em exposição toda manhã de domingo em um mercado de pulgas, virando a esquina de onde a vaca da sra. O'Leary -ao menos na fábula- teria dado um coice no lampião que deu início ao grande incêndio de 1871. Conhecido como Maxwell Street Market, ele segue a Canal Street ao sul da Roosevelt Road. (A prefeitura fechou o endereço original na Maxwell Street nos anos 90, mas o nome ficou.) Após mais de 100 anos, ele ainda atrai imigrantes e seus filhos de muitas partes do globo.

Mas hoje, como grande parte de Chicago, o mercado tem um ritmo latino. Os compradores parecem chegar em cadência com a música latina enquanto examinam o trecho de quatro quarteirões que exibe arte, jóias e bijuterias e os habituais produtos de couro e imitações de bolsas.

Se você vir um sujeito magro de cavanhaque que parece conhecer os vendedores de alimentos, pode ser que seja Rick Bayless, o chef e autor de livros de culinária de Chicago que elevou pratos tradicionais mexicanos ao status de gourmet, fazendo uma visita em seu dia de folga para comer um mole e tortillas caseiras. O número de pessoas cresce em volta da barraca de Lencho's Tacos, onde as pessoas pegam uma senha e aguardam sua vez.

Bem antes das 10 horas da manhã, os fãs do Lencho's já cercam o balcão, em fila para tacos de carne grelhada, cebolas, coentro e molho picante -um perfeito almoço em trânsito por cerca de US$ 5.

Ao norte, acima das barracas e dos compradores vestidos de forma vistosa, se ergue o Loop e seus altos arranha-céus, e em uma única imagem os feitos notáveis da cidade e seus sonhos inquietos, não realizados, entram em foco.


Mercado de pulgas Maxwell Street Market, uma das atrações mais multiculturais de Chicago


Culinária com sabor de casa latina

Como grande parte da população latina de Chicago é relativamente nova, muitos dos restaurantes, grande parte da música e outras ofertas culturais estão repletas do sabor de casa.

Ao chegarem em Chicago, "as pessoas estão muito mais livres para serem quem são", diz Bayless, um natural de Oklahoma que adotou a culinária do México com um fervor singular e em 1987 abriu o Frontera Grill na área de River North. Seu sucesso, juntamente com o sucesso de seu restaurante vizinho mais refinado, o Topolobampo, gerou muitos outros lugares latinos sérios não americanizados, tornando Chicago um improvável local proeminente no que se refere à culinária latina.

O Frontera é decorado com arte mexicana que Bayless e sua esposa colecionam há anos, uma profusão de cor e imagens, e música latina é tocada em um volume que permite a conversa de jantar, apesar de ainda poder encontrar suas pernas dançando sob a mesa. Seus pratos mais simples, como os tacos al carbón (US$ 16) -carnes grelhadas servidas com guacamole, feijão e tortillas feitas no próprio restaurante- são memoráveis por sua simplicidade e frescor.

Os restaurantes de Bayless são, é claro, apenas um lado da história quando se trata da culinária latina de Chicago. No bairro West Side de Humboldt Park, uma animada área porto-riquenha e mexicana, o pequeno restaurante de Carlos Reyna, o Maiz, é um templo aos muitos pratos com milho -tortillas, tamales, sopes- usados na cozinha tradicional mexicana. Em uma fachada aconchegante, Reyna serve pessoalmente muitas das mesas e pode ajudar você a escolher uma série de pequenos pratos, como um tamale de legumes preparado em folha de bananeira e tamales triangulares cobertos com mole, acompanhados por margaritas. Ele também serve as frias, sucos refrescantes de frutas e água que cresceu bebendo na Cidade do México (vale a pena experimentar o de pepino.)

Reyna se mudou para Chicago em 1986 para tentar uma carreira de dançarino, trabalhando como garçom para se sustentar. Quando decidiu abrir um restaurante, ele se concentrou em pratos que o faziam se lembrar de casa. "Eu sempre quis trazê-la para Chicago", ele disse.

De forma semelhante, ao longo dos últimos 36 anos, outro imigrante, Roberto Marín, continuou tocando a salsa com que cresceu na Colômbia. De dia, ele trabalha como operador de máquinas em uma fábrica de componentes elétricos, e, nas noites de sábado, toca baixo no Las Tablas, uma churrascaria colombiana na Irving Park Road, a noroeste do centro. Enquanto terminava o jantar em uma noite recente, metade dos clientes balançavam o corpo em suas cadeiras ao ritmo de Marín, e a outra metade se levantava para dançar.

O Las Tablas fica em um bairro bastante misto; latinos, certamente, mas também de pessoas do Leste Europeu e outros lugares. E esta é uma das belezas da Chicago latina: ela está espalhada por toda a cidade.

Mas Pilsen, próxima do sudoeste da cidade, pode ser o bairro mais estreitamente identificado com a Chicago latina. Sempre operário, inicialmente tcheco, e atualmente com quase 100 anos, Pilsen é um bairro de casas modestas e three-flats -o termo de Chicago para uma casa para três famílias. Para cada restaurante ou loja da moda na área que está claramente valorizando, ainda restam dezenas de estabelecimentos simples que servem aos moradores locais. Eles permanecem 90% latinos e são na maioria latinos que dirigem os receptivos cafés, restaurante finos e novas lojas da moda. Mas os imóveis na área estão sendo reformados e aluguéis mais caros estão expulsando alguns moradores. Anglos recém-chegados na faixa dos 20 e 30 anos circulam pelo bairro fazendo exercício e levando seus cães para passear.

"No momento estamos coexistindo", disse Sylvia Rivera, gerente-geral de uma emissora de rádio de programação jovem, a WRTE-FM (www.wrte.org), localizada em Pilsen e de propriedade do Museu Nacional de Arte Mexicana. "Esperamos conseguir manter isso."

Uma caminhada ao leste da 18th Street, a partir da estação da Linha Azul E1, atravessa o coração de Pilsen. É uma rua margeada por cafés e restaurantes como o Cafe Mestizo (1646 West 18th Street; 312-421-5920), um café tranqüilo onde uma camiseta pendurada na parede anuncia "Pilsen não está à venda", e o Mundial Cocina Mestiza (1640 West 18th Street; 312-491-9908), um local fino e amistoso (para o brunch de fim de semana, experimente o filé e ovos, cercado por deliciosos acompanhamentos mexicanos e servidos com tortillas quentes e macias por cerca de US$ 12). Mais ao leste fica o Bombon (1508 West 18th Street; 312-733-7788), uma elaborada padaria mexicana e loja de bolos de casamentos.

Rivera costumava guiar excursões pela 18th Street e pelo bairro ao redor, mas, cada vez mais, os visitantes chegam desacompanhados e circulam por conta própria. "Tudo isso é muito bom", ela disse.

De fato, à medida que a população latina expande sua influência em Chicago, assim como em outras cidades americanas, os visitantes não precisarão sair à procura do ritmo latino. Ele já estará por toda a parte.

Onde Ficar

No Loop, o Hotel Burnham (1 West Washington Street; 312-782-1111) fica no famoso Reliance Building, que foi reaberto como hotel butique em 1999. Os quartos custam a partir de US$ 239 e as suítes a partir de US$ 389 em junho e julho. Ele fica a uma quadra do trem da Linha Azul, que pode levar você à estação da 18th Street (elevada naquele ponto) para ir a Pilsen.

O Omni Chicago Hotel (676 North Michigan Avenue; 312-944-6664) fica a uma curta distância de caminhada do Frontera Grill e Topolobampo. Os quartos custam a partir de US$ 201,75 em julho.

Onde Comer

O Frontera Grill (445 North Clark Street; 312-661-1434) é o restaurante do autor de livros culinários e apresentador de TV, Rick Bayless. Ele possui arte chamativa nas paredes e música animada. Os pratos variam de tacos al carbón por US$ 16 a especiais preparados caprichadamente por US$ 36. Ao lado fica o Topolobampo, o restaurante fino de Bayless.

No Maiz (1041 North California Street; 773-276-3149), peça e divida uma série de pequenos pratos tradicionais mexicanos, como tamales em mole, por US$ 4,75 a US$ 7,75.

O Café Aorta (2002 West 21st Street; 312-738-2002) serve pratos caribenhos perto do Museu Nacional de Arte Mexicana. Um sanduíche cubano custa US$ 9. Carne picada enlatada com arroz porto-riquenho, ovos e torrada custa US$ 9.

O Carnitas la Michoacana (2049 West Cermak Road; 773-254-2970) serve carne de porco frita em um caldeirão gigante, picada e servida em tacos macios frescos por US$ 1,35 cada. (Se você veio tão longe, após o almoço caminhe até virar a esquina para ir até a Igreja de São Paulo, uma enorme pilha de tijolos na West 22nd Place; ela já rivalizou os arranha-céus do Loop.)

A Taqueria Moran (2226 North California Avenue; 773-235-2663) é um restaurante mexicano confiável e amistoso. Experimente os ovos e machaca (carne desfiada), US$ 7,50; o taco (experimente o carnitas) custa US$ 6,95.

A Kristoffer Cafe & Bakery (1733 South Halsted Street; 312-829-4150) é um pequeno café que serve pães e bolos assim como tamales ao estilo mexicano e centro-americano (envoltos em folha de bananeira) por US$ 1,75 a US$ 2,75, que fica aberto para as art walks da segunda sexta-feira de cada mês em Halsted, às vezes com música ao vivo.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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