Viagem

Lados da capital dividida de Chipre estão cada vez mais próximos

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Imagem: AFP

JOANNA KAKISSIS

New York Times Syndicate

30/05/2008 23h02

Como grande parte de Nicósia, o Atolye Cadi Kazani Cafe tem ar nostálgico. Ele é tomado por música jazzística de piano, o cheiro de café com cardamomo e uma atmosfera otomana que faz a proprietária, Nilgun Guney, lembrar da casa de sua avó.

"Esta é uma zona mágica", disse Guney, uma pintora turca-cipriota que vive no norte de Nicósia, o lado turco da capital do Chipre. "Aqui nós tentamos criar algo novo a partir de algo velho que está desaparecendo."

É preciso um pouco de mágica para ver Nicósia, a última capital dividida da Europa, como uma cidade única. Por décadas, a ilha-Estado mediterrânea de Chipre está dividida entre gregos e turcos étnicos, em um sul soberano rico e o norte mais pobre, ocupado pelos turcos.

Nicósia, chamada Lefkosia em grego e Lefkosa em turco, simboliza mais visivelmente esta separação; para visitar ambos os lados, é preciso cruzar um posto de fronteira e converter seu dinheiro -euros de um lado, liras turcas do outro. Negociações de reunificação fracassaram por décadas, mas nos últimos anos os cipriotas dos dois lados da ilha se cansaram do impasse. O novo presidente, Dimitris Christofias, venceu a eleição em fevereiro em parte devido à promessa aos gregos cipriotas de que retomaria as negociações de reunificação com os turcos-cipriotas e seu líder, Mehmet Ali Talat. As negociações estão marcadas para o próximo mês.

Está muito mais fácil viajar entre as duas Nicósias desde que as restrições na fronteira foram relaxadas em 2003. E, no mês passado, um trecho de 70 metros da rua Ledra, parte de uma rua comercial central que serviu como barricada entre o norte e o sul, foi reaberto após 44 anos. O recente degelo abriu algumas linhas de comunicação entre os cipriotas; Guney e seus amigos gregos-cipriotas, também artistas, se encontram todo mês no café dela para planejar exposições conjuntas.

Como muitos visitantes em Chipre, eu iniciei minha exploração de Nicósia no sul. Lar de cerca de 270 mil pessoas, esta Nicósia é um centro urbano endinheirado com butiques, shopping centers e amplos subúrbios de mansões mediterrâneas. Na avenida Arcebispo Makarios, que leva o nome de um importante ex-presidente e líder da igreja, restaurantes de sushi estão repletos de diplomatas vestindo Prada e jovens adultos bronzeados. Na cidade murada medieval, os moradores locais se reúnem no artístico café Oktana ou seguem em busca de música pop grega com riffs de bouzouki e comida mediterrânea no Domus, um bar e restaurante.

A cidade murada, que também está dividida, foi onde encontrei Nicholas Panayi, um pintor grego-cipriota que posteriormente me apresentou a Guney. Panayi, nascido em Nicósia, mora na cidade velha, onde tem uma galeria que exibe suas pinturas de busca, cheias de tensão, e dirige uma escola de arte com sua esposa portuguesa, Teresa.

"Este costumava ser um lugar cheio de casas grandes com jardins, mas infelizmente toda a arquitetura típica foi abandonada para apodrecer", ele disse. "Mas esta parte da cidade tem um atrativo e um calor que parece muito familiar."

O velho bairro emana uma beleza inquieta, desgastada. Aposentados andam de bicicleta ao longo do calçadão da rua Ledra, passando por pais dividindo sorvete com seus filhos pequenos. Os turistas se banqueteiam com queijo halloumi grelhado e (lingüiças) sheftalia picante nas tavernas tradicionais de Laiki Geitonia ("bairro popular"). Na praça Eleftherias, a âncora da área, casais jovens chiques se misturam com imigrantes do mar Negro. Nicósia está planejando uma reforma moderna da praça, de autoria de Zaha Hadid, uma arquiteta ganhadora do Prêmio Pritzker.

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Vista geral de Nicósia, capital do Chipre e a última dividida da Europa
Em uma esquina da cidade velha, com sombras de árvores e cheiro de jasmim, advogados, músicos e adolescentes se encontram no Ta Kala Kathoumena (De Forma Inesperada), um café discreto dirigido por Symis Shukuroglou, que fazia comentários políticos enquanto Panayi e eu bebíamos frappés. "Nós não somos israelenses e palestinos", ele disse. "Nós não temos que amar os turcos e eles não têm que nos amar. Nós temos apenas que tolerar uns aos outros."

Chipre está dividida segundo linhas étnicas desde 1964, quando a luta entre a maioria grega-cipriota e a minoria turco-cipriota se tornou ruim o suficiente para a ONU criar uma zona tampão. A linha divisória foi batizada de Linha Verde porque o representante da ONU usou uma caneta verde para traçar a fronteira no mapa. Em 1974, Atenas, na época dirigida por uma ditadura militar, armou um golpe fracassado para supostamente anexar a ilha à Grécia. A Turquia reagiu invadindo o terço norte, que ocupa desde então.

Tendo Panayi como guia, eu cruzei a área do posto de fronteira do Ledra Palace, um trecho marcado por grupos de prédios desertos e o antes luxuoso Ledra Palace Hotel, atualmente quartel para os soldados da ONU. Ao nos aproximarmos do norte de Nicósia, cartazes denunciando a invasão davam lugar a placas vermelhas declarando uma "República Turca do Norte de Chipre para Sempre". As placas se referem ao Estado separatista no norte, que não é reconhecido internacionalmente.

O norte de Nicósia, lar de cerca de 85 mil pessoas, tem um charme intimista. Música folclórica anatoliana ecoa dos aparelhos de som automotivos. Homens se encontram nos cafés enquanto mães jovens usando lenços de cabeça acompanham as crianças em bicicletas.

Desde a abertura parcial da fronteira em 2003, este lado de Nicósia tem desfrutado de um aumento do turismo. A arquitetura gótica e otomana é impressionante e bem-conservada; por exemplo, o restaurado Buyuk Han, uma hospedaria anatoliana construída em 1572, agora é um eixo para galerias de arte e foto e cafés.

Apesar de muitos turcos-cipriotas viverem nos subúrbios, a cidade velha permanece um paraíso para artistas. Osman Keten cria suas pinturas místicas, em tom de terra, em uma galeria ensolarada perto do Cadi Kazani Cafe, onde freqüentemente se juntam a ele Panayi e Guney para conversar sobre arte e sua cidade. Os artistas expõem com freqüência juntos, mais notadamente na exposição Estúdios Abertos, um festival de artes visuais realizado no centro histórico de Nicósia.

Em uma noite agradável, eu segui para o Cadi Kazani para me encontrar com Keten, Panayi e Guney, que dividiam pratos de tiramisu em uma grande mesa no fundo. Eles conversavam em inglês, às vezes com dificuldade para encontrar as palavras certas, mas estavam à vontade.

Quando lhes perguntei sobre quais eram suas lembranças mais antigas de Nicósia, eles ficaram sérios. Panayi lembrava das bombas turcas caindo na capital. Keten lembrava de como gregos cipriotas radicais incendiaram a casa de sua família. E os combates também forçaram a família de Guney a fugir da bela casa em estilo otomano de sua avó. "Eu ainda me lembro das bonecas que deixei para trás", ela disse.

"Isto é o que você vê em nossa cidade", ela acrescentou, "infâncias perdidas, vidas antigas, elos que não quer cortar. É o que nos mantêm juntos e o que nos separa".

SE VOCÊ FOR

O Centrum Hotel (Rua Pasikratous, 15; 357-2-245-6444; www.centrumhotel.net) na praça Eleftherias não é de alto luxo, mas sua localização é conveniente, o serviço é excelente e os quartos bem cuidados. A diária dos quartos duplos é de cerca de 92 euros, ou cerca de US$ 145 com o euro cotado a US$ 1,58.

Para um frappé espumoso e alguns comentários políticos, vá ao Ta Kala Kathoumena (Nikokleous, 21; 357-2-266-4654).

No norte de Nicósia, confira o Bay Kahkaha, onde o chef Erdogan Sayer é especialista em pratos com frango turcos e internacionais (Memduh Asaf, 9a; 90-392-228-4169). O Atolye Cadi Kazani Cafe (Tanzimat, 77; 90-392-227-3256) é um bom local para um café turco.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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