Viagem

Nos EUA, florestas preservadas da Louisiana atraem ecoturistas e fãs de flores

KEITH MULVIHILL

New York Times Syndicate

18/04/2008 20h46

Mario Villafuerte/NYT
Casa que fica perto de trilha da Floresta Nacional de Kisatchie, nos EUA
Quando chega o mês de abril, os rios e pântanos da região central da Louisiana, nos Estados Unidos, incham com as chuvas rejuvenescedoras da primavera, que regam a paisagem até seu florescimento pleno. Dentro da Floresta Nacional de Kisatchie, azaléias selvagens brilham em trilhas com aglomerados branco-rosados, sassafras apresentam um forte brilho verde e os caminhantes passam por clareiras pontilhadas por flores de alfazema. Os praticantes de caiaque despertam tartarugas que mergulham de barriga de troncos, espirrando água para todos os lados. Pica-paus que parecem estar de barrete choramingam seu canto agudo, que parece uma risada.

"Quando estas árvores estão plenamente floridas", disse Yharon Neal, apontando para um punhado de altas magnólias do sul, "é possível sentir o perfume delas a quase um quilômetro de distância".

Em um dia quente, poucas semanas antes do apogeu da magnólia, Neal, 46 anos, um ávido fã de atividades ao ar livre e fotógrafo amador, estava feliz em remar ao longo do rio Saline, em Kisatchie. Espiando uma grande garça-azul que parecia estar construindo um ninho de gravetos no topo de uma árvore, ele lembrou de uma navegação em outro ano em que, com o caiaque amarrado em um galho, ele observou preguiçosamente um par de garças noturnas construindo um ninho no alto.

"Eu fiquei comendo meu lanche de salame, queijo e bolachas e tirando fotos", ele disse.

A Floresta Nacional de Kisatchie, criada em 1930, ocupa uma área desconexa de cerca de 243 mil hectares entre Alexandria e Shreveport. Cada um de seus cinco distritos (uma seção de um deles se chama Evangeline, a heroína romântica da história de Longfellow dos acadianos exilados na Louisiana) possui um posto de guardas florestais, onde os viajantes podem pegar mapas, impressos e perguntar sobre guias e palestras.

No total, a Kisatchie é ligada por mais de 48 quilômetros de canais abertos para remadores e cerca de 560 quilômetros de trilhas, sendo 160 quilômetros apenas para caminhadas. As outras trilhas são também usadas para atividades como mountain biking, cavalgada ou passeio com veículos off-road. Mochileiros podem armar barracas nas áreas de camping ou em lugares remotos.

Bancos de coníferas densas e imensas, incluindo variedades de pinheiros amarelos, dominam grande parte de Kisatchie, mas sua vida vegetal ricamente variada inclui orquídeas selvagens e gramíneas com nomes curiosos como "dor de dente" e "pânico". Nas áreas baixas e pantanosas, troncos espessos de ciprestes emergem das águas escuras.

Neal, que mantém um site sobre a Floresta Nacional de Kisatchie de sua sede em Pineville, perto de Alexandria, recomendou uma caminhada em uma área do Distrito Calcasieu Ranger chamada Cooter's Bog, em meio a dróseras insetívoras, pinguiculas e hectares de plantas carnívoras que aparecem na primavera com grandes flores amarelas radiantes. "Você se sente como se estivesse em outro mundo", ele disse.

Delores Carpenter de Calvin, uma antiga moradora local, se emocionou quando perguntada sobre o florescimento anual dos cornus no Distrito Winn da floresta.

"É lindo", ela disse, com seu doce sotaque sulista marcando cada sílaba. "Há flores rosadas, brancas e até algumas vermelhas."

Carpenter é dona do Mama D's Country Kitchen em Winnfield, onde ao final de uma estada na mata, os exploradores podem provar filé de peixe-gato empanado com farinha de milho frito, tomates verdes em conserva, beterraba e quiabo, assim como uma torta de creme de coco maravilhosa.

Mario Villafuerte/NYT
A trilha Longleaf conduz os visitantes por colinas íngremes
No Distrito Kisatchie Ranger, a trilha Longleaf Trail Scenic Byway de 27 quilômetros conduz os visitantes por uma paisagem mais escarpada, com colinas mais íngremes e afloramentos de arenito. A Longleaf Vista é uma trilha curta que segue um penhasco. O ar tem cheio forte de pinho e a brisa mantém a copa das árvores em movimento. Ao longe, o vento constante em galhos incontáveis soa como o ruído de um oceano distante.

Para outro vislumbre das florestas da Louisiana, faça uma visita na cidade de Saline ao antigo lar de Caroline Dormon, que foi uma grande responsável pela designação de Kisatchie como floresta nacional. Dormon, uma conservacionista, botânica, horticultora, autora e artista, morreu em 1971 e sua propriedade, conhecida como Briarwood, atualmente é a Reserva Natural Caroline Dormon particular, com 62 hectares de floresta antiga pontuada por jardins e construções de madeira pitorescas. A reserva abriga várias plantas raras e um deslumbrante jardim de íris com 100 variedades locais.

"Nós as temos em várias cores", disse Jessie Johnson, que com seu marido, Richard, trabalha como zeladora e historiadora da reserva. "Vermelhas, amarelas, azuis, roxas e brancas."

Qual é a favorita dela? "Aquela para a qual estiver olhando", ela respondeu.

Dormon e suas amigas fãs de flores reuniram muitas das íris em pântanos em Nova Orleans e arredores. "Nós somos muito afortunados por essas mulheres terem feito aquilo", disse Johnson. "Muitos dos hábitats das íris se tornaram projetos imobiliários."

A primavera também está em exibição fora das reservas. Os campos agrícolas estão verdejantes ao longo da Rodovia 119, que cerca o Lago do Rio Cane, um antigo canal do Rio Vermelho. Os solos férteis deste vale antes cultivavam não apenas hectares de índigo e tabaco e, posteriormente, quilômetros de campos de algodão, mas também uma complexa cultura crioula, misturando tradições dos descendentes de franceses, espanhóis, africanos e indígenas.

Estas tradições podem ser saboreadas na Área de Patrimônio Nacional do Rio Cane, no coração da qual fica um trecho de 56 quilômetros que começa em Natchitoches (a pronúncia é NAQ-a-tich) e segue na direção sudeste ao longo de ambas as margens do Lago do Rio Cane. Dentro da Área, a Fazenda Oakland e a Fazenda Magnolia, separadas por cerca de 16 quilômetros, formam o Parque Histórico Nacional Crioulo do Rio Cane.

Mario Villafuerte/NYT
Homem caminha por trilha da Fazenda Oakland
Na Fazenda Oakland, um punhado de turistas se reunia em torno da guarda florestal Jean Carter, na grande varanda da casa da fazenda, um chalé crioulo ao estilo francês de 1821. Sob a sombra de carvalhos vivos impossivelmente gigantes enfeitados com samambaias, ela apontou para um jardim com mais de 2 mil garrafas de vidro antigas margeando seus cantos, onde lírios esplendorosos em breve florescerão.

No salão, pinturas e fotos funcionam como uma espécie de quem é quem do clã Prud'homme, que viveu na casa por oito gerações. A lenda diz que um retrato, agora reparado por restauradores, foi perfurado pelo sabre de um soldado da União durante a Guerra Civil.

Os últimos Prud'hommes se mudaram em 1998, e o acúmulo eclético de móveis cobre os estilos de todas as eras de sua ocupação. "Eles raramente jogavam algo fora", notou Carter, apontando para uma coleção bem amarrada de revistas "Life" dos anos 40.

Shon Andrus, 41 anos, e três amigos, todos vestindo bandanas, calças de couro de montaria pretas sobre jeans e jaquetas de couro pretas, fizeram a excursão após virem em suas motos de Shreveport. "Cara, deu para aprender um bocado", disse Andrus, com seus amigos concordando com a cabeça enquanto ele comentava sobre a casa: "A arte é impressionante".

Na Fazenda Magnolia, um celeiro contém a prensa de algodão de madeira original dos anos 1830, e oito cabines de tijolos permanecem como um sério lembrete do trabalho árduo dos escravos e, posteriormente, dos agricultores arrendatários.

Uma terceira fazenda próxima, Melrose, de propriedade da Associação para Preservação da Natchitoches Histórica, oferece a história fascinante de uma família de escravos libertos que a fundou por volta de 1800. Cerca de um século depois, ela se tornou lar de John e Cammie Henry, e quase imediatamente Henry passou a restaurar os prédios e plantar jardins. Em duas semanas, os jardins estarão tomados pelo perfume da gengibres; posteriormente, resedás enormes darão um show espetacular.

Na própria Natchitoches, fundada em 1714, restaurantes, livrarias e lojas de antiguidades margeiam a Front Street. Na Louisiana Purchase, Brian Hicks prepara até uma dúzia de variedades de fudge (doce de chocolate), mas pralinas são o que ele mais vende. "Dizem que são as melhores de Dallas até Nova Orleans", ele se gabou.

A uns cinco minutos de viagem, carros fazem fila na Filling Station, uma loja de bebidas congeladas drive-thru situada em um celeiro púrpura. Pela janela, o arco-íris de bebidas congeladas ofusca os olhos. Os nomes igualmente coloridos dificultam a escolha: Electric Slide, Demon Dynamite, Oumpa Lumpa e Tune Up (um pouco de tudo).

"Nós não espetamos o canudinho, então não é uma embalagem aberta", disse Heather Guyans, uma estudante da vizinha Universidade Estadual do Noroeste que estava vendendo bebidas para os motoristas.

Alguma sugestão para onde beber?

"Eu diria para as pessoas irem até o rio e relaxar", ela disse.

Informações ao visitante

A Floresta Nacional de Kisatchie é dividida em cinco distritos, com sede na Shreveport Highway, 2500, Pineville (318-473-7160). Informação detalhada está postada em www.fs.fed.us/r8/kisatchie.

Briarwood, a Reserva Natural Caroline Dormon (Caroline Dormon Road, 216, Saline; 318-576-3379; www.cp-tel.net/dormon) oferece visitas com guias por US$ 5 nos fins de semana nos meses de março, abril, maio, agosto e novembro, e nos outros meses por agendamento.

A Área de Patrimônio Nacional do Rio Cane (318-356-5555; www.caneriverheritage.org) abrange 47 mil hectares, grande parte de propriedade privada, e contém vários marcos históricos nacionais e estaduais. Um deles é a Fazenda Melrose (Rodovia 119, 3524, Melrose; 318-379-0055; www.preservenatchitoches.org), que fica aberta do meio-dia às 16h, de terça à sexta-feira; o ingresso custa US$ 7.

As duas fazendas do Parque Histórico Nacional Crioulo do Rio Cane (318-356-8441; www.nps.gov/cari) ficam abertas diariamente das 8h às 16h e a entrada é gratuita.

No Mama D's Country Kitchen (Maple Street, 1903, Winnfield; 318-628-3222) o peixe-gato frito custa US$ 9,95.

Em Natchitoches, a Louisiana Purchase (Front Street, 584; 318-352-0117) vende presentes com tema da Louisiana e fudge caseiro e pralinas. A Mama's Oyster House (Front Street, 608; 318-356-7874; www.mamasoysterhouse.com) conta com bar completo, ótima cozinha do Sul e um ambiente animado. O Filling Station (Rapides Drive, 324; 318-352-2337) vende bebidas congeladas para viagem.

As diárias dos quartos da pensão Queen Anne B&B (Pine Street, 125; 318-352-9206; www.queenannebandb.com) custam US$ 135.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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