Viagem

O relato de uma travessia "quase" proibida da China para o Tibete

MICHAEL BENANAV

New York Times Syndicate

14/04/2008 18h49

A viagem em uma minivan chinesa levou 11 horas. Após suportar múltiplos atrasos, a travessia de uma passagem traiçoeira pela montanha a cerca de 4.480 metros de altitude e um vizinho de assento que fumava ininterruptamente o caminho todo, casualmente dando petelecos nas cinzas em seu colo, eu cheguei a Dege. Eu estava na área culturalmente tibetana da província de Sichuan no oeste da China, praticamente na fronteira com a Região Autônoma Tibetana. Eu fui a Dege para visitar o mosteiro sagrado de Bakong, que é tanto a maior biblioteca do mundo de textos budistas tibetanos antigos quanto uma editora onde monges redigem manualmente milhares de peças de parafernália religiosa diariamente.

Era quarta-feira, 19 de março.

Momentos após me sentar no lounge da barata mas confortável hospedaria Gesar, dois policiais entraram. O homem, em uniforme azul, se sentou diante de mim e nada falou. A mulher, que vestia um longo casaco cinza e uma camisa preta onde estava escrito "Polícia" onde um emblema de jacaré poderia estar, foi quem falou, por meio de uma intérprete. "Nós aconselhamos você a partir daqui amanhã", ela disse. "É muito perigoso." Foi, como confirmei, uma forma gentil de me expulsar da cidade. A policial foi sempre educada. "É para sua própria segurança", ela insistia.

Todo o oeste de Sichuan tinha sido fechado para estrangeiros. Segundo o noticiário, milhares de soldados chineses tomaram a área para apagar as fagulhas revolucionárias que ameaçavam inflamar as terras tibetanas, após os tumultos em Lhasa poucos dias antes. Os turistas que estavam na região foram gentilmente expulsos; aqueles que seguiam para lá foram impedidos em barreiras e ordenados a dar meia-volta. Por ora o paraíso desses viajantes --com cenários alpinos que arranham o céu, pessoas impressionantemente belas e uma cultura que emana exotismo em tudo, de suas roupas e religião até sua arquitetura-- estava completamente isolado.

Eu sabia do que estava acontecendo em Lhasa, é claro. Eu vi os longos comboios do exército percorrendo as estradas da região, com caminhões cobertos cheios de jovens uniformizados. Tropas com roupa de camuflagem marchavam por cada cidade importante, com capacetes, escudos levantados, empunhando cassetetes e cantando com a intenção de intimidar.

Na terça-feira, 18 de março, enquanto eu estava na cidade de Ganzi, estourou um pequeno confronto. Segundo os moradores, um grupo de cerca de 20 monges e seus simpatizantes estavam protestando de forma ostensiva mas não violenta contra a prisão de uma monja budista que telefonou para a Índia --o que está proibido desde os eventos em Lhasa-- quando foram atacados por soldados. Rumores locais diziam que entre um e cinco manifestantes foram espancados até a morte, sem nenhum soldado ferido (o governo tibetano no exílio citou três mortos). Lojas nas ruas geralmente movimentadas foram rapidamente fechadas, muitas pessoas permaneceram dentro de casa e veículos da polícia circulavam transmitindo mensagens de unidade sino-tibetana por alto-falantes.

Apesar de tudo isso, eu me sentia perfeitamente seguro. Os soldados me ignoravam e os tibetanos eram genuína e entusiasticamente acolhedores como quaisquer pessoas que encontrei em qualquer parte do planeta. Eu entendo como alguém que não esteve lá poderia questionar meu julgamento, poderia achar que fui ingênuo. Mas por horas em Ganzi, imediatamente após o episódio de força excessiva, não havia nenhuma ameaça real no ar, nenhum senso de tumulto ou rebelião ardendo sob a superfície. Os soldados geraram uma tensão temporária quando passaram marchando, mas a maioria dos moradores da cidade os via como um insulto ou um incômodo, não como uma ameaça iminente. Em geral, tudo parecia calmo.

Eu tenho um senso agudo de autopreservação, mas a afirmação dos dois policiais em Dege de que eu corria risco --particularmente por parte dos tibetanos, dos quais supostamente estavam me protegendo-- me parecia absurda.

Agradeci aos policiais pela preocupação deles e os persuadi a me deixarem ficar por mais um dia, após o qual eu teria de qualquer forma que partir. E fui informado de que eu teria que mudar de hotel. "Este aqui não é suficientemente seguro", a policial declarou, o que me pareceu uma afirmação questionável. Apesar de não certificado para receber hóspedes estrangeiros, meu hotel não era menos seguro do que aquele que ela "recomendou", que ficava a cerca de 100 metros de distância, não tinha pia nem chuveiro em todo o prédio e fornecia como toalete comum uma vala coberta de três metros.

Enquanto nossa conversa prosseguia, ficou claro que a versão da realidade dos policiais estava sendo moldada para se encaixar nas ordens do governo. Tentar argumentar com pessoas empregadas para sustentar essa realidade era inútil.

Eu finalmente me voltei para a intérprete e perguntei se ela não pensava que tudo aquilo era loucura. Ela não diria nada, apesar dos policiais não falarem inglês, mas ela riu afirmativamente.

Apesar da aparente urgência em me tirar de Dege, eu permaneci por três dias, já que a estrada ficou fechada devido ao trânsito pesado dos comboios. Eu passei muitas horas entre os moradores locais e peregrinos que vinham para visitar o mosteiro, e fui recebido de forma inconfundivelmente amistosa por todos. Claramente eles não eram uma ameaça.

Fiquei um pouco ansioso em estender minha estadia. Mas a polícia, que estava por toda parte, não prestava atenção em mim. Muitos soldados eram bastante amistosos, acenando e dizendo "oi" em inglês. Eu não devia estar lá, mas ninguém se importava por eu estar.

Apesar de isso ser um alívio, também causava uma certa confusão. Eu não sabia se as regras realmente importavam, quais eram as conseqüências por violá-las e quanto aquilo dependia de um capricho de alguma pessoa em uniforme. Por trás de tudo pairava a sombra da China, seu retrospecto em direitos humanos, sua intolerância com os infratores. Como resultado, eu sucumbi a algumas fantasias paranóides infundadas, até mesmo abrindo fendas nas alças da minha mochila para esconder meus cartões de memória fotográficos, que eram minha maior preocupação.

Ao longo daqueles três dias, o ambiente em Dege, que nunca foi tenso, relaxou ainda mais. Os soldados começaram a marchar sem capacetes, escudos ou cassetetes; eles pareciam um grupo de estudantes que saiu para praticar exercício, com seus rostos expressando que sua missão era um tédio.

Quando consegui voltar para Ganzi, a barreira no limite da cidade transmitia uma situação bem mais séria. Soldados com metralhadoras rapidamente cercaram a minivan em que me encontrava e abriram suas portas de ambos os lados. Um deles se dirigiu a mim em um tom ríspido; eu calmamente respondi em inglês: "Eu não falo chinês". Ele olhou para mim, calado, então voltou sua atenção aos tibetanos no veículo. Nem me foi pedido para mostrar o passaporte.

Caminhando tranqüilamente pela cidade, eu não fui parado nenhuma vez pelos policiais posicionados em cada esquina. Estranhamente, minha presença não parecia incomodar ninguém. O humor nas ruas era tão vibrante como da primeira vez que estive lá e os moradores locais confirmaram que a vida tinha basicamente voltado ao normal. Eu fiquei tentado a ficar. Apesar de estar em território proibido, eu achei que escaparia impune por aquilo. Havia até mesmo aldeias nas montanhas perto de Ganzi que eu queria explorar.

Ávido em espremer até a última gota da viagem, eu me vi em uma versão de turista de "O Tesouro de Sierra Madre". Mas ao me lembrar do fim do filme e notando que aqueles que queriam minha partida portavam distintivos, decidi que já tinha experimentado o bastante e então parti. Mas o arrependimento persiste.

Eu estou ansiando em retornar --assim que for novamente seguro.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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