A cultura do Vietnã pelo copo, do vinho de arroz ao sangue de cobra

NEIL SAMSON KATZ

New York Times Syndicate

  • Hoang Dinh Nam/AFP

Muitas pessoas vão ao Vietnã pela comida, pelas praias, pela história. Minha esposa e eu fomos lá para beber.

Foi esta peregrinação líquida que nos colocou em um carro barulhento em uma estrada de terra sinuosa nas montanhas do norte do Vietnã, em um dia de céu claro de janeiro. Nossa meta, os vinhos de arroz caseiros vietnamitas e Sa Pa, uma impressionante cidade montanhesa a menos de 320 quilômetros a noroeste de Hanói, perto de Lao Cai. Antes um retiro da elite francesa do século 19, atualmente ela é lar da maioria das minorias étnicas, como os hmong e dzao, que produzem vinho de arroz da mesma forma simples há gerações.

De fato, o arroz é a base da vida ali. Quase todo centímetro de terra disponível é usado para cultivá-lo. E para os hmong, segundo nossa guia, uma jovem mulher hmong da área, aceitar o vinho de arroz em um chifre de búfalo é uma parte vital do ritual de cortejo.

Nos arredores montanhosos de Sa Pa, paredões escarpados do vale apresentam degraus contendo as belas geometrias da plantação. Pequenas choupanas de madeira pontilham as paredes do vale, revelando uma vida comunal que, apesar das motos e de uma ocasional TV por satélite, ainda caminha no seu próprio ritmo. Em uma dessas aldeias, Ta Van, nós encontramos Huong Van Thi cuidando de uma grande panela de arroz.

A família de Huong produz vinho de arroz há mais tempo do que qualquer um consegue lembrar. Seus vizinhos dizem que é um dos melhores. Eles devem saber. Eles compram 70 litros dele por semana.

Dentro de sua choça de ripas de madeira, o ar era denso com o vapor da fermentação. Huong jogou longos gravetos no fogo enquanto explicava sua técnica provincial.

Primeiro, ela cozinha o arroz em um grande caldeirão de metal, depois ele é fermentado com levedo e o deixa em repouso por duas semanas. O arroz fermentado é fervido de novo e o álcool se ergue dele na forma de vapor. Uma panela de água fria no topo da panela maior esfria o vapor, o condensando em um potente líquido quente pronto para ser bebido.

Outros o produzem mais rápido, mas Huong alega que sua lenta fermentação "melhora o sabor e aroma do vinho, sem efeitos colaterais, sem dores de cabeça".

Quente e com cheiro de flores

Nossa primeira degustação ocorreu diretamente da panela. Era quente, cheirava a flores e desceu facilmente. Os moradores locais pagam 10 mil dongs por um litro, cerca de 62 centavos de dólar com o dólar valendo 16 mil dongs. Nós alegremente pagamos um pouco mais.

Nós fomos para Sa Pa em um trem noturno que partiu da capital, Hanói, onde a vida se move em velocidade vertiginosa.

A economia do Vietnã quase dobrou nos últimos dez anos e isto fica evidente nos bulevares arborizados de Hanói. Um ocasional Porsche ou Hummer se mistura a uma enxurrada de motos. Um outlet da Louis Vuitton concorre com seus vizinhos falsificados e ainda assim conta com clientes.

Logo, faz sentido que, apesar de turistas tomarem o país em busca de cervejas de 50 centavos de dólar -e encontrá-las-, exista uma classe emergente de vietnamitas em busca de bebidas mais refinadas.

"Em nosso restaurante, um vietnamita gasta muito mais dinheiro do que um estrangeiro", disse Marcus Madeja, proprietário do Highway 4, uma rede badalada que produz mais de 20 bebidas vietnamitas únicas. "Quatro rapazes podem beber quatro garrafas de destilados enquanto um estrangeiro está olhando para a carta -'oh, isto custa US$ 3, eu vou pedir as batatas fritas por um dólar e cinqüenta'."

O Highway 4 é o filho amado de Madeja, nascido na Suíça, e de sua esposa, Thoa Vu Thi, vietnamita. A marca deles de bebidas, Son Tinh, alega misturar vinhos de arroz locais com engenharia suíça. Tal argumento pode soar como de um comercial de automóvel, mas os resultados são muito bons.

Poções do amor

Um licor de damasco era agradavelmente azedo com um toque doce e um leve aroma floral. Uma variedade de ervas mistura mais de 20 raízes e alega ser uma receita roubada da adega do imperador Minh Mang em Hue. (Dizem que Mang, um monarca do século 19 que enfureceu a Europa ao expulsar os missionários cristãos, tinha um harém de 500 mulheres e que provavelmente precisava de um tônico ou dois para ter gerado seus mais de cem filhos.)

É claro, poucos vietnamitas têm o luxo de ter suas próprias poções do amor. Para isto, muitos ainda recorrem aos elixires tradicionais como vinho de cobra ou sangue de cobra. Segundo o folclore, o sangue de cobra provoca um choque semelhante ao de uma anfetamina no coração e o vinho de cobra conecta os cabos das partes sexuais. As pessoas também acreditam que eles limpam o sangue e aliviam dores lombares.

O vinho de cobra pode ser comprado em grande parte do país. O sangue é um pouco mais difícil de encontrar. No Delta do Mekong, rico em ofídios, nós conseguimos nossa dose de ambos.

Thuy Van é uma cantina empoeirada na pequena e movimentada cidade fluvial de My Tho, a cerca de 65 quilômetros a sudoeste de Ho Chi Minh. Passando por fileiras de jarros gigantes cheios de âmbar líquido contendo cobras, escorpiões e cabeças de pássaros pretos, nós encontramos o proprietário, Nguyen Yan, cuidando de uma banheira azul gigante repleta de cobras d'água.

Nguyen nos deu um sorriso largo e enfiou seu braço profundamente na pilha de cobras que se retorciam. Ele é exigente e rejeitou uns poucos répteis abaixo da média antes de finalmente encontrar um espécime satisfatório. Ele caminhou tranqüilamente até a cozinha, pegou uma tesoura, cortou fora a cabeça da cobra e esticou seu pescoço aberto dentro de um copo de plástico. Nguyen então entregou a cobra para uma jovem mulher, deixando aos cuidados dela a tarefa de terminar de drenar seu sangue enquanto ele cortava gengibre fresco em tiras finas e longas -a única adição aos copos de sangue.

Em nossa mesa, o sangue foi servido em um pequeno jarro e copos de aperitivo. Ainda quente e ligeiramente espesso, tinha gosto de salmoura e fumo leve. Meus lábios pareciam em chamas, um fogo que não se extinguiria por horas. Meu coração disparou, mas conseguiu permanecer no peito. Minha esposa sabiamente optou por ficar de fora desta.

Ainda cambaleando do sangue de cobra, nós descobrimos que nada é desperdiçado.

Ossos de cobra fritinhos

Uma panela de metal fervendo chegou com pratos de cebolinhas inteiras e agrião, então pratos menores de molho de peixe picante e pimentas verdes recém cortadas. Na panela, um mingau de arroz aromático, com forte cheiro de gengibre e citronela, apresentava pedaços gigantes de champignon e nossa cobra recém-morta. Seus ossos vieram separadamente, bem fritos. Os moradores os comem como se fossem batatas fritas.

Para concluir a refeição, doses de vinho de cobra foram servidas. O nome é enganador. A bebida é feita de arroz e tem a potência de um uísque. Cobras ou outros animais são adicionados posteriormente para saturar no fermentado.

É pura aguardente e, segundo os padrões vietnamitas, não é barata. Um quarto de litro da bebida custa 70 mil dongs. A quem interessa, um "galão" de King Cobra custa 11,5 milhões de dongs -mais de US$ 700. Mas considerando que contém potência suficiente para gerar uma aldeia inteira, não é um mau negócio.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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