Colômbia investe no turismo internacional para descolar sua imagem das Farc e do narcotráfico

LUNA KALIL

Enviada à Colômbia*

  • Luna Kalil/UOL

Colômbia das Farc, dos seqüestros e do narcotráfico. Essas são as imagens que vêm à cabeça quando pensamos nesse país que faz fronteira com o Brasil. Apesar de seu tradicional café ter ficado famoso no mundo todo e figuras notáveis como o prêmio Nobel Gabriel García Márquez e a cantora pop Shakira serem de lá, o que está no imaginário coletivo quando se fala em Colômbia é o persistente conflito armado nacional. A riqueza histórica e cultural, as praias, a comida tradicional, a música e os diferentes ecossistemas que o país abriga nos mais de 50 parques nacionais acabam se perdendo nas notícias sobre a violência.

Com o intuito de resgatar esses trunfos e mudar a imagem do país para o mundo, o governo colombiano desenvolveu a campanha "Colombia Es Pasión" (Colômbia É Paixão), cujo logotipo é um coração e que pretende, entre outras coisas, incentivar o turismo e desenvolver um sentimento nacionalista entre os colombianos. "El riesgo es que te quieras quedar" (em português, "o perigo é você querer ficar") é a frase gravada em boa parte do material promocional.

"O objetivo dessas ações é mostrar para o mundo o melhor do país e fazer com que todas as pessoas conheçam o que a Colômbia é de verdade", diz Saul Cardozo, do setor de capacitação e divulgação do programa Colômbia Es Pasión. As mudanças acontecem lentamente e, eventualmente, enfrentam momentos de crise, como a recente morte do líder número dois das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia -as Farc- em território equatoriano, que reativou as discussões internacionais sobre grupos guerrilheiros colombianos e reforçou ainda mais a impressão de "risco" ligada ao país.

Mas quem acha inevitável encontrar somente violência e perigo em território colombiano pode se surpreender com a hospitalidade do povo. "Con mucho gusto", maneira simpática de dizer "de nada" em espanhol, é a frase que o turista irá escutar com freqüência nas ruas e avenidas da capital, Bogotá.

Colaboração da polícia

O governo colombiano trabalha há mais de dois anos na criação de programas de incentivo ao turismo e já promoveu capacitações de profissionais do setor. Em 2007, o país recebeu 31,7% mais brasileiros que no ano anterior. Esse resultado está diretamente ligado ao crescimento das relações comerciais com o país, já que negócio é o principal motivo de atração de estrangeiros, principalmente na capital.

A polícia que circula no centro de Bogotá tem colaborado com a iniciativa. Os policiais, além de darem instruções aos turistas, posam para fotos com alguns deles. Mas não deixa de causar estranheza ver homens vestidos com roupas camufladas desfilando pelas ruas.

Apesar de todas as dificuldades, os colombianos não se cansam de reinventar e investir na promoção de regiões que oferecem atrativos específicos, que vão desde as famosas fazendas de café na região central andina até o mergulho em praias paradisíacas no mar do Caribe.
Além disso, a reestruturação de cidades inteiras, como é o caso de Medellín, também faz parte do esforço.

Segundo relatório colombiano, os EUA foram o país que mais mandou turistas para lá em 2007. Foram 265.652, 22,2% do total. Os vizinhos venezuelanos e equatorianos também tiveram grande participação, com 16,5% (196.863) e 9,2% (110.508), respectivamente. O Brasil foi o 8º colocado, com participação de 3,4% (41.145).

Dados da Embratur mostram que, apesar de a ida de turistas à Colômbia aumentar ano a ano, o país ainda é um dos que menos recebem brasileiros. Em 2006, 38.213 pessoas declararam ter ido para lá, número bem abaixo do recebido pelo primeiro país da lista, a Argentina (692.324 naquele ano). "Não podemos dizer que o turismo colombiano aumentou só por causa da Colombia Es Pasión, mas, com certeza, a campanha tem ajudado muito a transformar a nação em opção de turismo internacional", diz Cardozo.

Um barco para o mundo ver

Divulgação
Navio Gloria leva mensagem da campanha Colombia Es Pasión para o mundo
VEJA FOTOS DO BUQUE GLORIA
O povo "chevere" -gíria colombiana para "bacana"-, a riqueza do café e da comida e a variedade de atrativos que o país tem são os elementos que o governo busca enfatizar com a interessante iniciativa de criação de um barco, o navio ARC Gloria, que leva estampada em sua vela a mensagem da campanha e um pedacinho da Colômbia para o mundo ver.

O Buque Gloria -como é conhecido- tem um peso simbólico importante para o país. Esteve três vezes na Europa e já atracou em alguns dos principais portos das Américas do Norte e do Sul. Aqui no Brasil esteve em Fortaleza, no Rio de Janeiro e em Salvador, entre agosto e outubro de 2007.

Segundo Saul Cardozo, "os tripulantes do barco foram capacitados para atuarem como embaixadores da mensagem da Colômbia". O Buque Gloria leva em seu interior uma amostra dos tipos de atrações que podem ser encontrados no país e é aberto periodicamente à visitação. Nesse momento, o barco está em Cartagena preparando-se para ir até Porto Rico, na América Central.

Os destinos mais procurados

A Colômbia é o 31º maior país do mundo e, segundo dados do IBGE, atualmente conta com uma população de cerca de 46 milhões de habitantes. O país abrange uma área de 1.140.000 km², quase o tamanho do Pará, segundo maior Estado brasileiro, e tem todos os tipos de clima para oferecer para os turistas.

Os três principais produtos exportados pelo país são o diamante, as flores (tem mais de 45 mil espécies) e, obviamente, o café. Os destinos mais populares e que receberam o maior número de turistas no ano passado, segundo relatório consolidado pela Proexport, órgão governamental que promove as exportações e o turismo internacional, foram Cartagena, Medellín, Cali, San Andrés e Barranquilla, cidade onde acontece a tradicional festa de Carnaval, além de Bogotá.

Luna Kalil/UOL
Mergulho em Cayo Cangrejo, um dos atrativos da ilha de Providencia
Com a costa voltada para o Oceano Pacífico e para o Mar do Caribe, a Colômbia mostra que sabe explorar o potencial turístico deste trunfo. Quem assistiu ao filme "Amor nos Tempos do Cólera", baseado no livro de García Márquez, pode se lembrar da bela paisagem de Cartagena, onde o escritor colombiano viveu, no litoral caribenho do país. Barranquilla e Santa Marta são outros dois destinos também muito procurados no litoral noroeste.

Segundo a assessoria do governo da Colômbia no Brasil, este ano uma das apostas é o roteiro Baía Solano e Nuquí, que abrange uma área de 60 km de praia no Pacífico e oferece 23 pousadas nativas onde os visitantes podem se hospedar. O destino tem paisagem pitoresca e passeios de lancha, trilhas e contato com a natureza. A hospedagem é simples: não há luz elétrica e os quartos lembram um acampamento.

Outros destaques da lista dos pacotes mais vendidos são as ilhas San Andrés e Providencia, no Caribe. Apesar de estarem mais próximas da Nicarágua, elas pertencem à Colômbia e oferecem mares coloridos, roteiros exóticos e ecoturísticos, além de muito mergulho.

Segundo Cynthia Pastorella, da operadora argentina Tower Travel, que vende pacotes para San Andrés, essas ilhas colombianas são uma alternativa mais barata para quem procura conhecer o Caribe. Para ela, a oferta de hotéis, pousadas e restaurantes e a infra-estrutura local não se comparam ao luxo das outras ilhas caribenhas, como Aruba e Curaçao. "Mas é inegável que o mar de sete cores, que circunda as ilhas, é uma beleza natural que merece ser vista a olho nu."

Outra região que recebeu grande investimento do governo foi Medellín. Depois de muitas reformas, ela deixou de ser uma cidade superperigosa (quem leu o livro "Notícias de um Seqüestro", de García Márquez, deve lembrar que a região era onde ficavam os cativeiros dos jornalistas seqüestrados pelas Farc nos anos 90). Já é consenso que quem pisa no local hoje tem a oportunidade de ver uma cidade organizada, bem diferente de dez anos atrás. Esse trunfo colombiano foi inclusive destacado pela secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, em entrevista recente para um canal de TV brasileiro.

Além da costa caribenha, de Medellín e da pequena e pitoresca Letícia, que fica na região do Amazonas, próxima à fronteira com o Brasil, a Colômbia tem incentivado o turismo nas fazendas e parques naturais da zona cafeeira, na cordilheira central do país.

Em geral, os números do relatório mostram aumento significativo do turismo em 2007 em relação ao ano anterior. Mas o esforço do governo para promover o turismo internacionalmente ainda é criticado internamente. Segundo uma reportagem publicada no jornal colombiano "El Tiempo" (leia aqui) em 25 de fevereiro último, no dia de abertura da Feira de Turismo Destino Colombia, ocorrida em Bogotá, a Colômbia ainda "tem poucas opções de vôos internos e para fora do país e há o problema de falta de profissionalização, um dos freios para o desenvolvimento do setor turístico".

* A jornalista LUNA KALIL viajou a convite da Proexport, órgão governamental colombiano que promove o turismo internacional
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Não, as Farc não estão nas ruas da capital colombiana

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