Caminho à paradisíaca Laguna Miramar passa por comunidades zapatistas e surpresas mexicanas

ZÉ GARCEZ

De Chiapas, no México

  • Poio Estavski

O ônibus cruzou as ruas do cinzento vilarejo. Da janela, vimos uma paisagem muito diferente da que estávamos acostumados. Quando parou na rodoviária, ninguém desceu além de nós. Sentindo que olhos desconfiados nos observavam, caminhamos ansiosos pelas ruas à procura de um local para passar a noite. O que aqueles três "gringos" com enormes mochilas nas costas faziam por ali?

Os policiais da cidade passavam nas caçambas de caminhonetes exibindo seus fuzis e metralhadoras. Percebemos que aquele lugar ainda vivia sob tensão. A lembrança dos conflitos que ocorreram no ano de 1994 entre os revolucionários zapatistas, liderados pelo Comandante Marcos, e as forças do Estado mexicano, deixando quase uma centena de mortos, ainda estavam presentes no local, talvez mais do que em qualquer outro canto do país.

Estávamos na cidade de Ocossingo, no Estado de Chiapas, em busca de informações sobre Laguna Miramar, um lugar paradisíaco de que ouvimos falar em uma conversa com um francês, na nossa passagem pela Cidade do México. A única informação que tínhamos era que deveríamos pegar um "coletivo" em Ocossingo e ir até uma comunidade chamada Emiliano Zapata.

Depois de algumas horas de conversas com os nativos, descobrimos que o "coletivo" sairia somente no dia seguinte às nove da manhã. O tempo de duração da viagem era ainda uma incógnita: uns diziam que a viagem levava duas horas, outros, seis. Na verdade, poucos haviam ouvido falar do lugar e nenhuma das pessoas com quem conversamos conhecia o local.

Na manhã seguinte, acordamos e fomos ao banco da cidade para trocar dólares. Para a nossa surpresa, os funcionários do banco não sabiam o que fazer. Com um pouco de paciência e conversa, resolvemos a burocracia e rumamos para pegar a condução que nos levaria até Emiliano Zapata.

Chegando ao local de saída do "coletivo", nos deparamos com um verdadeiro pau-de-arara. Sentamos nos bancos do humilde veículo, que levava vários tipos de mercadoria para distribuir nas comunidades pelas quais passaria. Partimos com um atraso de mais de uma hora e logo tivemos a segunda surpresa da viagem: descobrimos que o trajeto duraria, no mínimo, seis horas.

O caminho que percorremos era curioso. Passamos por montanhas, rios, cânions e por várias comunidades zapatistas. "Aqui vive uma comunidade de rebeldes zapatistas", era a frase encontrada na entrada de alguns dos vilarejos.

As comunidades rebeldes são, em sua grande maioria, habitadas por índios e camponeses que possuem "leis" próprias, um modo de vida bem peculiar e seguem os ideais zapatistas. Nesses locais, até mesmo o fuso horário difere da hora oficial mexicana, tamanha é sua independência em relação ao Estado. Emiliano Zapata tem até presidente, vice, tesoureiro e um conselho.

A única opção de hospedagem que o local oferece são seis cabanas construídas à beira do rio, alugadas para os turistas. Dormimos em uma delas em Emiliano Zapata e, no dia seguinte, partimos para a Laguna Miramar.

No início da trilha, cruzamos pastagens e plantações e logo passamos à floresta fechada, com árvores gigantescas, macacos e tucanos -que nos fizeram lembrar a mata atlântica brasileira. A quantia paga no aluguel da cabana e a taxa cobrada para entrar na Laguna Miramar são usadas para investir em melhorias para a própria comunidade.

Finalmente, após quase duas horas de caminhada pela trilha e ainda sem saber o que esperar da Laguna Miramar, nos deparamos com uma lagoa de água azul maravilhosa, cercada por florestas e montanhas. Não havia mais ninguém na pequena praia que se formava à beira da lagoa. Éramos somente nós e o paraíso.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos