La Paz

De luta-livre de mulheres a museu da coca: por que La Paz merece sua visita

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL

La Paz é uma cidade capaz de deixar os turistas sem fôlego, mas não apenas por causa de seu ar rarefeito. Cercada pelas montanhas nevadas dos Andes e situada a quase 4.000 metros sobre o nível do mar, a metrópole boliviana oferece atrativos turísticos fascinantes, que jamais poderiam ser vistos em outros países da América Latina. 

Original, divertida e barata, La Paz é um destino interessante para quem quer viajar nestes tempos de real desvalorizado e fugir das tensões criadas pela crise política brasileira.

Ao circular entre estes locais, o turista irá se deparar com uma das culturas pré-hispânicas mais bem preservadas da América Latina: a população de origem indígena de La Paz (que é predominante na cidade) ainda se comunica no ancestral idioma aimará, uma língua completamente incompreensível a ouvidos leigos. 

Abaixo, conheça alguns do passeios mais originais da cidade boliviana. 

Maria Emília Coelho/UOL
Maria Emília Coelho/UOL

Rua das Bruxas

Localizada no coração de La Paz, atrás da Basílica de São Francisco, a Rua das Bruxas (Calle de las Brujas, em espanhol) é um dos pontos turísticos mais originais e famosos da cidade. O local é tomado por lojas vendendo charangos (um instrumento de cordas andino), roupas feitas com a nobre lã da alpaca e camisetas do Che Guevara (que foi morto na Bolívia). O que mais chama atenção no lugar, porém, são os ingredientes ritualísticos oferecidos pelas tendas. No cardápio, há fetos ressecados de lhama (muito comprados por pedreiros, que os enterram nos terrenos antes de começar a erguer uma obra, pois creem que eles evitam acidentes), ervas medicinais usadas por xamãs e o cacto conhecido como San Pedro, que causa alucinações em quem o toma. Este item é muito buscado por jovens bolivianos que gostam de ingeri-lo em lugares isolados (como o meio das montanhas) e "entrar em contato com a natureza".
Maria Emília Coelho/UOL
Maria Emília Coelho/UOL

Museu da Coca

Apesar de ser matéria-prima da cocaína, a folha da coca é venerada por boa parte da população indígena boliviana, que a vê como parte indissociável da sua cultura. Os nativos mastigam a folha para aguentar árduas jornadas de trabalho na altitude, usam-na como ingredientes de seu chá diário e até leem o futuro com ela, em um ritual que lembra o jogo de búzios. Tudo isso está explicado no Museu da Coca, que, apesar de não ter uma estrutura muito sofisticada, fornece interessantes informações para o turista, desde como era o uso da coca pelos incas e até qual é a importância econômica de sua folha para os camponeses bolivianos nos dias de hoje. O lugar, logicamente, também explica como é feito o refino da cocaína, uma droga que continua sendo produzida em grande escala na Bolívia. O museu fica no centro de La Paz e pode ser visitado após um passeio pelas lojas da Rua das Bruxas.
OGD La Paz-Beni/Divulgação
OGD La Paz-Beni/Divulgação

Vale da Lua

O Vale da Lua é um dos lugares mais mágicos de La Paz: situado na zona sul da cidade, onde um ambiente selvagem ainda é maior do que a presença de grandes edifícios, abriga formações geológicas esculpidas durante milhares de anos pela ação dos ventos e das chuvas, que formam um cenário de aparência extraterrena perfeito para fotos. Turistas podem caminhar por longas horas entre essas formações rochosas, algumas exibindo contornos que lembram, por exemplo, o rosto de um idoso e um chapéu feminino. Se der sorte, você pode encontrar músicos bolivianos tocando flauta sobre as pedras, o que intensifica a fantástica atmosfera do local. O Vale da Lua fica a cerca de 10km do centro de La Paz e é facilmente acessível com os micro-ônibus públicos ou de táxi -este um meio de transporte bem em conta na cidade boliviana. Porém, convém negociar o preço antes de entrar no carro.
Corey Spruit/Creative Commons
Corey Spruit/Creative Commons

Luta-livre de "cholas"

Na cidade de El Alto, zona metropolitana de La Paz, são realizadas semanalmente sessões de luta-livre de "cholas", como são chamadas as mulheres indígenas locais. Tudo é encenação, mas, devido à característica inusitada do espetáculo, o local virou uma atração extremamente popular entre turistas estrangeiros. Com suas vestimentas típicas (que incluem enormes saias), as mulheres dão saltos, desferem golpes e fazem piruetas inacreditáveis no ringue -e às vezes até entram em "combate" contra homens fantasiados. É tudo meio bizarro, mas o público se diverte enquanto come pipoca e toma refrigerante. El Alto, por sua vez, é uma cidade caótica e um tanto perigosa que fica ao lado de La Paz. Tente organizar o passeio com seu hostel ou hotel. E vale lembrar: como estrangeiro, não fale para uma mulher indígena que ela é uma "chola". Pode ser ofensivo se você não for amigo dela.
Divulgação/Embaixada da Bolívia em Buenos Aires
Divulgação/Embaixada da Bolívia em Buenos Aires

Sopa de pipi de boi

A Bolívia está longe de ter uma culinária sofisticada como o vizinho Peru, mas, em La Paz, o turista pode ter experiências gastronômicas insólitas. A maior delas é, com certeza, o "caldo de cardán", uma sopa feita com o pênis do touro e servida em pequenos restaurantes do bairro operário de Irpavi, a cerca de 20 minutos do centro da cidade. Trata-se de um caldo espesso que traz, boiando em seu interior e superfície, o órgão reprodutor do animal cortado em fatias ou inteiro. O sabor é forte e, reza a lenda, seus efeitos são afrodisíacos.Verdade ou não, trata-se de um prato pesadíssimo: você dificilmente vai aguentar passear pelas ladeiras de La Paz após esta refeição.
Eduardo Vessoni/UOL
Eduardo Vessoni/UOL

Estrada da Morte

A partir de La Paz são organizados os famosos passeios de bicicleta pela Estrada Morte. Trata-se de um roteiro que começa nos arredores da cidade (há 4.700 metros sobre o nível do mar) e desce por uma estrada cercada por abismos que leva até a vila de Yolosa, a 1.700 metros de altitude. Toda essa descida é realmente perigosa: uma atitude imprudente do ciclista pode fazê-lo sair da via (que quase não tem proteções) e enfrentar uma queda fatal. As paisagens, porém, são deslumbrantes: o tour começa em meio ao cenário árido do altiplano boliviano e termina entre as florestas da região dos Yungas, recheada de cachoeiras e uma fauna diversificada. Ao final da aventura, você pode desfilar orgulhosamente pelos bares de La Paz com a famosa camisa que exibe a frase "Eu sobrevivi à Estrada da Morte". A região da Basílica de São Francisco concentra diversas agências que organizam o passeio.
Divulgação/Marka Tambo
Divulgação/Marka Tambo

Cara a cara com um ídolo

Pepe Murillo é um dos grandes ídolos da música boliviana, com uma história de mais de 50 anos na cena cultural do país. Tocador genial de charango (instrumento de cordas muito usado em músicas andinas), ele se apresenta semanalmente na casa de shows Marka Tambo: trata-se de uma das experiências culturais mais interessantes que o turista pode ter em La Paz. No show, que tem ambiente intimista, o público fica a menos de dois metros de Murillo, que ainda exibe com maestria seu virtuosismo no charango e no canto (e que interage com grande simpatia com os presentes). E, entre uma música e outra, os viajantes podem provar iguarias como carne de lhama. O Marka Tambo fica na Calle Jaén, a rua colonial mais linda de La Paz.
Getty Images
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SERVIÇO

Segundo o ministério das Relações Exteriores, turistas brasileiros não precisam de visto para permanência de até 90 dias na Bolívia (mas têm que tomar vacina contra febre amarela antes da viagem). Ao chegar em La Paz, caminhe pouco pelos primeiros dois dias, até seu corpo se ambientar à altitude: muito esforço nesse período pode gerar sensação de fadiga, náuseas e dor de cabeça. Tente se hospedar na área que vai da Basílica de São Francisco até o bairro de Sopocachi: é uma região central que oferece bons hotéis, hostels, restaurantes, bares e muitos dos lugares sugeridos acima. Reserve pelo menos cinco dias para curtir La Paz: além de seus atrativos, a metrópole pode ser usada como base de viagens bate e volta ao lago Titicaca e ao sítio arqueológico de Tiwanaku.

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