Cultural Gastronômico

Paisagens retrô e clima liberal movem Montevidéu, no Uruguai

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Viagens de 36 horas - New York Times Paola Singer
New York Times Syndicate

O Uruguai vem ganhando destaque na imprensa internacional: afinal, legalizou o casamento de pessoas do mesmo sexo e o consumo de maconha há pouco tempo; seu presidente, José Mujica, já foi reportagem em várias revistas. Embora muitos considerem esses eventos como o desenvolvimento natural da economia e do liberalismo social implantado no país, eles também apontam para uma nova atitude, mais ousada, que fica evidente em Montevidéu, a capital. Hotéis novos, espaços culturais, restaurantes e uma expansão imobiliária aceleraram o ritmo tranquilo da metrópole. Apesar disso, o fascínio da cidade não repousa na novidade, mas no cenário atemporal da arquitetura fin-de-siècle, nas praças arborizadas e calçadões às margens do rio, ladeadas por praias de areia onde os moradores aproveitam os prazeres simples da vida.

SEXTA-FEIRA

15h - História e pulgas
Nos dias de semana, a Ciudad Vieja, ou Cidade Velha, é bem movimentada. Entre os bancos, casas de leilão, cafés e boutiques da região, o visitante encontra prédios no melhor estilo art déco e Beaux Arts, igrejas coloniais e praças com muito verde. Comece o passeio pela Plaza Independencia, onde está a estátua de bronze de quase 17 metros do fundador do país, José Gervasio Artigas; de lá, siga para a Calle Sarandí, o calçadão que vai até a Plaza Matriz, onde foi validada a primeira constituição nacional, há quase 200 anos. Hoje em dia esse quadrilátero arborizado abriga um mercado de pulgas que vende cuias para mate antigas, facas de gaúcho com cabo de prata entalhado, ametistas em estado bruto e pôsteres de arte dos anos 60 e 70.

17h - Cortado, por favor
Os uruguaios nunca perdem a merienda que, em outras partes do mundo é conhecida como chá da tarde. O Café Brasilero é uma das cafeterias mais famosas da cidade, com cadeiras Bentwood de Gebrüder Thonet, janelas de pau-d'arco e candelabros de latão de 1877. Você pode encontrar por lá intelectuais como o escritor e ativista Eduardo Galeano saboreando um cortado (espresso com um pouco de leite quente, 50 pesos ou US$ 2,20 com o dólar a 22,5 pesos) em uma das mesas. Quem preferir interiores mais contemporâneos pode dar um pulo ao Jacinto, misto de restaurante e padaria inaugurado no ano passado por Lucía Soria, uma chef jovem que já trabalhou com o argentino Francis Mallmann. Pães, croissants, torta de limão e doces com dulce de leche são preparados no local; o café é Lavazza.

21h - Apresentações sulinas
Vale a pena conferir a programação do Teatro Solís, o maior centro de artes performáticas do país, com um auditório de quatro andares, corredores com detalhes folhados a ouro e fachada no melhor estilo neoclássico. O prédio de 1856 também abriga a Orquesta Filarmónica de Montevideo e recebe espetáculos de ópera, teatro e balé, incluindo um tributo recente ao coreógrafo russo Vaslav Nijinsky, com a estrela nacional María Riccetto. Não curte os clássicos? As melhores bandas indie da América Latina tocam no La Trastienda Club, café espaço musical onde você pode conferir os pesos pesados do rock-en-español, como La Vela Puerca ou Bersuit Vergarabat.

Diego Giudice/The New York Times
Na capital uruguaia, os fãs de música eletrônica curtem a noite no Phonotheque

Meia-noite - Abastecendo na madrugada
Um bar sem placa nem letreiro na esquina da Paullier e Guaná é o lugar ideal para quem quer comer/beber tarde da noite. Quando o restaurateur Pepe Álvarez assumiu a casa, em 2009, manteve as prateleiras de pinho que vão do chão ao teto e os pisos, além de uma tradição curiosa: esse antigo armazém geral nunca teve nome. Álvarez ajudou a revitalizar o bairro de Cordón que, apesar de central, era pouco movimentado, graças aos jovens clientes boêmios que lotam a casa nos fins de semana. O jantar, que inclui ravióli de cordeiro e risoto de espinafre (entradas a partir de 350 pesos), é servido até duas da manhã.

SÁBADO

9h - Explorando o mercado
Situado em uma estrutura de ferro imensa do início do século 20, arejada e bem iluminada, o recém-reformado Mercado Agrícola tem um dos estilos arquitetônicos mais significantes entre os mercados da região. Mais de cem barracas que vendem de tudo, desde legumes e verduras produzidos regionalmente até carne seca, ervas aromáticas e xales feitos à mão atraem moradores e visitantes ao bairro operário de Goes. Vários quiosques servem café e guloseimas, mas por que não começar o dia com um sorvete? A Del Nieto & Cia oferece gelatos com um toque uruguaio, basta pedir a casquinha de mate ou uva tannat (65 pesos). As cuias de couro e as cerâmicas pintadas à mão da Diseño Sur Artesano valem uma espiada.

Meio-dia - Em meio aos vinhedos
Alugue um remis, ou carro de aluguel, para ir à Bodega Bouza (empresas como a Remises La Española cobram por hora), a 20 minutos do centro. Essa vinícola, além da belíssima localização, é uma das principais do setor nacional, produzindo tintos encorpados feitos com tannat, a uva típica uruguaia, além da tempranillo e merlot. No restaurante, que funciona em um salão de tijolos aparentes, experimente o contrafilé de cordeiro (600 pesos), do rebanho próprio, e o pudim de baunilha com dulce de leche de sobremesa. Os vinhos podem ser consumidos em copo ou degustados por categorias (a partir de 750 pesos). No showroom do dono da propriedade há um Citröen DS 1964, um Ford T e um mini carro Messerschmitt 1957.

15h - Casas de arte
A casa do arquiteto Julio Vilamajó, que projetou a sede da ONU ao lado de Oscar Niemeyer e Le Corbusier, entre outros, é um dos museus mais gostosos da cidade (entrada gratuita). É uma construção modernista, com curvas e ângulos que formam nichos para incrustações, cercada por espaços externos conectados entre si, como o jardim, um pátio e um terraço. A curta distância dali fica a antiga casa de verão de Juan Zorrilla de San Martín, o poeta que escreveu o épico histórico "Tabaré", em 1886. A casa, em estilo colonial, foi construída em 1904, e preservou os aposentos, as fotos e a coleção de arte do bardo (entrada gratuita).

Diego Giudice/The New York Times
Para saborear uma ótima carne em Montevidéu, vá ao La Otra, na região de Pocitos

17h - Ritmo contagiante
O tango nasceu no Uruguai ou na Argentina? O mate foi importado do Paraguai? E quem criou o dulce de leche? O candombe, pelo menos, é indiscutivelmente uruguaio. Esse estilo folclórico percussivo, tocado por bandas com até 40 pessoas produzindo um único som com inúmeros tambores, é uma fusão de ritmos africanos criada pela população negra da cidade no século 19. Diversas comparsas, ou trupes, fazem show de rua em Barrio Sur e Palermo. Junte-se ao pessoal que se reúne para ouvir La Facala tocar todo sábado na esquina da Ejido com Cebollatí.

22h - Importações culinárias
Elsa Manelphe, da Ilha Reunião, introduziu os sabores exóticos em Montevidéu. Em suas reuniões semanais, feitas à base do boca-a-boca, a chamada Cuisine Secrete, há pratos com temperos asiáticos e toques franceses. Em um jantar recente (por cerca de 1.300 pesos, incluindo vinho), realizado em sua casa em estilo boêmio-chique, na Cidade Velha, foram servidos suflê de ervilhas e queijo pecorino, terrina de peixe ao gengibre com molho de camarão e leite de coco e sorvete de chá verde com abacaxi flambado. Aviso: como membro da sociedade gastronômica Disciples Escoffier, ela passa grande parte do inverno uruguaio no sul da França. Como alternativa, dê uma olhada nos horários da Mutate, loja conceitual que organiza jantares pop-up em locais como o MAPI, ou o Museu de Arte Pré-Colombiana.

1h - Alta voltagem
Os fãs de música eletrônica vão ao Phonotheque, clube noturno que fica dentro de uma casa de espetáculos antiga e fora de mão. Há três DJs, mas ali também se apresentam convidados da América Latina e outros países, como o músico texano Brett Johnson e o madrilenho Damián Schwartz. Dependendo da animação do público, a festa vai muito além do raiar do dia.

DOMINGO

11h - Passeio florido
Embarque no novo ônibus de turismo de Montevidéu (416 pesos) para ver o charmoso bairro El Prado, que abriga um jardim botânico de quase dez hectares com mais de duas mil árvores. Ali perto fica o Museu Blanes, em estilo palladiano, que ganhou esse nome em honra ao retratista do século 19, Juan Manuel Blanes, e é dedicado às obras de pintores nacionais como Pedro Figari e Rafael Barradas (entrada gratuita). Um passeio pelo jardim japonês próximo é uma boa pedida. Doado pelo Japão em 2001 como símbolo de amizade, essa coleção de bambus, cerejeiras, orquídeas e pedras meticulosamente disposta é uma verdadeira preciosidade.

13h - Despedida substanciosa
O visitante que quiser provar o tradicional asado, como é chamado o churrasco local, acaba invariavelmente indo para o Mercado del Puerto, mercado antigo e movimentado lotado de steakhouses. Apesar da variedade, vá ao La Otra, uma parrilla com clima intimista em Pocitos que serve uma carne magistral. Para o prato principal (a partir de 270 pesos), opte pelos cortes clássicos como o asado de tira, vacio ou ojo de bife, mas aposte também em algo menos familiar, como o choto, tripa de carneiro crocante servida somente desse lado do rio da Prata.

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