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Pico dos Marins tem guardião de 75 anos e aventura acima das nuvens

Daniel Nunes Gonçalves

Colaboração para o UOL, de São Paulo

Depois de ser atingido por um incêndio, em julho, que queimou o equivalente a 345 campos de futebol, o Pico dos Marins, uma das montanhas mais altas do estado de São Paulo, já vê sua vegetação começar a se recuperar. “Os turistas estão voltando e percebendo que a grama voltou a brotar”, comemora o montanhista Hideki Maeda, que abriu as trilhas daquela região há mais de 20 anos e mora no sopé desse maciço de 2.421 metros na Serra da Mantiqueira.

O Marins se tornou um destino clássico dos amantes das caminhadas graças especialmente ao esforço e à paixão desse japonês de 75 anos, que nasceu em Nagasaki e migrou aos 20 para o Brasil.

Baixinho e dono de um sotaque divertido, ele se orgulha de contar aos visitantes da pousada, que abriu ali há 10 anos com a mulher, como foi pioneiro ao destrinchar caminhos como o da Serra Fina, da travessia Marins-Itaguaré e o que liga a Pedra Montada ao Marinzinho. 

Daniel Nunes Gonçalves/UOL
Anoitecer e amanhecer são os momentos mais cênicos no topo do pico Imagem: Daniel Nunes Gonçalves/UOL

Localizado na divisa de São Paulo e Minas Gerais, o Pico dos Marins tem acesso por Piquete, a cerca de 210km da capital paulista -- 2h40 de carro, pela Via Dutra. 

Quem conhece a história do velho Maeda faz questão de dar uma parada ali na ida ou na volta do trekking, seja para pernoitar, comer ou visitar o Museu Histórico do Montanhismo. Trata-se um cômodo simples onde o guardião da montanha preserva botas, barracas e equipamentos dele e de aventureiros como Vítor Negrete, que morreu no Everest em 2006.

Quando a reportagem visitou o local, em agosto, parte da paisagem ainda estava empretecida pelas chamas -- iniciadas pelo sinalizador de um campista e que torraram 229 hectares no entorno do cume. Mesmo com o triste cenário, o Pico dos Marins encanta quem o alcança. A visão panorâmica de 360 graus, que permite ver os povoados vizinhos e as lindas montanhas da Mantiqueira, é a recompensa após levar de quatro a nove horas para subir a trilha a partir do QG do Maeda. 

Daniel Nunes Gonçalves/UOL
Que tal tirar uma selfie lá no alto dos Marins, sobre as nuvens? Imagem: Daniel Nunes Gonçalves/UOL

A aventura não é técnica e ninguém precisa ficar pendurado em paredões. Pernas fortes são fundamentais para os caminhantes do Marins. Em alguns trechos é preciso se apoiar nos 50 metros de corda que Maeda colocou no caminho. Ele também demarcou a rota com placas e setas nas pedras.

Os menos acostumados a longas andanças costumam fazer, em um só dia, o passeio de bate-e-volta entre a casa do Maeda e as pedras do Marinzinho (a 2.432m de altitude) ou da Pedra Montada.

Já os adeptos do camping selvagem preferem esticar a jornada até o Pico dos Marins e passar a noite nas alturas -- seja no cume ou em um descampado 50m abaixo, num ponto mais protegido do vento. A grande procura por um espaço para acampar no Marins, no entanto, costuma deixar o lugar cheio demais nos fins de semana entre junho e setembro. Apesar das temperaturas de menos de 10 graus, é a melhor época para explorar a área sem riscos de chuvas ou raios.

“O Pico dos Marins é o lugar mais bonito do mundo, mas precisa ser bem cuidado”, repete Maeda, que às vezes busca seus hóspedes de carro, ao fim da trilha no domingo. Ele lamenta pela imprudência de quem começou a queimada e lembra que, como não há banheiro, os campistas têm que enterrar suas necessidades. “Se protegermos o Marins, teremos ele lindo assim por muitas gerações. Quando eu morrer, é aqui que quero ser enterrado”, sentencia.

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