Viagem

Roteiros culturais

Ottawa sai da sombra de Montreal e Toronto e mostra Canadá multicultural

Remy Scalza

Do The New York Times

O que não falta à capital canadense é charme histórico – dos prédios góticos do Parlamento ao canal que a Unesco transformou em Patrimônio da Humanidade –, embora há muito seja perseguida pela fama de ser apenas um centro governamental sem graça.

Um fim de semana na cidade, porém, prova o contrário: com um cenário gastronômico promissor, uma sensibilidade multicultural e bilíngue graças à localização (na divisa entre Ontário e Quebec) e uma vida noturna intensa, Ottawa está saindo da sombra de Montreal e Toronto graças a novos projetos de infraestrutura, incluindo uma linha multibilionária de VLT.

Com os preparativos para os 150 anos da independência do Canadá, no ano que vem, quando estão previstas várias exposições comemorativas e a inauguração de diversas galerias, Ottawa é tudo, menos uma experiência burocrática.

Sexta, 15h - Na sede do governo

David Giral for The New York Times
Estatua de Sir Wilfrid Laurier perto da Colina do Parlamento Imagem: David Giral for The New York Times

Sim, é um passeio para lá de turístico, mas Parliament Hill vale a subida. Muito acima do Rio Ottawa, erguem-se os torreões cobertos de cobre e a fachada decorada de gárgulas do Centre Block, a imensa construção neogótica que abriga o Parlamento canadense. Esqueça a visita guiada e pegue o elevador, gratuito, para chegar ao topo da Torre da Paz (é preciso adquirir a entrada com antecedência). Com 92 metros, está entre as estruturas mais altas da região e é uma das melhores plataformas de onde se admirar a capital e sua cidade gêmea, Gatineau, em Quebec, do outro lado do rio.

17h - Visões históricas

Considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o Canal Rideau – concluído em 1832, que compreende 202 km de eclusas e vias navegáveis entre Ottawa e o Lago Ontário – se transforma em rinque de patinação no auge do inverno. Uma boa pedida para se ter uma visão mais ampla da região é o Major's Hill Park, de onde se pode também admirar o rio Ottawa e o Parlamento, principalmente no fim do dia. Entre no Château Laurier, o hotel com cara de castelo construído ali perto, em 1912, para ver, logo no saguão, os trabalhos do fotógrafo naturalizado canadense Yousuf Karsh, incluindo o famoso retrato que fez, em 1941, de um Winston Churchill carrancudo, tirado logo após Karsh ter lhe arrancado um charuto da boca.

18h30 - Política de bar

Políticos, assessores e funcionários públicos saem do Parlamento para se reunir na Hill Hour (das 16 às 19, de segunda à sexta) no Métropolitain, misto de brasserie e bar de ostras de inspiração parisiense. Acomode-se ao antigo balcão de zinco para ouvir as últimas intrigas políticas degustando moluscos da Ilha Prince Edward (1,50 CAD ou R$ 3,58, de acordo com a cotação de 24.01.2017) e a cerveja artesanal local da Kichesippi. Os garçons, impecáveis, não deixam nenhum copo vazio e a conversa, em inglês e francês, vai esquentando conforme a noite avança.

20h - Banco alimentar

Com uma dose de elegância urbana pertinho de Parliament Hill, o Riviera foi inaugurado, em 2016, em uma antiga agência bancária em art déco. (Sim, o cofre virou uma adega.) Lá dentro, um cardápio pequeno e rotativo é servido para um público bem-vestido sob um pé-direito de 15 m com detalhes em metal. Sente-se ao balcão e comece com o atum cru com quinoa (18 CAD ou R$ 42,94, de acordo com a cotação de 24.01.2017) ou as lascas de trufa negra na torrada (18 CAD ou R$ 42,94, de acordo com a cotação de 24.01.2017) antes de se aventurar nas deliciosas massas caseiras ou as costelinhas defumadas com polenta de milho branco (32 CAD). A carta de vinhos é complementada por coquetéis criativos como o Jockey Full of Bourbon (bourbon Buffalo Trace, vinho do porto Taylor Fladgate, licor Ancho Reyes, 14 CAD ou R$ 33,40, de acordo com a cotação de 24.01.2017). De lá, siga para Elgin Street, onde há várias tavernas e alguns dos melhores restaurantes da cidade. Geralmente há fila para entrar no Manx, um pub subterrâneo minúsculo que serve cervejas locais na torneira, como a Broadhead Wildcard, ale ligeiramente amarga de Ottawa.

Sábado, 10h - Corrida pelo pão

David Giral/The New York Times
Dentro da padaria Art-Is-In Bakery Imagem: David Giral/The New York Times

Por que correr para uma região inóspita, castigada pelo vento, em uma manhã de sábado gelada? Para saborear um dos melhores pães de Ottawa – sem falar dos croissants de amêndoa, brioches, scones e muito mais. A longa fila na porta atesta a popularidade da Art-Is-In Bakery, do confeiteiro Kevin Mathieson. Nas manhãs de sábado e domingo o espaço claro e inacabado fica lotado de fãs do pão branco levedado e das "baguetes dinamite" (com casca cheia de bolhas e uma explosão de bolsões de ar no miolo). Experimente o sanduíche especial de café da manhã (no pãozinho de manteiga, levedado ou integral; 6,95 CAD ou R$ 14,30, de acordo com a cotação de 24.01.2017) e tente resistir ao "kronuts", (4,25 CAD ou R$ 10,13, de acordo com a cotação de 24.01.2017) do tamanho do prato.

Meio-dia - Bairro em ascensão

Wellington West, que já foi uma área inóspita, com casas e lojas caídas, hoje é "o" bairro de Ottawa. Na Maker House Co., por exemplo, há objetos de arte extravagantes, além de móveis e objetos de decoração, a maioria de produção local, incluindo cabeças de veado feitas com papel que você mesmo pode montar, em estilo origami. Um pouco mais além, a Hintonburg Pottery da ceramista Ginger McCoy exibe seus vasos em tons turquesa, além de outras obras. Deu sede? Pare no salão de degustação da Tooth & Nail; a microcervejaria atrai um grande público graças às cervejas saborosas que produz em pequenas quantidades, como a pale ale Solo Mission, vibrante e frutada.

15h - Delícias no mercado

David Giral/The New York Times
BeaverTails, que oferece frituras de massa integral e cobertas com todas as variações Imagem: David Giral/The New York Times

Construído para acomodar os construtores do canal de Ottawa, no século XIX, o bairro de ByWard Market é uma mistura de pubs, casas noturnas, empórios finos e boutiques. O prédio da Market Square, de 1926, vale uma parada, nem que seja pela Moulin de Provence, uma boulangerie que serve delícias como a tourtière, torta recheda com carne de porco e de vaca. Do outro lado da rua, a fedida e irresistível Casa do Queijo oferece o Lankaaster maturado de Ontário (ganhou o prêmio máximo do Global Cheese Awards em 2013) e queijo coalho para a preparação do poutine. Ao lado, o chocolatier Heinrich Stubbe há 27 anos faz barras na versão amarga, trufas e um stollen animal na Stubbe Chocolates. Para provar a delícia da terra, pare na barraquinha original da BeaverTails, onde a guloseima frita, de massa integral e coberta com todas as variações, incluindo canela com açúcar e chocolate com nozes, ganhou popularidade antes de se espalhar pelo mundo.

18h - Jantar diplomático

De frente para a Embaixada dos EUA fica o Play Food & Wine, restaurante casual de Stephen Beckta e Michael Moffatt, de dois andares. (Sua outra casa, o Beckta, há tempos é considerada uma das mais refinadas da cidade.) Comece com a sopa de couve-flor e maçã com curry e chutney de maçã e cardamomo, servida em uma xícara de chá (9 CAD ou R$ 21,45, de acordo com a cotação de 24.01.2017), antes de atacar o filé com fritas (17 CAD ou R$ 40,51, de acordo com a cotação de 24.01.2017). As sobremesas, como a cuca de maçã e cheddar branco com bacon açucarado (9 CAD ou R$ 21,45, de acordo com a cotação de 24.01.2017), podem ser acompanhadas por três opções de vinho (três doses de 30 ml por 20 CAD ou R$ 47,66, de acordo com a cotação de 24.01.2017).

21h - De gole em gole

David Giral for The New York Times
Vista de Ottawa do Andaz Hotel Imagem: David Giral for The New York Times

No 16º andar do novo hotel da Andaz, o Copper, fica o lounge que faltava em Ottawa. Com iluminação suave, é o local perfeito para a apreciação da vista da cidade lá embaixo entre goles de 16th-Floor Martini (preparado com a Top Shelf Vodka local e servido com azeitonas recheadas de queijo blue, 17 CAD ou R$ 40,51, de acordo com a cotação de 24.01.2017). No térreo, vá à 1849 Château Lafayette (mais conhecida como Laff), famosa por ser a taverna mais antiga de Ottawa, com direito a garrafinhas de Labatt 50 e música ao vivo. Ali perto, o Heart & Crown é um pub que mais parece um labirinto, pois consiste em cinco bares interligados por portas, degraus e corredores escuros em uma área equivalente ao quarteirão inteiro. Recentemente passei por lá e havia uma banda tocando músicas irlandesas de bebedeira na parte da frente enquanto um DJ discotecava sucessos de hip-hop nos fundos.


Domingo, 10h - Galeria escondida

Uma aranha de bronze, ameaçadora e gigantesca, ("Maman", de Louise Bourgeois) está a postos na entrada da Galeria Nacional (ingresso, 12 CAD ou R$ 28,59, de acordo com a cotação de 24.01.2017), o lugar que normalmente exibe exemplares da arte canadense. Acontece que uma reforma vai interditar o prédio até meados de maio. Os mais intrépidos, porém, descobrirão uma das maiores coleções do mundo de obras inuítes contemporâneas no subsolo. Esculturas em pedra, osso de baleia, marfim de morsa, madeira e chifres de animais oferecem uma visão de como é a vida no Extremo Norte. As formas animais familiares dão espaço a quimeras inesperadas – como a Criatura Alada de Kiugak Ashoona, parte pássaro, parte caranguejo, parte homem, esculpida em formato de serpente, em um verde luminoso.

Meio-dia - Compras

Aluguéis acessíveis transformaram a ponta norte da Dalhousie Street (NorthDal) em um núcleo de estilistas locais em ascensão. A Workshop oferece produtos inspirados no próprio país: camisetas decoradas com sapatos de neve antigos, lobos e outras imagens (35 CAD); um pouco mais para cima, a Goods reúne reproduções, velas e artigos de cerâmica, incluindo canecas, (40 CAD ou R$ 95,31, de acordo com a cotação de 24.01.2017) de Nina Marchewka. Aqueça-se com um chai-der bem quente (parte chai, parte sidra Hall's) na cadeia de cafés local Bridgehead antes de conferir a Victoire, que oferece peças para "garotas rebeldes de boas maneiras".

14h - A outra metade

David Giral/The New York Times
A ponte Alexandra, e Gatineau, visto da Colina del Parlamento Imagem: David Giral/The New York Times

Atravessando a Alexandra Bridge, uma ponte férrea concluída em 1900, você chega a Gatineau, a metade francófona da Região da Capital Nacional do Canadá. Ali fica o Museu de História Canadense, (ingresso, 15 CAD ou R$ 35,74, de acordo com a cotação de 24.01.2017) praticamente todo em reforma até julho, mas vale a pena dar uma espiada no Grand Hall, onde uma série de totens altíssimos de Haida Gwaii e da Costa do Pacífico está disposta ao lado de uma parede curva de janelões equivalente a seis andares, verdadeiras sentinelas silenciosas sobre o rio.

Acomodações

O ALT Ottawa, inaugurado este ano com 148 quartos, é uma opção acessível, minimalista e chique na região do distrito financeiro, a algumas quadras de Parliament Hill (althotels.com/en/ottawa; 154 CAD ou R$ 366,95, de acordo com a cotação de 24.01.2017). O concreto inacabado e o pé-direito alto lhe conferem um clima industrial estiloso – mas a grande vantagem mesmo é a política de check-out liberal para as reservas diretas.

O Château Laurier, agora administrado pelo grupo Fairmont, há mais de cem anos oferece acomodações luxuosas no centro da cidade, ao lado do Parlamento e do Canal Rideau (fairmont.com/laurier-ottawa; 429 quartos com diárias a partir de 200 CAD ou R$ 476,56, de acordo com a cotação de 24.01.2017). Os torreões imensos, as janelas de vitrais e os salões de baile imponentes refletem seu histórico como um dos hotéis mais grandiosos do Canadá.
 

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