Viagem

Ecoturismo

Do Chile a Argentina: roteiro cruza os Andes e tem belas paisagens

Felipe Floresti

Do UOL, no Chile e Argentina*

04/11/2015 21h57

Poucas décadas depois de seus antepassados terem chegado da Alemanha para colonizar os arredores do lago Llanquihue, o chileno Don Carlos Wiederhold partia para outra jornada. Cruzar a Cordilheira dos Andes para conhecer as paisagens do lago Nahuel Huapi. Encontrou uma região bela e despovoada, onde decidiu se estabelecer, em 1895. Lá Don virou San e no lugar onde montou seu armazém nasceu a cidade de San Carlos de Bariloche - que em mapuche, a língua dos nativos da região, significa "gente do outro lado da montanha".

Existem formas mais fáceis de chegar ao destino de férias preferido dos brasileiros que buscam neve. Quatro horas e meia de avião ligam São Paulo a Bariloche. Mas a rota percorrida por Don Carlos ainda está lá. No lugar de trilhas abertas a facão e um bote, estradas pavimentadas e barcos climatizados. O que pouco mudou foi a paisagem, com lagos coloridos em tons de azul e verde, rios, cachoeiras, picos nevados e os monumentais vulcões. A natureza convida a seguir pelo caminho longo.

Puerto Varas
A jornada começa pouco mais de mil quilômetros ao sul de Santiago, Puerto Varas, capital turística do sul chileno, no limite norte da Patagônia chilena. Nem precisa rodar muito para perceber a influência colonial. Desde o aeroporto, saindo de Puerto Montt, vê-se que quase todas as casas são de madeira - ou imitando o material, com estilo remetendo à arquitetura de montanha dos Alpes.

A influência também está na gastronomia. Não deixe de passar em um dos cafés da cidade, especializados em doces alemães, com biscoitos, bolos, geleias artesanais e a principal iguaria, o kuchen, uma espécie de torta com frutos silvestres da região. A culinária se complementa com a tradição de boas carnes do sul do Chile e os frutos de mar vindos da baía de Puerto Montt. O turismo pelo paladar fica completo nas cervejarias artesanais com sotaque germânico.

Getty Images
Vulcão Osorno visto desde os Saltos de Petrohué Imagem: Getty Images

É ao chegar à beira do lago Llanquihue que a natureza encanta pela primeira vez. Nos dias sem muitas nuvens, dois grandes vulcões preenchem o horizonte: Calbuco e Osorno. Este segundo é uma das principais opções de passeio na região. Durante os meses de inverno funciona como estação de esqui, com opções de pistas para todos os níveis. Mas, mesmo no verão, com as pistas fechadas, vale a visita para subir até 1.425 metros de altitude pelo teleférico e ter uma vista panorâmica do lago.

Depois de desfrutar tudo que Puerto Varas tem a oferecer, está na hora de seguir o caminho pelos Andes. A jornada dura um total de 13 horas e pode ser feita em um dia. Mas se a ideia é ir com calma, há dois pontos de pernoite na viagem.

O Cruce Andino
O trajeto margeia o lago Llanquihue até a praia da Enseada, onde a estrada segue em direção ao Lago de Todos os Santos. Mas não sem antes fazer uma parada nos belos Saltos de Petrohué. O rio, que nasce no lago, corre por rochas vulcânicas, formando uma sequência de cânions e cachoeiras de águas cor turquesa.

Após duas horas de ônibus saindo de Puerto Varas (dica: sentado no lado esquerdo do veículo você aproveita melhor a vista), chega a hora do primeiro trecho sobre as águas. É preciso cruzar todo o Lago de todos os Santos, que cobre uma área de 178km², em uma viagem de 1h40 até o pequeno vilarejo de Peulla. Por todo o caminho, a companhia dos quatro vulcões da região: Osorno, Calbuco, Puntiagudo e Tronador, o maior de todos, chegando a 3.491 metros de altitude.

Peulla
Do vilarejo de Peulla pouco se vê. Afinal, não há mesmo muito para observar. São apenas 120 habitantes espalhados em casinhas pela região. A atenção fica nos dois hotéis, o Peulla e o Natura - as únicas opções de refeição e hospedagem, e no belo vale do rio, que segue por 16km cordilheira adentro.

Felipe Floresti/UOL
Paisagem nos arredores do Lago Frias é deslumbrante Imagem: Felipe Floresti/UOL

Quem decide passar a noite pode aproveitar para fazer passeio cavalo ou entrar em um 4x4 em um safári pelos cantos mais remotos do vale. Mas em Peulla tudo depende do clima. Uma piada local diz que quando não está chovendo é porque vai chover. Mas nada que justifique o desânimo. "Sabíamos que é uma região que chove muito e faz parte do turismo de natureza", disse o brasileiro Reinaldo José Silva, de férias com a família. "Para quem gosta de natureza, não tem como não ficar satisfeito. Mesmo debaixo d'água".
 
Do Chile a Argentina
Saindo de Peulla, o próximo passo é passar pela imigração. Um posto da polícia de fronteira chilena fica a poucos metros do hotel. O caminho segue sinuoso em meio à floresta, sempre subindo. Alguns sinais de neve derretem na beira da estrada quando uma placa anuncia a fronteira entre Chile e Argentina. Saímos do Parque Nacional Vicente Perez Rosales para entrar no parque Nacional Nahuel Huapi.
 
Depois de uma longa descida, chegamos ao Puerto Frias, onde fica a imigração Argentina. Esse ponto talvez demore mais, já que na entrada do país algumas malas que seguem no ônibus são escolhidas aleatoriamente para serem revistadas. Aproveite o tempo de espera para apreciar as águas de cor verde-clara, que escorrem do degelo do Monte Tronador até o Lago Frias, e ficar atento à fauna local, com aves de rapina e animais maiores. Tivemos a sorte de encontrar uma raposa.
 
São mais 20 minutos para cruzar o pequeno Lago Frias, seguidos por um trecho curto de van até Puerto Blest. Lá fica a segunda opção de restaurante da viagem (também tem bares com snacks nos barcos) e a partir de novembro de 2015 começa a funcionar um hotel no local.
 
A maior atração, porém, fica ao lado do hotel. Um rio que sai do Lago Frias deságua na pequena baía que dá início ao grandioso lago Nahuel Huapi, com seus 557 km² de superfície. Dá para perder um bom tempo só observando o esmeralda se fundir lentamente com a água azul escura. Uma caminhada em meio à vegetação leva ao Lago Cántaros, com uma cachoeira que leva seu nome. Outra atração é um milenar alerce, uma árvore típica da região cuja madeira foi muito utilizada para a construção das casinhas em estilo alpino.
 
Felipe Floresti/UOL
Flagra do momento que uma gaivota pega a bolacha da mão de turista Imagem: Felipe Floresti/UOL
 
Fim da jornada
O trajeto pode ser percorrido também no sentido contrário, partindo de Bariloche. Mas, seguindo o guia Patrício, sair do Chile é mais recomendado, pois a visibilidade dos vulcões é melhor pela manhã. Ele também prefere fazer o percurso no inverno, quando a paisagem branca contrasta com as folhas avermelhadas da lenga, uma árvore comum na região. No verão, quando chove menos e o calor é maior, o que atrapalha é a mosca tabano, no Brasil conhecida como mutuca.
 
A viagem parte para o último e longo trecho sobre a água. São duas horas em uma embarcação para até 200 passageiros por um dos braços do lago Nahuel Huapi. Montanhas nevadas acompanham a paisagem. Para deixar tudo mais divertido, um grupo de gaivotas segue a embarcação, atenta a qualquer um que as ofereça uma bolacha de água e sal, vendida na embarcação com esse propósito. Chegado em Puerto Pañuelo, é mais uma hora de estrada no derradeiro trecho até o destino final.
 
Depois de um dia intenso, enfim Bariloche. O caminho é longo, mas dá para ser ainda maior, indo de bicicleta por onde foi o ônibus. Outra opção é fazer o percurso de Puerto Varas a Bariloche de ônibus. É mais rápido (apenas 4h) e barato, US$ 26** contra US$ 230** do roteiro do Cruce Andino, sem contar refeições, possíveis pernoites e atividades não inclusas. Mas aí não tem passeio no lago, não se vê cachoeira, a gaivota não come da sua mão e vulcão só é visto pelo vidro embaçado do ônibus. A escolha é do freguês.
 
* O jornalista viajou a convite do Cruce Andino
** Valores consultados em setembro de 2015 e sujeitos a alterações

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