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Viagem

Roteiros para descansar

Caribe colombiano tem ilhas paradisíacas e mar cristalino

Freda Moon

New York Times Syndicate

03/07/2014 17h14

Passei os braços à volta da cintura de Leonardo, o nosso "motorista de moto", que deu uma arrancada na Yamaha e saiu a toda no concreto quente e esburacado da estrada.

"Você entendeu alguma coisa?", gritou ele sobre o ombro, embalando em alta velocidade na noite escura. Não, não tinha. Fiquei ali, na beira da estrada, ouvindo dez minutos de conversa entre Leonardo e seu amigo descamisado e, pelo menos a meu ver, arrependido. Os insetos ameaçavam devorar as minhas canelas, o escapamento quente tinha ameaçado a minha panturrilha direita e eu só tinha conseguido entender uma palavra, "Desculpa". Meu marido, Tim, estava sentado atrás de mim, me abraçando as costas, os pés amassados pelos meus. Ele também não tinha entendido. "Há quem diga que a gente fala patois, mas é inglês. Inglês crioulo."

Era sábado à noite em "Old Providence", que é como os negros caribenhos -- os raizal -- chamam a segunda maior ilha do território colombiano de San Andrés, Providencia e Santa Catalina. Tim e eu tínhamos chegado há alguns dias, depois de uma verdadeira maratona: três voos em três dias, cada avião menor que o outro, exatamente como as matrioskas russas. Quando finalmente aterrissamos, a primeira coisa que vimos foram os destroços de um avião sem turbina e sem rodas que não teve tanta sorte como nós; a segunda foi o meu pai acenando da área de recepção aberta do terminal que tinha apenas duas salas. Mesmo através das palmeiras inconfundíveis, marca registrada de qualquer aeroporto caribenho, e com a câmera grudada no olho, deu para ver que ele estava radiante.

Tim e eu estávamos ali para visitar meu pai e a namorada dele, Robin, que tinham feito uma parada, depois de saírem de Belize, em direção ao Panamá, em um barco de mais de treze metros. Os dois estavam ali há quase um mês quando chegamos à ilha de 8 km de extensão da qual tinha ouvido falar pela primeira vez há questão de algumas semanas. A 240 km de distância do país mais próximo -- por incrível que pareça a Nicarágua, e não a Colômbia -- Providência tem só uma cidade de verdade, uma população de cerca de cinco mil habitantes e um sistema de trânsito que depende de um pequeno exército de Leonardos, homens (e várias mulheres também) que circulam pela ilha pegando passageiros quando e como podem.

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Naquela noite de abril em que nos encontrávamos atarracados na garupa da moto de Leonardo, Tim e eu estávamos a caminho de uma rinha de galos; nosso motorista, suando em bicas pela camisa branca, estava indo para a igreja. Tínhamos despertado naquela manhã em nossa casa temporária, o Coyote -- barco de dois mastros e duas cabines de fibra de vidro que meu pai comprou há vinte anos -- e passado o dia em busca de praias desertas e ilhotas minúsculas, que exploramos de caiaque, bote inflável e nadadeiras.

Aventura

Foi uma viagem de "apertamento" geral: três adultos comprimidos uns aos outros sobre uma moto pequena; dois casais convivendo em um espaço pouco maior do que o de uma picape; Tim e eu dividindo o único caiaque verde limão que a embarcação tinha no deque. Do Coyote, remamos o trecho sudoeste de Santa Catalina, uma ilha tão pequena que na verdade era mais um apêndice de Providencia, ligada a ela por um passadiço de madeira longo e em cores vivas sobre um canal raso. Passamos sob a Virgem Maria, que divide a posição privilegiada no topo de uma colina com os canhões da época dos piratas de um forte do século XVII, construído pelos piratas para se defender; levamos o caiaque para terra firme e depois de nadarmos em uma praia rochosa e lotada de algas, caminhamos até quase chegarmos a Morgan's Head, a famosa formação rochosa à entrada do Porto de Catalina.

Naquela tarde pegamos o bote para explorar outra ilha periférica, Crab Cay, do tamanho de um pires nas águas protegidas da barreira de corais da Laguna McBean. Cortada por várias estradas de terra, possui uma verdadeira floresta de mangueiras, coqueiros e um arbusto que produz uma fruta no formato de pera conhecida localmente como "maçã dos sete anos". Cumprimentamos um grupo de jovens colombianos que bebiam cerveja à sombra do telhado da doca e subimos para o ponto mais alto da ilha. Lá, acima das rochas, apreciamos a vista do mar com seus muitos tons de azul e verde.

Foi um dia gratificante, embora cansativo --, mas ao saber do grande evento semanal que seria realizado na rinha Gallera Pata Suave naquela noite, fiquei toda animada. Não queria perder por nada nesse mundo. Assim, à noitinha, depois de um jantar leve, Tim e eu apontamos o bote para a praia. Nas águas calmas da baía eu acelerei e chegamos rapidinho a Santa Isabel, a cidade de Providencia. Perto dali, banhadas pela luz alaranjada do pôr-do-sol, havia uma série de sobrados de madeira com sacadas, todos pintados em tons vivos de azul, verde e amarelo.

Acima da água, o vilarejo se espalhava sobre uma topografia dramática, montanhosa e amarelada por causa da seca. Ao contrário da ilha-irmã logo ali ao lado, San Andrés, que tem todo o jeitão de um duty-free gigantesco (o que é mesmo), Providencia não possui hotéis imensos nem camelôs oferecendo quinquilharias "made in China". Depois de passar uma única noite na ilha vizinha, saí de lá o mais rápido que pude, sem arrependimento.

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Inúmeras vezes durante a semana que passamos em Providencia ouvimos dos moradores a história de San Andrés -- que, é claro, vai ganhando força cada vez que é recontada. Há 50 anos, lamentam os pescadores aposentados, o radialista, o rasta dono do bar e o taxista, elas eram iguaizinhas; as mesmas casinhas simples com telhado de ferro corrugado, onde moravam também os raizal -- descendentes dos escravos africanos e dos puritanos britânicos que os levaram para as ilhas, em meados de 1600, para colher algodão -- além de colonizadores holandeses, piratas franceses e conquistadores espanhóis, que disputaram a região nos tempos em que era colônia.

Acontece que os "colombianos", nome que os raizal deram a todos aqueles que eram do continente e falavam espanhol, chegaram em maior número (hoje eles representam mais de 60 por cento da população da ilha grande, que é de 55 mil habitantes) e os nativos acabaram se tornando minoria, se isolando em alguns pequenos enclaves no torrão de terra de 65 km² que oferece aos turistas internos férias na praia com direito a duty free para quem quiser comprar perfume e bebidas a preços menores.

Vida no mar

Em Old Providence, a revolta pela perda de áreas de pesca, as tradições e a língua raizal estava em ponto de ebulição após a decisão do Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, de dar um terço do território marítimo do arquipélago à Nicarágua. A sentença, que saiu depois de um longo tempo de brigas, arrasou os ilhéus, para quem a pesca é não só fonte de renda como estilo de vida. Como Luz Livingston, ex-radialista que virou fazendeira, me disse: "Nascemos no mar, vivemos do mar; como vamos viver sem ele?"

Em 2005, a importância ecológica e cultural do arquipélago foi reconhecida pela UNESCO, quando 65 mil km² de seu território ganharam novo nome, Área Marinha Protegida Seaflower. Por toda a ilha, essa filosofia preservacionista é vista em murais imensos e coloridos, bancos de concreto enfeitados no formato de criaturas marinhas e paradas de ônibus que lembram corais lotados de peixes tropicais.

Durante nossa visita, os fortes ventos nos forçaram a ignorar a barreira de coral do arquipélago -- uma das maiores do Caribe -- para ficarmos mais perto da praia, praticando snorkel entre os recifes menos dramáticos da região. Eu subia à superfície e ficava hipnotizada com a esfera cor de mostarda que se elevava do leito, a três metros da superfície, e que lembrava muito as lâmpadas de lava tão populares nos anos 70.

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Quando o sol saiu de trás de uma nuvem, ela se revelou como um coral que mais parecia um girassol, com padrões tão misteriosos quando as Linhas de Nasca, no Peru. Uma tarde, quase em transe com as cores mutantes e as formas estranhas, senti um cutucão no braço. Era o Tim que, impossibilitado de falar por causa do snorkel, queria chamar a minha atenção -- e apontou para um ponto distante onde, do meio da escuridão, saiu o que parecia uma criatura alada de graça ímpar: uma raia-pintada que tinha uma cara que parecia de cachorro.

Vida mansa

Ao fim da viagem, meu pai, Robin, Tim e eu alugamos motocicletas. Já tínhamos dado a volta na ilha duas vezes -- a primeira de "mula" (uma versão mais rústica do carrinho de golfe que meu pai tinha alugado para nos buscar no aeroporto) e a segunda no "táxi" do Leonardo. Nosso grupo, queimado de sol, dirigia devagar, parando onde uma paisagem, uma loja ou uma cena nos chamava a atenção. No início da trilha para Almond Bay havia uma pérgula no formato de um polvo gigante, com os tentáculos virados para cima fazendo as vezes de bancos desconfortáveis. No caminho íngreme que levava à pequena praia, lajotas pintadas com frases do tipo: "O meio ambiente é o futuro, respeite-o" e "Dê um tempo... pense, sonhe, leia".

A essa altura, na antevéspera da partida, já tínhamos aprendido a não esperar nenhuma ação em Providencia. A ilha é o tipo do lugar em que o maior festival anual acontece em junho, quando os caranguejos negros emergem do solo como um bando de cigarras, seguindo seu caminho dos buracos nas encostas em direção ao mar, parando o trânsito e invadindo casas. (Longe de serem considerados uma praga, os crustáceos são protegidos por guardas armados e homenageados com música e até uma corrida de cavalos.) O jeito era passar as noites conversando na cabine do barco, com a brisa ocasional trazendo algum alívio para o calor.

Isso não significa que não tentamos encontrar algo interessante para fazer, mas a verdade é que nenhuma tentativa deu muito certo. No início da nossa estadia, meu pai, Tim e eu nos propusemos a ver um show de música ao vivo no Roland Roots Bar, no extremo sul da ilha, em Manzanillo Bay. De Santa Isabel, imploramos uma carona de um dos poucos táxis tradicionais da cidade e pegamos um motorista reclamão que tinha um peixe empalhado no vidro traseiro e uma pilha de latas de cerveja vazias no banco do carona.

Quinze minutos e US$20 depois fomos deixados em uma praia deserta onde uma bandeira rasta, enfeitada com a imagem de Bob Marley, nos deu boas-vindas. Era cedo, havia pouca gente. Três horas e quatro cervejas mais tarde, resolvemos nos sentar nos bancos de bambu embaixo das palmeiras com "Red Red Wine", do UB40, ao fundo, a fogueira fazendo fumaça e o dono da casa deitado na rede atrás do balcão. A banda de reggae que tínhamos ido ver não apareceu, embora um dos cinco integrantes estivesse ali, encostado no palco com a guitarra no peito e um cigarro de maconha nos lábios.

"Aconteceria a mesma coisa se você fosse a uma briga de galos e eles não aparecessem." Como sempre, meu pai prevendo o futuro.

Mais tarde, quando Leonardo, Tim e eu finalmente chegamos à rinha, encontramos tudo deserto e escuro. O galo pintado em uma parede azul empoeirada foi o único brigão que vimos aquela noite. Leonardo perguntou a um homem sentado do outro lado da rua o que tinha acontecido. "Os galos foram passar o fim de semana em San Andrés", respondeu ele.

ONDE FICAR

As acomodações em Providencia se resumem a pousadas modestas em casa de família, com um ou dois quartos disponíveis. Entre as mais charmosas está o Refugio de la Luna, administrada pela artista plástica Carmeni Correa (57-317-527-5362); 85 mil pesos colombianos ou US$45 com o dólar a 1.900 pesos colombianos. Café da manhã incluído.

Uma das poucas opções de hotéis tradicionais, o Hotel Deep Blue (Maracaibo Bay; 57-321-458-2099; hoteldeepblue.com) oferece restaurante/bar de frente para o mar, uma pequena piscina de cobertura e doze quartos com sacada. Diárias a partir de 345 mil pesos.

ONDE COMER

Comandado por uma canadense e seu marido nativo, o Café Studio (Southwest Bay; 57-8-514-9076) serve pratos locais como o Wellington's Recipe Conch em molho crioulo ou caranguejo à moda da ilha, desfiado e temperado com manjericão fresco (os dois são servidos com arroz com coco e chips de banana da terra; 23 mil pesos), massas e excelentes tortas caseiras.

Na praia de Southwest Bay, El Divino Niño (não tem endereço; o negócio é pedir informação) é um restaurante simples cuja especialidade é a travessa de frutos do mar (30 e 44 mil pesos). A porção para duas pessoas e ridiculamente grande e inclui uma lagosta, dois peixes inteiros e uma pilha de mexilhões, arroz e chips de banana.

Para tomar sorvete, saborear café estilo europeu e um ótimo vinho de tamarindo, pare no Frenchy's Place (ao norte de Southwest Bay, procure a fachada colorida com a placa "Arts & Crafts").

http://viagem.uol.com.br/album/guia/2014/07/01/caribe-colombiano-tem-mar-cristalino-e-vida-mansa.htm

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