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Tour na cidade de Budapeste expõe a vida na Hungria durante o socialismo

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL, de Budapeste

16/05/2016 17h50

Localizada no coração de Budapeste, a praça Liberdade (ou Szabadság tér, na língua local) abriga uma paisagem que poderia representar um dos antigos duelos da Guerra Fria.

De um lado, surge um obelisco que homenageia os soldados soviéticos que, durante a Segunda Guerra Mundial, morreram combatendo os nazistas em solo húngaro. Do outro, a dez metros de distância, está a embaixada dos Estados Unidos. 

"Este obelisco poderia ser o dedo médio dos russos apontado para a cara dos americanos", diz o guia Miki Kovacs, especialista em história socialista da Hungria. "Pena que eles perderam a briga". 

E não é brincadeira: a presença dos EUA e seus aliados são predominantes hoje em território húngaro, país que abraçou o capitalismo, faz parte da Otan e exibe uma estátua de Ronald Reagan no começo da praça Liberdade.

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Lênin é um dos destaques do parque Memento, em Budapeste Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Entretanto, resquícios da época em que a Hungria se denominava socialista (principalmente entre os anos 1940 e 1980) e esteve sob grande influência de Moscou ainda existem aos montes em Budapeste.

Kovacs é um dos guias que, semanalmente, leva turistas para conhecer estes lugares.

"A maioria dos húngaros sempre detestou a influência soviética em seu governo e em suas vidas", conta ele, enquanto conduz um grupo de 15 viajantes do obelisco da praça Liberdade até a estátua do político Imre Nagy, a 30 metros dali.  

Nagy foi um dos líderes da chamada Revolução de 1956, ano em que milhares de húngaros realizaram protestos contra a falta de liberdade e a presença de tropas soviéticas em seu país e, como consequência, foram reprimidos com tanques de guerra mobilizados pelo Kremlin. 

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Símbolo da Revolução de 1956, Imre Nagy tem sua estátua em destaque em Budapeste Imagem: Marcel Vincenti/UOL

A estátua de Nagy se encontra de costas para o monumento soviético e de frente para o gigantesco edifício neogótico do Parlamento húngaro, em uma espécie de contemplação ao símbolo máximo da democracia de seu país. E ela fica sobre uma ponte de bronze com um piso extremamente irregular e escorregadio.

Os turistas são encorajados a cruzá-la, em uma travessia que representa o árduo caminho entre a repressão e a liberdade (trajeto que, vale lembrar, custou a vida de Nagy, executado em 1958 por seu papel nas revoltas de 1956).

Comunismo goulash

A Revolução de 1956, porém, trouxe algumas mudanças. A partir dos anos 1960, para acalmar os ânimos incendiados na década anterior, o governo húngaro inseriu elementos de livre mercado na economia e abrandou a repressão sobre a liberdade de expressão dos húngaros. Essa nova maneira de fazer política ficou conhecida como "comunismo goulash", em referência à mais famosa das receitas culinárias da Hungria.

"A vida, porém, continuava como a de um país socialista. Na escola, todos tínhamos que saber de cor as repúblicas da União Soviética e sempre celebrávamos a tomada do poder na Rússia pelos bolcheviques em outubro de 1917", lembra o guia Miki Kovacs, que tem 36 anos e viveu a última década do Muro de Berlim do lado de lá da Cortina de Ferro. "Minha família morava em um apartamento que pertencia ao Estado e meu pai trabalhava em uma companhia estatal, como a maioria das pessoas". 

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No "tour comunista" em Budapeste, turistas cruzam com o outro lado da moeda: Reagan Imagem: Marcel Vincenti/UOL

O tour agora passa pela rua Hercegprimas, ao lado da antiga praça Stálin, onde é possível ver, colados um no outro, prédios monolíticos da época de governo comunista e edifícios de estilo art noveau dos tempos em que o Império Austro-Húngaro dava as cartas por aqui. 

"É interessante ver que muitos dos apartamentos da era socialista têm cozinhas minúsculas", observa Kovacs. "Existem teorias de que isso desmotivava as pessoas a convidarem seus amigos para virem jantar em suas casas, pois era quase impossível cozinhar para muita gente nesses cubículos. E isso favorecia o governo: menos gente reunida, menos gente falando de política".

E a repressão realmente existiu durante boa parte do século 20 na Hungria. O Museu House of Terror é um dos testemunhos disso: localizado relativamente perto da rua Hercegprimas, o local funciona em um prédio que foi usado como centro de tortura por nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e pelo temível serviço secreto húngaro ÁVH até os anos 1950.

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Edifícios da era socialista ainda fazem parte da paisagem de Budapeste Imagem: Marcel Vincenti/UOL

"Mas, até os anos 80, havia informantes tentando escutar o que as pessoas estavam conversando na rua. Se fosse algo contra o governo, eles podiam ser presos". Muitas igrejas (lembram da frase "a religião é o ópio do povo", popularizada por Karl Marx?) também foram fechadas na era socialista.  

Divergências de opiniões

Assim como muitas pessoas que a reportagem conheceu em Budapeste, o guia do tour, Miki Kovacs, é extremamente crítico à era socialista. Ele, entretanto, reconhece que havia pontos positivos. "O metrô tinha um preço irrisório e hoje ele é caríssimo", diz ele, citando o preço de 350 forints, quase R$ 4,50, para apenas uma passagem. "E os apartamentos eram ruins, mas quase todo mundo tinha um teto. Hoje vemos muito mais moradores de rua por aí".

Porém, há também nativos com verdadeira saudade daquela era.

Garçom em um café do centro de Budapeste, János Sipos, 56 anos, diz que "a vida era mais simples e mais fácil" durante a República Popular da Hungria. "Eu ia ao mercado e havia apenas uma ou duas marcas de leite para escolher. Mas todos podiam comprar o leite. A saúde e a educação eram melhores do que hoje. Havia mais dignidade para a gente".

E Sipos não parece ser uma voz solitária: o instituto Pew Research Center fez uma pesquisa na Hungria em 2010 na qual 72% dos entrevistados disseram que os húngaros tinham uma situação econômica melhor durante o socialismo.

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Marx e Engels também marcam presença no parque Memento Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Para os nostálgicos, um passeio imperdível na capital húngara (e que às vezes é incluído em alguns passeios guiados) é o parque Memento, no sul da cidade e que abriga, ao ar livre, 42 estátuas e obras de arte da época socialista do Leste Europeu. São, em sua maioria, monumentos que decoravam grandes cidades da Hungria e que foram retirados das vias públicas após a queda do Muro de Berlim.

Há lá estátuas de Lênin, Marx, Engels e de soldados soviéticos (uma delas têm seis metros de altura). Há apenas as réplicas das botas de uma antiga estátua do hoje execrado Stálin. O local também abriga um telefone onde o público pode ouvir discursos de líderes como Mao Tsé-Tung, Fidel Castro e Che Guevara. 

Mais informações sobre os tours (que são gratuitos, mas pedem gorjeta): www.freebudapesttours.hu e www.triptobudapest.hu/v2/tours/communist-tour/

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