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Roteiros culturais

Refugiados em montanha, samaritanos resistem em região tensa da Cisjordânia

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL Viagem, de Kiryat Luza (Cisjordânia)

11/02/2016 19h49

A história do samaritano que, ao passar pela rota entre Jerusalém e Jericó, se depara com um homem espancado por assaltantes e, sem pestanejar, ajuda a aliviar suas feridas é um dos momentos mais famosos do Novo Testamento.

A parábola, que teria sido contada por Jesus e aparece em Lucas 10:30-37, constitui um dos exemplos máximos de compaixão na mensagem cristã e criou a imagem mítica do Bom Samaritano.

Quase dois mil anos após a narração deste episódio, uma pequena comunidade de samaritanos resiste em uma montanha da Cisjordânia, a algumas de dezenas de quilômetros de Jerusalém e Jericó. E assim como nos tempos bíblicos, se vê rodeada por uma região tensa, agora não infestada de ladrões de beira de estrada, mas disputada, de maneira sangrenta, por judeus e palestinos.

Monte Gerizim é o nome do seu lar. Segundo os samaritanos, foi aqui que Abraão, sob o desafio de Deus, quase sacrificou seu filho Isaac. E para eles, é esta montanha (e não monte Moriá, em Jerusalém) o local designado para a construção do Templo Sagrado. 

Edward Kaprov/Creative Commons
O monte Gerizim é o centro da vida espiritual dos samaritanos Imagem: Edward Kaprov/Creative Commons

“Hoje, há apenas 785 samaritanos no mundo, 385 deles vivendo aqui”, conta o sacerdote Husney Cohen, um dos líderes da comunidade do monte Gerizim. “Em templos bíblicos, éramos milhões de pessoas. Mas, ao longo da história, fomos mortos pelos assírios, babilônios, árabes e outros conquistadores que passaram por esta área. Há 100 anos, sobravam pouco mais de 130 samaritanos no planeta”.

Tal declínio também é atribuído à conversão forçada de muitos samaritanos ao islã, nas épocas em que governos muçulmanos controlaram o que hoje é a Cisjordânia. 

Encruzilhadas

Estar no meio de uma encruzilhada de civilizações proporciona um perfil complexo aos habitantes de Kiryat Luza, a vila que abriga os samaritanos no monte Gerizim. Eles conversam entre si em árabe, alguns exibem feições europeias, mas todos mantêm suas práticas religiosas que, em muitos momentos, dialoga com o judaísmo. Muitos deles têm, ao mesmo tempo, documentos israelenses e palestinos.

“A origem dos samaritanos remonta aos seguidores de Moisés no Êxodo do Egito”, afirma Cohen. “Eu, por exemplo, sou descendente direto do sacerdote levita Eleazar, filho de Aarão, irmão de Moisés, o que me dá o direito de ser uma autoridade religiosa aqui”. 

Arte/UOL
O Monte Gerizim fica na Cisjordânia, ao norte da cidade de Jerusalém Imagem: Arte/UOL

O samaritanos observam o sabá, rezam em sinagogas em hebraico antigo, esperam pela chegada do Messias e sua população masculina é circuncidada. Seus livros sagrados abrigam diversos pontos em comum com a Torá judaica, mas se desviam da fé dos judeus ao afirmar que o monte Gerizim, e não Jerusalém, é o local designado para receber o Templo Sagrado. 

O sacerdote Cohen também considera Jesus, o homem que deu aos samaritanos fama mundial, uma "pessoa que passou importantes mensagens ao mundo". Cristo, entretanto, não é uma figura sagrada para a sua comunidade.

Seu calendário não está em 2016, mas em 3654, contando a partir do momento em que, segundo os samaritanos, os israelitas teriam entrado em Canaã, após o êxodo do Egito. Suas datas mais importantes incluem o Yom Kippur e o Pesach, e são sempre celebradas no topo do monte Gerizim, onde, no século 5 a.C., foi erguido um templo – e que teria sido destruído séculos depois pelos macabeus, que o consideravam herético. 

Os sacerdotes samaritanos, porém, não se vestem como as autoridades religiosas judaicas: Cohen circula por Kiryat Luza envergando uma túnica cinza e um adereço vermelho na cabeça. Em eventos religiosos, eles usam túnicas brancas, mas, no dia a dia, a maioria dos habitantes de Kiryat Luza envergam roupas ocidentais. Poucos homens têm barbas longas como os muçulmanos e judeus ortodoxos. As mulheres, por sua vez, não precisam cobrir o cabelo na rua.

Marcel Vincenti/UOL
Localizada na Cisjordânia, a vila de Kiryat Luza abriga 385 samaritanos Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Hoje, uma das questões que mais mobiliza os habitantes do monte Gerizim é a preocupação com sua pequena população. Os samaritanos sempre foram avessos a se casar com pessoas de fora de sua comunidade. Por isso, atualmente, muitos deles dividem laços sanguíneos. Casamentos entre primos e o nascimento de crianças com problemas congênitos eram fatos comuns entre eles.

Uma das soluções encontradas foi buscar esposas estrangeiras, usando sites de relacionamento na internet: “o número de mulheres em Kiryat Luza está escasso, por isso, recentemente, realizamos matrimônios com mulheres russas e ucranianas cristãs. Mas todas elas tiveram que se converter e seguir nossas tradições, como não tocar em ninguém durante o período menstrual”, conta o sacerdote, ressaltando ainda que o inverso não pode ocorrer: mulheres samaritanas são proibidas de casar com homens de fora da comunidade.

Terra disputada

O estabelecimento dos samaritanos em Kyriat Luza, porém, é recente. Até os anos 1980, eles viviam na cidade palestina de Nablus, localizada ao pé da montanha. A eclosão, em 1987, da Primeira Intifada – o levante palestino contra Israel que gerou conflitos mortais em toda a Cisjordândia – fez com que a comunidade buscasse refúgio no topo do monte Gerizim.

“Esta é a primeira vez em nossa história de milhares de anos que vivemos aqui”, diz o sacerdote Cohen. “Tememos pela nossa segurança quando explodiu a Primeira Intifada. Antes, só subíamos o monte para realizar nossas celebrações religiosas”.

A tensão, porém, segue viva lá embaixo. Do monte Gerizim se vê, de um lado, o amontoado urbano de Nablus e, do outro, assentamentos habitados por judeus ultraortodoxos, que justificam sua presença dizendo que esta área faz parte da terra de seus ancestrais. Classificadas como ilegais pelas Nações Unidas, por estarem fora das fronteiras reconhecidas de Israel, tais colônias são protegidas por soldados israelenses armados até os dentes.

Marcel Vincenti/UOL
Os samaritanos fugiram da cidade palestina de Nablus (na foto) durante a 1ª Intifada Imagem: Marcel Vincenti/UOL

A grande proximidade entre colonos judeus e a população palestina é proporcional ao tamanho do ódio que muitos deles nutrem um pelo outro. Foi nos arredores de Nablus que, em julho de 2015, um grupo de colonos queimou um bebê vivo ao atear fogo em uma casa habitada por uma família palestina na vila de Duma. Palestinos, por sua vez, têm esfaqueado judeus (incluindo mulheres grávidas) que vivem na Cisjordânia.   

Cohen afirma que, sob esta turbulência sem fim, os samaritanos preferem adotar uma posição neutra. “Nós não nos aliamos nem com judeus nem com palestinos. Por isso, somos respeitados pelos dois lados”, afirma ele.

Segundo Cohen, o monte Gerizim é ocasionalmente visitado tanto por palestinos como por judeus, curiosos em conhecer a história da comunidade. “Aqui sempre falamos para eles: a guerra não é boa para nenhum dos dois lados. Precisamos todos caminhar em paz. É importante que haja dois países, os palestinos com sua capital em Jerusalém oriental e os israelenses com capital em Jerusalém ocidental. Rezamos todos os dias para que haja uma trégua entre esses dois povos”.

Eficaz ou não, utópica ou não, a mensagem mostra que, talvez, o bom samaritano ainda tenha um papel a desempenhar no mundo.

SERVIÇO
Uma viagem pela tensa Cisjordânia nunca é livre de riscos, mas Kiryat Luza é aberta a visitas turísticas. O local oferece um interessante museu sobre a história dos samaritanos e um centro cultural, administrado pelo sacerdote Husney Cohen, com uma extensa biblioteca sobre essa comunidade bíblica. 

Nem sempre a vila se encontra muito movimentada. Muitos dos habitantes passam o dia fora de Kiryat Luza, trabalhando em Nablus e ou se dedicando a fazer negócios em Israel, onde a perspectiva de fazer mais dinheiro é maior.

Sexta-feira é um dia interessante para visitar o lugar, quando os samaritanos se celebram o começo do sabá e circulam pelas ruas em trajes típicos. O Pesach, que relembra o êxodo do Egito, também gera intensas celebrações no monte Gerizim.

Uma das maneiras mais práticas de chegar até lá é pegando um ônibus de Jerusalém até Ramallah e, depois, tomar outro transporte público até Nablus. Do centro de Nablus, táxis levam turistas até Kiryat Luza. Todo este percurso dura cerca de quatro horas.

Há uma outra comunidade de samaritanos vivendo na cidade israelense de Holon, ao lado de Tel Aviv, em um ambiente um pouco menos volátil.

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