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Roteiros culturais

Bronzeados e intelectuais: em Miami, turistas vão da praia a museus fascinantes

Elaine Glusac

New York Times Syndicate

25/01/2016 19h39

Em uma noite agradável, que atraiu revoadas de pássaros para o sul da Flórida, deixei a multidão de chinelo que lotava o Lincoln Road Mall, em Miami Beach, e segui um quarteirão ao norte, para o New World Center. A casa sinfônica de vidro e aço, projetada por Frank Gehry, foi inaugurada em 2011 e transformou South Beach em um destino cultural. Um grupo de espectadores mais velhos formava uma névoa de cabelos brancos na frente da bilheteria, onde fiquei sabendo que o programa da noite, um recital de sopros de um estudante de música com a Sinfônica New World, estava lotado. É verdade, o evento era gratuito, mas era preciso fazer reserva e Dominic Rotella, o músico, aparentemente era o evento mais badalado da cidade.

"Entre na fila. Você é o número sete", disse um dos senhores, indicando a fila informal de azarados ao seu redor.

Se um concerto de um estudante está lotado, isso significa que Miami anseia por cultura. Agora, graças a uma economia robusta e ao legado da Art Basel – o evento de arte imensamente popular criado em 2002 – Miami acumula uma variedade imensa de atrações culturais. Do Museu de Arte Pérez Miami até o próspero distrito muralista de Wynwood, a cidade desenvolveu um complemento cultural para o famoso encanto de suas praias. E há mais no futuro: o Faena Forum, um espaço de exposição de quase cinco mil metros quadrados, projetado por Rem Koolhaas, inaugura em abril, e o Museu de Arte Bass, atualmente fechado para reformas, terá 50% mais espaço, com quatro novas galerias, quando reabrir no segundo semestre deste ano. Juntos, os recém-chegados oferecem muita cultura além da temporada do Art Basel, caso o flerte com o câncer de pele não seja sua ideia de férias.

Muito além da praia

Em outras visitas a Miami, fiz o que pude para achar algo mais profundo que um baldinho de areia, inclusive participar do passeio arquitetônico a South Beach liderado pela Liga de Preservação do Design de Miami, e ir ao Museu Wolfsonian para examinar sua coleção de arte decorativa – atividades que, feitas com calma, podem durar um dia inteiro. Quando uma amiga, que vive em um arranha-céu reluzente em Brickell, no centro da cidade, jurou que eu nunca perderia a praia durante um final de semana no inverno passado no que ela chamou de "nova Miami", tive que aceitar o desafio. Mesmo por que a temperatura era de -23º C na minha cidade.

Moris Moren­o/The New York Times
A casa sinfônica de South Beach foi projetada por Frank Gehry Imagem: Moris Moren­o/The New York Times

Além do prazer de descongelar durante os 15 minutos de carro do aeroporto até o Museu de Arte Pérez Miami, havia as boas-vindas do Pérez em si, que é cercado por uma varanda generosa que convida os recém-chegados e outros desocupados a aproveitar as redes e a vista para o canal Government Cut entre as visitas à galeria.

Antigo Museu de Arte de Miami, com mais de 18 mil metros quadrados, ele passou por uma reforma de US$ 131 milhões e foi inaugurado em 2013, em um belo prédio projetado pela firma de arquitetura suíça Herzog & de Meuron que parece convidar os visitantes a aproveitar sua área externa, além da interna. Ele compartilha a extensão de mais de 120 mil metros quadrados, do antes decadente Museum Park, com o Museu de Ciências Patricia e Phillip Frost, atualmente em construção e que deverá abrir em meados do ano que vem.

Ao me juntar a um tour arquitetônico do Pérez, que recentemente obteve a certificação LEED (para construções sustentáveis), fiquei sabendo que ele foi inspirado no Stiltsville, um grupo de casas na Baía de Biscayne construído sobre a água. Ele é cercado de painéis de concreto cinzelados e janelas que vão do chão ao teto. Lá dentro, as janelas parcialmente sombreadas inundam as galerias do segundo andar de luz e dão vista para as floreiras gigantes penduradas na varanda.

"Este é um espaço poroso. Você tem que entrar e sair do prédio. É divertido. Dá vontade de correr pela varanda", disse a guia, Rosie Gordon-Wallace, que também dirige uma galeria on-line dedicada a artistas caribenhos e latinos.

Moris Moren­o/The New York Times
Museu de Arte Pérez, uma das atrações culturais mais interessantes da Flórida Imagem: Moris Moren­o/The New York Times

Projetado para refletir a face imigrante de Miami, o Pérez foca na arte moderna e contemporânea de culturas que beiram o Atlântico, incluindo América Latina, África e Europa. Lá, um grupo de crianças em idade escolar estava sentado no chão em frente ao "Western Sun", um nascer do sol cor de laranja feito com tubos de luz pelo artista Mark Handforth. Alguns artistas individuais como Gary Simmons, cujo mural comissionado "Frozen in Time" preenchia uma parede inteira, têm suas próprias galerias. Nas salas maiores, gostei de travar conhecimento com o artista de colagens William Cordova através de 100 pequenas obras montadas juntas, em homenagem ao estilo de edição nervosa do falecido cineasta afro-cubano Nicolás Guillén Landrián.

Wynwood

Como o Pérez e seus ambientes abertos provaram, o clima não é importante somente para as praias de Miami; ele ajuda a moldar o cenário da arte. No bairro de Wynwood, ao norte do centro da cidade, o clima sensual e a paleta tropical de Miami se misturam em Wynwood Walls, uma exposição de arte de rua em constante mudança, espalhada por mais de sete mil metros quadrados de paredes exteriores, feita por mais de 40 artistas. Antes de sua morte, o desenvolvedor Tony Goldman, a quem se credita a revitalização de South Beach, bem como a do SoHo, em Nova York, começou o projeto do mural, em 2009, convidando artistas de rua a usarem os armazéns industriais da área como telas.

"Seu objetivo para Wynwood era torná-lo um centro de arte. É um museu das ruas. Não é intimidante; a escala é encorajadora", disse Jessica Goldman Srebnick, sua filha e diretora executiva da Goldman Properties, durante um chá no Wynwood Kitchen & Bar, coberto de murais.

Wynwood Walls fica na Second Ave. e em frente há um mural de Shepard Fairey retratando Goldman, de braços abertos, receptivo, junto a retratos de figuras inspiradoras, desde o Dalai Lama até Jimi Hendrix. Eles estão ao lado de personagens alegres e amorfos de desenhos animados feitos por Kenny Scharf em uma parede próxima. Os artistas de Wynwood, com obras nas paredes e nas portas de garagens em um terreno adjacente, trabalham com uma surpreendente gama de estilos, desde os estênceis em camadas de Aiko até o realismo de uma paisagem urbana de Logan Hicks e os retratos pictóricos com pinceladas fantásticas de Vanessa Alice Bensimon, mais conhecida por Miss Van.

Moris Moren­o/The New York Times
A região de Miami é hoje uma das mecas do grafite nos Estados Unidos Imagem: Moris Moren­o/The New York Times

Desde então, a Goldman Properties convida artistas para decorar mais de 30 edifícios concentrados em cerca de 20 quarteirões vibrantes. Eu os visitei com Ryan Ferrell, conhecido como Ryan the Wheelbarrow, artista local e guia de turismo que apontou o grafite que ainda marca a vizinhança, mas que não desfigura os murais. "Wynwood é uma boa novidade em Miami, mas para o mundo do grafite é uma verdadeira meca", ele disse.

Como ferramentas de desenvolvimento, os murais transformaram o bairro em destino, atraindo principalmente lojas, restaurantes e microcervejarias locais. A mistura de entretenimento e cultura uniu a festa às pinturas, especialmente nas caminhadas noturnas aos sábados, feitas mensalmente e que atraem caminhões de comida, músicos e milhares de ratos de galerias.

South Beach

Em South Beach, o New World Center oferece seu próprio espetáculo noturno através de um telão que mostra filmes ao ar livre e concertos em transmissões simultâneas. Ele também programa concertos sinfônicos no fim da noite com iluminação de clube noturno e DJs. Concertos curtos e às vezes gratuitos visam uma plateia mais jovem que pode torcer o nariz para uma longa apresentação de música clássica, deixando tempo livre para dar um pulo na vizinha Bodega Taqueria y Tequila, uma barraca de tacos com um clube noturno escondido por trás de um falso banheiro químico.

Desde a cadeira na sala de concertos principal até o átrio envidraçado e as salas de prática, o centro parece projetado para rejuvenescer as convenções clássicas, começando com seu principal inquilino: a Sinfônica New World, liderada pelo maestro Michael Tilson Thomas como uma escola virtual para graduados em música de todo o país. A sede, o New World Center, oferece uma programação variada além da temporada sinfônica. Em uma visita posterior ao O, o Festival de Poesia de Miami – o evento anual que expressa a profundidade literária da cidade – assisti a um quinteto francês de cantores barrocos com socialites elegantes e ao filme de Bill Murray, "Um Santo Vizinho", com a plateia acomodada em cadeiras dobráveis no extenso gramado.

Moris Moren­o/The New York Times
O Museu de Arte Pérez exibe instalações de diversos artistas latinos Imagem: Moris Moren­o/The New York Times
 Quando consegui um ingresso para o recital de inverno, juntei-me a uma multidão absorta ouvindo de tudo, desde Bach até "Interstellar Call", de "From the Canyons to the Stars", de Olivier Messiaen, junto com um slide show celestial. Sentada ao meu lado no concerto, Hilary Glen, então uma estudante de violoncelo da sinfônica e recém-chegada à cidade, confessou seu ceticismo inicial com a hospitalidade cultural da cidade.

"Não tinha certeza se iria gostar de Miami quando cheguei aqui, mas estou achando tudo muito interessante e nunca vou à praia", ela disse.

Se você for

O Museu de Arte Pérez Miami (1103 Biscayne Blvd.; pamm.org) cobra entrada de US$16, que inclui passeios frequentes de uma hora de duração mostrando a arte e a arquitetura do museu.

Wynwood Walls (2520 NW Second Ave.; thewynwoodwalls.com) são o centro do bairro Wynwood. A visita é gratuita, mas o horário varia; nas sextas e nos sábados, por exemplo, vai das 11h00 até a meia-noite.

A Wynwood Art Walks acontece no segundo sábado de cada mês, com visitas guiadas a partir de cerca de US$20. Informações: wynwoodartwalk.com.

O New World Center (500 17th St; nws.edu) hospeda a Sinfônica New World e oferece concertos de outubro a abril, que muitas vezes também são transmitidos pelo telão ao ar livre.

Além de patrocinar um escritor residente, o Betsy Hotel (1440 Ocean Drive; thebetsyhotel.com) oferece leitura de poesia diária e saraus literários regulares. Diárias a partir de US$265.

O O, Festival de Poesia de Miami (omiami.org) acontece durante todo o mês de abril.

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