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"Bar secreto" em Buenos Aires tem esquema mirabolante para entrar; conheça

Nell Mcshane Wulfhart

New York Times Syndicate

13/11/2015 16h44

A política pode até ter jeitão novelesco e a inflação, ser um exagero, mas a verdade é que a capital argentina não perde seu charme. O surgimento incessante de restaurantes e espaços de arte é prova da criatividade infinita dos portenhos, como são chamados seus moradores. Seus cafés centenários e ruas arborizadas, belíssimas, sempre foram um atrativo, mas os turistas agora podem contar também com um cenário gastronômico sofisticado e bares bem humorados e descolados. Buenos Aires adora se reinventar – e deixa isso bem claro.

SEXTA-FEIRA

15h30 - Arte latino-americana
Não é exagero afirmar que o Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba) é um dos melhores do continente. Moderno e claro (ingresso: 60 pesos, ou US$6,55 com o dólar a 9 pesos), o prédio é parada obrigatória graças à vibração de sua coleção permanente, com as obras dispostas cronologicamente e relacionadas ao movimento a que pertencem. Destaque para os trabalhos do argentino Antonio Berni e os de Frida Kahlo. As mostras temporárias são quase sempre provocadoras (e se isso lhe der fome, saiba que os croissants do café são excelentes).

18h- Perfumes em Palermo
A Casa Cavia é um complexo – com restaurante, café, bar, jardim, livraria e florista – situado em um sobrado de 1927 reformado para se transformar no espaço interno/externo espetacular que estabelece a nova estética de Buenos Aires: moderna, com um toque retrô. Entre para dar uma espiada no interior grandioso – pé-direito alto, batentes em arco, mobília de inspiração art déco – e depois atravesse o jardim rumo à perfumaria, onde mais de cem fragrâncias estão em exibição, do maracujá ao clássico "Biblioteca de Babel", homenagem a Jorge Luis Borges e reconhecimento à editora no segundo andar.

19h30 - Café e vinho
Os argentinos dormem tarde, por isso é melhor reforçar o nível de cafeína com uma parada no LAB Tostadores de Cafe, um dos melhores cafés da nova leva que toma conta de Buenos Aires, com direito a torrefação própria e decoração industrial-chic. A seguir, suba quatro quadras para chegar à Calle Gorriti, a popular rua de compras; ali fica o Ser y Tiempo, "wine bar" de iluminação discreta inaugurado no ano passado. A degustação cega de três vinhos nacionais excelentes (200 pesos) pode ser feita independentemente ou durante o jantar, e o ajudará a saber a diferença entre um torrontés e um chardonnay. É também uma loja de bebidas onde vale a pena comprar as safras menos cobiçadas. Se quiser algo mais casual, vá ao Trova, que oferece degustações temáticas ("Malbecs argentinos", "Verão"), cada uma variando entre 65-110 pesos.

22h30 - Argentina moderna
Siga para Colegiales, bairro badalado e discreto, para jantar no Astor Manduque Porteño (refeição para duas pessoas, com vinho, por 1.300 pesos), cujo nome significa, mais ou menos, "onde come o pessoal local". O chef Antonio Soriano é a grande estrela da nova gastronomia argentina e seu cardápio, que muda constantemente, está lotado de pratos criativos, incluindo o tempurá de chouriço e a salada de língua. Enxuto, conta com apenas oito opções, das quais pode se optar por três, cinco ou todas, com o tamanho das porções inversamente proporcional ao número escolhido. Vale a pena fazer a harmonização de vinhos, que não prejudica em nada a qualidade ou quantidade da refeição.

SÁBADO

10h00 - Café no Cao
Muitos dos bares/cafés mais famosos de Buenos Aires, os chamados "notables", com seus garçons de carreira e filas imensas por uma mesa, são lotados de turistas. Vá até San Cristóbal, bairro residencial onde fica uma verdadeira instituição desde 1915, o Bar de Cao. Ali você vai encontrar cristaleiras cheias de garrafas, pernas de presunto penduradas do teto e detalhes originais de madeira, além de pouquíssimos turistas. Sente-se ao lado de uma das janelas ensolaradas e peça um café con leche (23 pesos) e uma medialuna (croissant, 7 pesos). Mas guarde espaço para o almoço.

12h30 - Almoço sem pressa
Para abrir o apetite, dê uma volta pela Avenida Independencia, pontilhada de lojas e cafés, movimentada pelo agito diário que toma conta da capital. Pare no Aramburu Bis, segundo restaurante, mais informal, do chef Gonzalo Aramburu. A versão mais sofisticada, o Aramburu, fica na esquina, mas a versão Bis, com estética de armazém interiorano, é um dos melhores da cidade (menu degustação para dois, com vinho, sai por 1.100 pesos). Cada prato é executado à perfeição, como o steak tartare enfeitado por uma gema de ovo de codorna, sorvete de mostarda e uma cestinha de batatas fritas minúsculas de entrada. A carta de vinhos inclui opções de vinícolas novas de Mendoza – e, se incluí-la na refeição, prepare-se para uma experiência de pelo menos três horas.

16h30 - Tango vespertino
O tango é menos popular que o material turístico argentino nos faz acreditar, mas ninguém contou isso para o pessoal da terceira idade. Confira os dançarinos no La Milonga de los Consagrados (55 pesos para entrar, consumação mínima de uma bebida), onde os idosos lotam o salão se movimentando ao som da música que, embora seja programada por computador, dá a impressão de sair daqueles alto-falantes antigos. Ao longo de uma das paredes do salão, que exala uma grandiosidade antiga, os homens se sentam às mesas, tentando atrair a atenção de possíveis parceiras do lado de lá. Fotos não são vistas com bons olhos (afinal essa é uma atividade local e não um evento turístico), então o negócio é pedir um copo de champanhe (26 pesos), relaxar e aproveitar o show.

20h - Vida nova para a usina
Antiga hidrelétrica, a Usina del Arte foi reaberta como o espaço artístico mais impressionante da cidade em 2012, no bairro portuário pós-industrial de La Boca, para abrigar exposições e apresentações de música ao vivo em seus dois belos auditórios. Os convidados vão desde a filarmônica local às big bands, passando pelos combinados de música & poesia. Dê uma espiada na programação no site usinadelarte.org antes de ir. Vale também a visita durante o dia (gratuita, 45 minutos) para admirar o exterior em estilo renascentista florentino e a beleza do interior reformado.

22h - Filés e miúdos
Ir a uma parrillada (churrascaria) é praticamente obrigatório, mas evite os salões maiores, lotados de turistas, com cardápios gigantescos de casas antigas como Don Julio's ou Parrilla Peña; em vez disso, prefira a La Carniceria. Inaugurada em 2014, a casa, moderna, tem apenas 24 lugares e geralmente oferece apenas dois filés (enormes) no cardápio, ao lado dos acompanhamentos tradicionais adaptados para o século 21 (o jantar para dois sai por volta de 750 pesos). A carne sai da fazenda do próprio dono e é defumada ali mesmo. O choriço também é artesanal. Experimente os miúdos, caramelados com mel e acompanhados de milho.

Meia-noite - Caia na festa

A balada em Buenos Aires vai até as seis da manhã – tempo demais para ficar em um bar só. Passe por vários para conferir o melhor da cultura do speakeasy nos "bares secretos". Comece pelo Frank's, mas sem se esquecer de pegar a senha na página do estabelecimento no Facebook com antecedência (a dica está no post do dia, e o primeiro chute geralmente é o certo). Dê a senha para o segurança, que vai levá-lo a uma cabine telefônica; disque o número que ele lhe der; uma porta se abrirá e você se verá em um bar comprido, cheio de gente bebericando os melhores coquetéis da cidade (que não saem por menos de 100 pesos).

Peça a um dos bartenders elegantes um Bison TT (vodca, chá verde, xarope de gengibre) e dê uma espiada no pessoal à sua volta sentado em uma das poltronas de veludo vermelho antes de seguir para o Victoria Brown. Passe por dentro do café da travessa e abra a porta na parede de tijolos dos fundos para encontrar lá dentro um paraíso steampunk e experimentar variedades como o Desde Cuba Con Amor (120 pesos), combinação de rum envelhecido, suco de limão e bitter fumegante, literalmente. Para completar, experimente a versão moderna do amor antigo da Argentina pela bebida no speakeasy popular 878. Com iluminação suave, o salão principal está sempre lotado, mas se arriscar a abrir a porta da parede dos fundos, vai encontrar um ambiente um pouco mais tranquilo.

DOMINGO

Meio-dia - Do Peru, com amor
Depois de badalar até tarde, faça como o pessoal local e almoce sem pressa no domingo. Os portenhos estavam contando as horas para a inauguração do La Mar, que aconteceu em abril deste ano, graças à fama do chef, Gastón Acurio. A cevicheria peruana de Palermo Hollywood é elegante, com um pátio espaçoso. Vá de degustação para experimentar três versões do prato, todas saborosas, algumas servidas na própria marinada. Destaque para as boas "causas", porções de purê de batata que vão em cima de tudo, desde o creme de azeitonas ao salmão cru (O almoço para duas pessoas sai por volta de 600 pesos).

14h- O esporte dos reis
Já se sabe que, desde sempre, sete entre os oito melhores jogadores de pólo do mundo são argentinos, principalmente agora que o esporte vive uma redescoberta, pelo menos de acordo com o ultracharmoso Ezequiel Moreno da Polo Tour. Ele oferece lições de pólo de meio-dia (1.400 pesos, incluindo traslado) na espaçosa Estância La Martina, que pertence à dinastia mais famosa do esporte, a família Cambiaso. Ali você aprende a montar, rebater a bola com o taco e fazer os dois ao mesmo tempo em uma área verde a apenas 40 minutos do centro.

Acomodações

Glu Hotel. Apesar do nome ligeiramente estranho, o Glu (Godoy Cruz 1733; thegluhotel.com; diárias dos quartos duplos a partir de US$150) é bem charmoso: todos os quartos são suítes com cama king size confortável e os funcionários estão entre os mais simpáticos e solícitos da cidade.

Fierro Hotel. Com excelente localização, em Palermo Hollywood, o custo-benefício do Fierro (Soler 5862; fierrohotel.com; diárias dos quartos duplos a partir de US$129) é inegável, pois oferece mordomias de um hotel muito mais caro (cardápio de travesseiros, máquina Nespresso). As suítes, algumas com sacada, são espaçosas e o restaurante do térreo, o Uco, oferece um dos melhores brunches de Buenos Aires.

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