Viagem

Ecoturismo

Rota pelo rio São Francisco tem cânions e último esconderijo de Lampião

Camila Fróis e Fernando Angeoletto

Do UOL, em Delmiro Gouveia (AL)*

07/05/2015 22h31

O café da manhã é para levantar o ânimo qualquer viajante: tapioca, queijo coalho, macaxeira, canjica, mungunzá e um dos quitutes mais clássicos do sertão: cuscuz com bode. Para completar o menu, os próprios hóspedes podem colher frutas frescas nas árvores frondosas do quintal do senhor José Francisco. Espécie de mago da caatinga, o proprietário da Pousada Mirante do Talhado, aos 74 anos, faz ainda as vezes de arquiteto, pedreiro, beato, poeta, escalador e guia turístico.

É do alpendre dos seus chalés em Delmiro Gouveia (AL) que se tem a primeira visão ao longe dos cânions do Xingó se espichando rumo ao céu. Esculpidos há cerca de 60 milhões de anos, eles formam imponentes avenidas de arenito entre as quais é possível navegar pelas mansas águas do Velho Chico, desaceleradas pela barragem que o transformou em um grande lago nessas redondezas. “Ave Maria, é bonito demais” resume o proprietário sobre o rio que lhe empresta o nome e inspira boas aventuras.

É assim que começa a viagem pelos “Caminhos do São Francisco”, que pode ser feita em cerca de 4 ou 5 dias, com agência ou de forma independente. A rota turística nasce no meio do sertão alagoano, uma terra cheia de histórias de cangaceiros, vaqueiros e rendeiras que tecem a sobrevivência na soleira das janelas. Por ali, há receitas com plantas da caatinga para quase todo tipo de aperreio que se imagine.

Entre os pontos de parada possíveis estão os sítios arqueológicos de nove mil anos em Olho D’água do Casado, paisagens cenográficas como o “Porto de Borogodó” (da novela "Cordel Encantado", da TV Globo), a charmosa cidade de Piranhas (AL), por onde circulou a cabeça de Lampião, uma vila de bordadeiras que já hospedou Dom Pedro 1º e a histórica Penedo, primeiro povoado de Alagoas. É só depois de banhar todas essas atrações que, finalmente, o Rio São Francisco se entrega ao belíssimo mar de Piaçabuçu (AL), última estação do roteiro. 

Fernando Angeoletto/UOL
Trilha do Mirante do Talhado guarda paisagens deslumbrantes Imagem: Fernando Angeoletto/UOL

Para imergir na cultura sertaneja do caminho, o ideal é alugar um carro e seguir direto para o ponto de partida do roteiro em Delmiro Gouveia. Lá, operadoras de turismo conduzem trilhas que saem do próprio Mirante do Talhado e seguem por um trecho de caatinga coberto de areia, cactos de todos os tipos, arbustos espinhosos e árvores belíssimas como o cajueiro, o anjico e a imburana. 

Quando menos se espera, o cânion se descortina a frente, surpreendendo os turistas com a vista das águas em tom esmeralda, 50 metros abaixo. A trilha segue serpenteando o paredão com um visual impressionante. Dali é possível encarar em uma descida de rapel nas paredes areníticas e lá debaixo experimentar uma modalidade chamada de psicobloc (escalada esportiva sem equipamento, em que a única proteção é a água). Ainda que você não se arrisque em nenhuma das duas opções, a caminhada termina em clima de aventura em uma descida íngreme na Gruta do Talhado, que dá direito a um merecido batismo nas águas translúcidas do lago.

No fim do passeio, uma lancha leva os turistas rumo ao Restaurante do Castanho, servido de coloridas canoas e caiaques para os adeptos do remo. As redes sob a sombra de cajueiros são perfeitas para um "relax" enquanto se espera um caprichado bode guisado ou um peixe fresquinho ao molho de camarão. O restaurante também opera saídas de barco para o Vale dos Mestres, um recanto com águas mornas e claras a 20 minutos dali, que vai te convencer que mergulhar no São Francisco nunca é demais. 

Max David/Divulgação
Voo de parasail sobre a Foz do São Francisco, em Piaçabuçu Imagem: Max David/Divulgação

No embalo do cangaço
A 40 km de Delmiro, Piranhas é um destino símbolo da rota e cativa pela qualidade da estrutura turística e a deliciosa vida noturna ao ar livre. Aos finais de semana, o xaxado toma conta do centro tombado como patrimônio histórico nacional e contagia turistas e anfitriões. 

A cidade não só dança embalada pelo ritmo inspirado no cangaço, como também transpira a história de Lampião por todos os cantos. Foi de lá que partiu a emboscada que deu fim aos 20 anos de fuga pelas paisagens mais rústicas do Nordeste. Para conhecer os detalhes da sua saga - que, de acordo com os relatos locais, vai do banditismo ao heroísmo - é possível fazer uma trilha que leva ao seu último esconderijo.

O passeio começa com uma navegação de 40 minutos a partir do cais de Piranhas e segue até o município de Poço Redondo, já em Sergipe. O desembarque é feito no Cangaço Eco Parque, um espaço aconchegante, equipado com restaurante e repleto de tendas de relaxamento à beira-rio. Só vale se render ao sossego, porém, depois de concluir a trilha de cerca de 3km que leva até a Grota de Angico,ponto do massacre onde há 77 anos rolaram as cabeças dos integrantes do mais famoso clã de cangaceiros do país.

Em meio à caatinga, o guia Cícero Rogério Oliveira, devidamente trajado à moda Virgulino, apresenta os xiquexiques, mandacarus, facheiros e umbuzeiros do caminho. Quando chega na grota onde estão as cruzes dedicadas aos mortos, ele reproduz com detalhes impressionantes a história que cresceu ouvindo dos parentes mais velhos. Nas redondezas, Lampião é celebrado como um verdadeiro "Robin Hood do Nordeste". Na volta, vale a parada em Entremontes, uma graciosa vila de rendeiras que parece ter parado no tempo do Brasil Colônia.  

É também a partir de Piranhas que se tem acesso ao restaurante Karranca’s, com uma ampla estrutura, de onde saem os principais passeios em lanchas ou catamarãs pelos cânions do Xingó. Contemplar os paredões de dentro do lago é uma experiência completamente diferente. No meio do caminho, há parada para mais um mergulho e passeio de canoa em um dos pontos mais bonitos do cânion.  

Fernando Angeoletto/UOL
Passeio de canoa na Gruta do Talhado percorre cânions do Xingó Imagem: Fernando Angeoletto/UOL

E o rio São Francisco vai bater no meio do mar
A jornada segue rumo ao litoral, passando por outros povoados ao longo do caminho, como Pão de Açúcar, Traipu e Belo Monte, até chegar em Penedo, a capital barroca do Velho Chico. Fundada em 1560, a cidade preserva um conjunto arquitetônico quemerece uma parada mais demorada. 

A 30 km dali, entre o Atlântico e o Velho Chico, está um verdadeiro segredo turístico do Nordeste. Mais do que conferir o emblemático encontro do rio com o mar, em Piaçabuçu é possível fazer um off-road por coqueirais sem fim, restingas riquíssimas em biodiversidade e dunas douradas que redesenham diariamente a paisagem.

Para encerrar o passeio com chave de ouro, a atração é o voo de parasail: uma espécie de paraquedas acoplado a um buggy que proporciona, sem sombra de dúvidas, o melhor ângulo da foz do São Francisco, contemplado a mais de 100m de altura, no melhor estilo "com emoção".

O fim de uma rota dessas merece brinde em frente às piscinas naturais de águas claras do Pontal do Peba, a praia mais interessante de Piaçabuçu.

*Os jornalistas viajaram a convite da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Alagoas

Como chegar
Para chegar em Delmiro Gouveia (AL), o início da rota, há a opção de alugar um carro em Maceió (a 294 km), Paulo Afonso (BA) (a 46 km) ou Aracaju (a 244 km). De Delmiro, parte-se pela rodovia rumo ao litoral, parando pelas principais cidades do roteiro, até chegar em Piaçabuçu (AL), a 260 km do ponto inicial.

Mais informações:
Projeto Caminhos do São Francisco
www.caminhosdosaofrancisco.com.br

MFTUR
www.mfturxingo.com.br

Destino Alagoas
www.destinoalagoas.com

Castanho
www.canionsdosaofrancisco.com.br

Farol da Foz Ecoturismo
www.faroldafozecoturismo.com

Candeeiro Ecotur
(82) 8838-3509

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