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Em fim de semana no Egito, turista atravessa mais de 5.000 anos de história

Marcel Vincenti

Do UOL, no Cairo*

03/04/2015 08h10

Principal palco dos protestos que derrubaram o ditador egípcio Hosni Mubarak em 2011, a praça Tahrir ainda guarda lembranças de seus momentos incendiários.

Sobre o trânsito intenso de carros que cruzam a área, destaca-se um monstruoso edifício de 15 andares completamente incinerado durante os dias da Primavera Árabe: no local funcionava, até o começo de 2011, a sede do Partido Nacional Democrático (PND), a autoritária entidade que foi chefiada por Mubarak e que controlou o governo egípcio por mais de três décadas. 

Marcel Vincenti/UOL
No Cairo é possível ver, ao mesmo tempo, estátuas faraônicas e o prédio incinerado do ex-partido de Hosni Mubarak, destruído durante os protestos da Primavera Árabe Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Mais de quatro anos depois, sua carcaça continua exposta no coração do Cairo, bem ao lado do fascinante Museu Egípcio, lar do principal acervo de relíquias do Egito faraônico no mundo. 

O contraste não surpreende: no Cairo, são necessários poucos passos para atravessar milhares de anos de história. Além de exibir lado a lado o prédio queimado do PND e a máscara de ouro de Tutancâmon, a cidade permite que o visitante conheça, em dois ou três dias, alguns dos capítulos mais importantes da história do mundo oriental. Veja abaixo um roteiro para fazer por lá em um fim de semana. 

Antes do Cairo, saia do Cairo

Marcel Vincenti/UOL
Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Você chega ao Cairo e quer decidir o que fazer primeiro. A dica é: no começo da manhã, saia da cidade (mas não vá muito longe). Atração mais famosa do Egito, as pirâmides de Gizé estão a apenas 9 km da metrópole, no lado oeste do rio Nilo, e merecem ser o começo de sua jornada. Construídas como tumbas faraônicas há mais de 4.000 anos, as últimas maravilhas do mundo antigo ainda preservadas fascinam por sua simetria perfeita. A mais imponente delas é a pirâmide de Quéops, finalizada em cerca de 2.570 a.C. e com nada menos que 137 metros de altura.

Suas entranhas podem ser visitadas por viajantes que não tenham claustrofobia: não há muito o que ver no interior escuro e apertado, mas a maioria dos turistas que paga o ingresso extra é para dizer: "eu estive na tumba do faraó". Na paisagem, também se destacam as pirâmides de Quéfren (com 136 metros de altura) e Miquerinos (com 36 metros), além da intrigante Esfinge, chamada pelos árabes de "Abu Al-Hul" (Pai do Terror) e que, sobre seu corpo felino, exibe o que seria o rosto do faraó Quéfren.

Aqui, os contrastes continuam: dependendo do ângulo que se olha, as pirâmides têm como cenário só camelos e o deserto (visão que faz o turista se sentir na era pré-cristã). Mas, vendo de outros lados, aparece atrás delas a caótica e empobrecida cidade de Gizé que, com seus 3,6 milhões de habitantes, transporta o visitante imediatamente para as mazelas do Oriente Médio moderno.  

O rio dos rios

Marcel Vincenti/UOL
Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Ganges, Amazonas, Eufrates: há muitos rios lendários no mundo, mas nenhum deles têm a atmosfera do Nilo. O curso de água que alimentou a civilização faraônica (e ainda é vital para o Egito) pode ser visto de pertinho no Cairo. Destino perfeito no retorno das pirâmides, o Nilo atravessa a capital egípcia e apresenta diversas paisagens ao longo de seu percurso urbano: na região central da cidade, perto da ponte 6 de outubro, ele é cercado por enormes edifícios e um movimentado calçadão onde, durante o dia e a noite, os cairotas se sentam para tomar chá, bater papo e fumar narguilé (aqui chamado de "shisha").

Mais para o sul da cidade, entre o bairro cristão copta e a ilha de Roda, o rio ganha feições mais bucólicas, com pescadores sobre suas águas, famílias passeando com minúsculos barquinhos e casais nas margens ouvindo "shaabi" (a música pop egípcia).

Além de transportar o turista para tempos remotos, o Nilo é uma conexão com o resto da África: em sua margens, olhe para o sul e imagine-o vindo, por cerca de 7.000 mil km, desde as montanhas do Burundi, atravessando outros sete países africanos (como Uganda, Etiópia e Sudão), passando por templos faraônicos no sul do Egito e chegando até seus pés, dentro do cenário de uma das maiores metrópoles do mundo. Diversos donos de barco oferecem passeios para os turistas que visitam o Nilo no Cairo: a experiência vale a pena, mas barganhe um bom desconto antes de fechar o tour. 

Uma tarde no museu

Carsten Frenzl/Creative Commons
Imagem: Carsten Frenzl/Creative Commons

O Museu Egípcio, localizado no centro do Cairo, é um passeio ideal para complementar sua visita às pirâmides e ao rio Nilo. O local abriga mais de 100 mil objetos do mundo faraônico. Só os tesouros de Tutancâmon (principalmente seu sarcófago, suas joias e sua máscara mortuária de ouro maciço de 11 quilos, na foto) já valem a visita, mas reserve todo o período da tarde para ver com calma tudo o que o museu tem para oferecer: lá dentro é possível ficar cara a cara com a estátua de madeira de Ka-Aper (feita, magistralmente, com um único pedaço de sicômoro) e com a linda estátua de diorito de Quéfren, mandante da construção de uma das pirâmides de Gizé e com sua representação no Museu Egípcio protegida pelas asas do deus-falcão Hórus.

Outro espaço extremamente concorrido do museu é a sala das múmias reais, que exibe múmias de diversas dinastias faraônicas (principalmente das que reinaram entre 1650 e 945 a.C.). Entre as figuras ilustres deste espaço se encontram os faraós Amenhotep 1º (reinado de 1525-1504 a.C.), Tutmósis 3º (1479-1425 a.C.) e Tutmósis 4º (1400 a 1.390 a.C). Outro canto imperdível é a sala das múmias dos animais. Lá estão diversos cachorros, crocodilos, gatos e chacais mumificados nas eras faraônicas. A parte externa do museu ainda abriga um jardim onde é possível admirar os bustos de diversos arqueólogos que realizaram grandes descobertas no Egito nos últimos séculos. 

Grafites da Primavera

Marcel Vincenti/UOL
Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Ao sair do Museu Egípcio, cruze a Praça Tahrir (cuidado para não ser atropelado no meio do trânsito intenso) e caminhe até a rua Mohammed Mahmoud, que chama a atenção por seu enorme muro grafitado. A arte está longe de ser alegre: no paredão aparecem pinturas de pessoas machucadas, mulheres chorando e até um faraó desenhado no estilo do "Homem Vitruviano", de Leonardo da Vinci, mas com seus braços e pernas quebrados. A rua Mohammed Mahmoud foi palco de alguns dos mais violentos confrontos entre manifestantes e forças de segurança durante a Primavera Árabe.

Em novembro de 2011, milhares de pessoas se reuniram no local, que fica na frente do Ministério do Interior egípcio, para protestar contra a violência policial que continuava reprimindo a população, mesmo com o ex-ditador Hosni Mubarak expulso da presidência há meses. A resposta ao protesto foi brutal, resultando em mais de 40 mortos e centenas de feridos (há relatos de que a polícia atirava de propósito nos olhos dos manifestantes).

Os egípcios chamam as jornadas de 2011 de "revolução", visto que elas conseguiram forçar a renúncia de um presidente que mantinha o poder, com mão de ferro, havia 30 anos. O termo, porém, é discutível, já que o Egito está hoje novamente sob um governo altamente repressivo contra seus opositores. O passeio pelos grafites pode ser complementado com uma visita à livraria da Universidade Americana do Cairo, atrás dos muros, que vende diversos livros sobre a Primavera Árabe.    

História do islã

Marcel Vincenti/UOL
Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Os lugares mais sagrados do islã estão na Arábia Saudita, mas o Cairo se mantém na cola como um dos mais importantes centros do mundo muçulmano. Conhecida como "A Cidade dos Mil Minaretes", a capital egípcia congrega mesquitas cujas fundações atravessam boa parte da história da religião do profeta Maomé.

As joias islâmicas locais vão desde a mesquita de Amr ibn Al-As, erguida em 642 d.C. pelo militar que conquistou o Egito durante a expansão muçulmana, até a mesquita de Mohammed Ali, construída em meados do século 19 e que leva o nome do soberano que governou o Egito entre 1805 e 1848. Entre esses dois períodos, outras lindas edificações surgiram no Cairo. Entre elas, destaque para a mesquita de Al-Azhar, fundada em 970 d.C. e que abriga o mais importante centro de estudos da teologia sunita no mundo.

Na terra de nascimento de tantos jihadistas famosos (como Ayman al-Zawahiri, o atual líder da Al-Qaeda), as mesquitas do Cairo têm se engajado num trabalho de relações públicas para mostrar que o islã não é só violência. Ao entrar em qualquer uma delas, o visitante irá se deparar com uma estante de panfletos falando sobre as mensagens pacíficas de Maomé e, às vezes, com algum muçulmano ansioso por dar explicações.

"Um bom muçulmano acredita que só Deus pode julgar o ser humano", me disse, na mesquita de Al-Hakim, aberta em 1013, o jovem Youssef Abdallah. "Quando o Estado Islâmico mata pessoas dizendo que elas são infiéis, eles estão tomando o lugar de Deus como o único juiz que pode existir. Eles definitivamente não respeitam as leis do islã". As mais belas mesquitas ficam no chamado Cairo Islâmico, a área medieval da cidade que podem ser conhecida no segundo dia, na parte da manhã. 

Cristianismo único

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Imagem: Marcel Vincenti/UOL

Depois de conhecer a face islâmica do Cairo, vale a pena passar a tarde no reduto de outra religião monoteísta da capital egípcia. O Egito abriga uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo, os coptas. Segundo a crença desse grupo religioso, o cristianismo chegou ao Egito em meados do século 1, trazido por São Marcos.

A fé em Jesus cresceu exponencialmente nos séculos seguintes e, em 451, durante o Concílio de Calcedônia, a igreja egípcia rompeu com os outros centros cristãos do Império Bizantino por discordar da determinação de que Jesus tinha duas naturezas, uma divina e outra humana.

Cercados por muçulmanos desde o século 7, os coptas souberam preservar sua fé nos últimos mais de 1.300 anos. No Cairo, seu reduto fica perto do rio Nilo e abriga lindos templos como a Igreja Suspensa (na foto), construída sobre uma antiga edificação romana, e a Igreja de São Sérgio e São Baco, erguida, no século 11, sobre uma caverna onde, segundo os coptas, José, Maria e Jesus se esconderam depois de fugir da perseguição do rei Herodes na Judeia. Igrejas em homenagem a São Jorge e Santa Bárbara também podem visitadas na área. Se possível, vá até a região no domingo, dia das principais missas coptas, conduzidas em um idioma da era faraônica. 

INFORMAÇÕES PRÁTICAS

Segurança
O Egito tem recebido cerca de 9 milhões de turistas por ano, mas não é um território livre de riscos para o viajante. Atentados de grupos islâmicos contra forças de segurança ocorrem com regularidade em diversos pontos do país (inclusive no Cairo) e algumas áreas do território egípcio, como o norte da Península do Sinai, são regiões com intensa atividade de organizações islâmicas radicais nos dias de hoje. Recomenda-se que, antes de realizar a jornada à terra dos faraós, o viajante se informe sobre as últimas notícias envolvendo o Egito. Uma das melhores fontes de informação sobre a situação da segurança no país é este site do governo britânico (em inglês): www.gov.uk/foreign-travel-advice/egypt

Compras, chá e shisha
Ao visitar as mesquitas do Cairo Islâmico, não deixar de ir até a região comercial conhecida como Khan al-Khalili. Lá é possível encontrar o presente oriental ideal para seus familiares no Brasil (mas não se esqueça de barganhar para conseguir um bom preço). Na área também estão os melhores lugares para tomar chá e fumar "shisha" (narguilé) no Cairo. O café Fishawi´s é o mais famoso deles. 

*O repórter Marcel Vincenti viajou ao Egito com o apoio da companhia aérea Turkish Airlines, que oferece voos diretos entre o aeroporto de Guarulhos e Istambul. Da cidade turca, a companhia faz conexões para o Cairo.

 

 

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