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Ecoturismo

Vida mansa e beleza da Ilha de Boipeba valem uma hora de caminhada

Felipe Floresti

Do UOL, na Ilha de Boipeba (Bahia)

11/02/2015 16h08

Em Boipeba, o relógio segue o ritmo da maré. Se está baixa, é hora de ir. Ir mergulhar, caminhar nas trilhas, cruzar manguezais, chegar às paradisíacas praias. A maré subiu, é hora de ficar. Os caminhos estão fechados. Desfrute a praia. Almoce. Descanse. Pois a maré já vai baixar, e é hora de ir embora.

O local se encontra no estuário do rio do Inferno, região de confluência entre rio e mar, sofrendo maior influência das marés. Dizem que o nome macabro vem do tempo da colonização do Brasil. Os índios Aimoré, conhecendo o ritmo da maré, esperavam os barcos portugueses ficarem encalhados na maré baixa para atracar e se alimentar deles. Eram canibais. Foram os portugueses que o batizaram assim.

O delta formado pelo rio do Inferno cria o arquipélago de Tinharé, composto por três ilhas grandes e outras dezenas de menores. Em uma, ao norte, fica a badalada Morro de São Paulo. Ao sul, a Ilha de Boipeba. Todos pertencem ao município de Cairu, que também dá nome à outra ilha grande e não fica à beira mar.

Cada ilha dessas possui mais de um povoado. Em Boipeba são três os principais. Velha Boipeba, o principal, onde os barcos geralmente chegam, Cova da Onça e Moreré. O último é o menor deles.

Destino tranquilo

Não circulam carros em Boipeba. É proibido. Transporte por lá são animais (cavalo e jegue), motos (ou moto-táxis) e tratores que improvisam jardineiras para transportar os turistas que chegam à ilha. Quem não topar uma hora de caminhada (principalmente sob o sol forte da Bahia), tem que optar por um deles. Os dois últimos são os mais comuns entre os turistas. Outra opção é fazer a volta na ilha de lancha.

Felipe Floresti/UOL
Trilha aberta entre os manguezais leva à praia mais isolada da Ilha de Boipeba Imagem: Felipe Floresti/UOL

A areia fofa domina as poucas ruas de Moreré. Agradáveis casas e um pouco de comércio abrigam os 250 habitantes do povoado. Algumas pousadas e restaurantes estão espalhados pelo vilarejo, principalmente à beira-mar. Os preços acompanham o conforto e a vista que oferecem, tendo opções para todos os bolsos.

A tranquilidade predomina. Principalmente fora de temporada. Praias, ruas, restaurantes e bares, quando abertos, estão quase sempre vazios. No verão a situação muda um pouco, mas o turismo ostensivo e predatório ainda não chegou em Moreré. Projetos imobiliários, porém, colocam em risco a paz da ilha.

A praia de Moreré é pequena. Fechada por pedras de um lado e um pequeno manguezal do outro. Muitos barcos aproveitam suas águas calmas para descansar tranquilamente. Quem chega na maré cheia pode estranhar duas traves de futebol no meio dos barcos. Mas tudo faz sentido quando a maré recua, os barcos começam a encostar no chão de areia e a bola rola.

Uma grande barreira de corais é revelada, justificando as águas tranquilas da praia (é bom sempre verificar nas pousadas a tábua de marés antes de planejar seu dia). É possível fazer grandes caminhadas pela areia antes submersa. Entrar no mar por muitos metros que a água não molha mais que a canela. Alguns pescadores nativos aproveitam para percorrer os corais em busca de polvos.

Nas marés mais baixas, alguns poços entre os corais aprisionam centenas de coloridos peixes em sua água cristalina. São aquários criados pela natureza e para se sentir parte dele basta um óculos de mergulho. Daí a tentação de caminhar por uma das barreiras de corais e acessar as piscinas. Mas não faça isso. Para evitar a degradação dos corais, nativos com canoas te levam direto às piscinas naturais. De quebra ainda fomenta a economia local.

Mais praias

Ao norte fica a praia da Coeira. Enseada extensa, com ondas e cercada por coqueirais. Para acessá-la é necessário cruzar um riacho. Informe-se antes de ir sobre o ponto de travessia, já que mexilhões podem causar indesejáveis ferimentos nos pés.

Por um caminho entre pequenas chácaras ao sul de Moreré chega-se à mais extensa praia da ilha: Bainema. Com areia clara e águas cristalinas é a preferida dos nativos da ilha, com ondas que possibilitam a prática de surfe. Permanece quase sempre deserta, com algumas poucas casas quebrando o padrão dos coqueirais que dominam a maioria das praias da ilha de Boipeba.

Felipe Floresti/UOL
Praia da Coeira, em Boipeba, tem areia clara, ondas e fartos coqueirais Imagem: Felipe Floresti/UOL

Mas é com um guia que uma trilha leva à maior preciosidade de Boipeba: a Ponta dos Castelhanos. O caminho começa no fim da praia de Bainema, adentrando uma fazenda de cocos. O passeio é para quem não tem problema em enfiar o pé na lama (literalmente).

Aos poucos a fazenda vai dando lugar a vastos manguezais, com suas raízes retorcidas, chão enlameado e inúmeros e coloridos caranguejos. Apesar de lanchas também levarem à praia, os cerca de 40 minutos de caminhada valem a pena por proporcionar a oportunidade de adentrar em um ecossistema tão peculiar.

O caminho chega até a margem do rio do Catu. A travessia, feita de canoas ou barcos, apresenta uma nova paisagem. O rio com suas águas esverdeadas vai dando lugar ao azul claro do mar, com alguns resistentes mangues formando pequenas ilhas na foz. Barreiras de corais mantêm a água cristalina na longa e deserta praia, enquanto os coqueirais de praxe complementam o cenário. 

O nome Ponta dos Castelhanos vem de um Galeão Espanhol chamado Madre de Díos que naufragou pertinho da costa no ano de 1535. Os praticantes de mergulho ainda podem observar o que restou da embarcação submersa.

Nos dias de maior movimento é comum encontrar uma barraca de bebidas no início da praia, fazendo a alegria dos turistas com caipirinhas com as frutas da região, como o biribiri, cacau e maracujá. 

Mas quem quiser conhecer o paraíso na forma que se encontra hoje não pode perder muito tempo. Em breve onde se vê coqueirais e praia deserta estarão guarda-sóis e casas de alto padrão. Um projeto prevê loteamento do que hoje é a fazenda de coco para a construção de casas de veraneio, além de duas pousadas, campo de golfe, estradas (trazendo trafego de veículos leves para ilha), parque de lazer, um pier com sede náutica para mais de 150 barcos no Rio dos Patos e até um aeroporto, totalizando uma área que atinge 20% da ilha de Boipeba (detalhes podem ser acessados em www.ilhaboipeba.org.br/emdestaque.html).

O projeto está em fase de audiência pública junto à população de Boipeba, que teme os impactos sociais e ambientais decorrentes de um empreendimento dessa magnitude. Para eles, o encanto da ilha está sob ameaça.

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