Viagem

Ecoturismo

Trilha na Colômbia percorre as montanhas costeiras mais altas do mundo

Felipe Floresti

Do UOL, em Teyuna (Colômbia)

06/01/2015 07h00

No norte da Colômbia, a Serra Nevada de Santa Marta é a cadeia costeira de montanhas mais alta do mundo, chegando a 5.775 metros de altura a apenas 42 quilômetros do mar do Caribe. Estende-se por uma área de aproximadamente 17.000 km² e é povoada por quatro etnias indígenas, sendo todas descendentes dos Tairona, proeminente grupo indígena que habitou a Serra Nevada.

Extintos no início do século 16, os Tairona deixaram de herança mais de 300 sítios arqueológicos espalhados pelas montanhas, mas apenas 26 foram encontrados. O maior é conhecido como “Cidade Perdida” ou Teyuna. Hoje agências de viagem exploram turisticamente a região com uma caminhada de 50 quilômetros pelas montanhas, subindo até 1.200 metros de altitude. A reportagem do UOL encarou a aventura e conta a experiência de adentrar trilhas e cultura dos povos nativos da região.

Rumo à Cidade Perdida

O passeio começa em Santa Marta, capital do distrito de Magdalena e maior cidade da região. É lá que operam as agências de turismo com pacotes até a Cidade Perdida. Com as agências atuando em conjunto, o preço fixo é de 600 mil pesos colombianos (cerca de R$ 750). Quase todos os dias, às 9h, partem carros em uma viagem de cerca de duas horas em direção ao povoado de El Mamey, também conhecido como Machete Pelado, de onde efetivamente começa a caminhada.

Éramos um grupo de 28 pessoas, sendo apenas três brasileiros e todo o restante vindo de países europeus ou dos Estados Unidos, além dos dois guias e a equipe que acompanha o grupo para auxiliar na organização e alimentação. Após um lanche em Machete Pelado, começamos a percorrer o trajeto, que pode ser feito em quatro, cinco ou seis dias. A variante é o tempo de caminhada diário. Fizemos em quatro dias.

Felipe Floresti/UOL
Os indígenas que vivem na Serra Nevada de Santa Marta são tímidos e reservados Imagem: Felipe Floresti/UOL

O primeiro trecho do caminho tinha estimativa de 4 horas até o primeiro acampamento, a 7,6 km de distância. A primeira hora, plana, engana bem quem espera encontrar facilidade. Logo que atravessamos pela primeira de tantas outras vezes o rio Buritaca começou a subida mais íngreme e longa do percurso, e com ela, a chuva.

O aguaceiro transformou caminhos em escorregadores de lama. Somente com ajuda dos guias alguns trechos foram superados. Quedas e banhos de barro se tornaram frequentes, tudo enquanto eu travava uma luta (em vão) para manter secas as roupas na pesada mochila que carregava nas costas.

Alguns abrigos eram como oásis no caminho. Café quente e frutas tornaram a epopeia menos sofrível. Seis horas depois chegamos ao acampamento, onde enfim pudemos desfrutar do jantar, tentar salvar as poucas roupas que restaram secas dentro da mochila, e dormir, já que no dia seguinte tinha muito mais.

A coca

As paisagens dessas montanhas mudaram nos últimos anos, principalmente no primeiro trecho, dominado por fazendas. Antigamente as terras da região eram em sua maioria destinadas a plantações de coca. Era comum alguns turistas desviarem do trajeto oficial para conhecer uma das pequenas fábricas de pasta base de cocaína.

Em 1998, por iniciativa do então presidente Álvaro Uribe, as plantações de coca que dominavam as fazendas foram exterminadas, afetando a vida de todos que por alí viviam. Os fazendeiros, que antes pouco se interessavam pelo bando de estrangeiros que vez ou outra cruzavam suas terras, passaram a explorar o turismo, cobrando pela passagem (incluso no preço do pacote) e instalando pontos de paradas.

Felipe Floresti/UOL
Turistas atravessam riacho no sentido a Machete Pelado, na volta da Cidade Perdida Imagem: Felipe Floresti/UOL

Os indígenas também foram afetados pelo extermínio das plantações. Não que eles ficaram sem suas plantas de coca, cujas folhas são sagradas. São os únicos que ainda tem permissão de cultivar e consumir as folhas de coca. Entretanto os herbicidas jogados para destruir plantações atingiram outras plantas, animais e contaminou rios e solos da região. Uma violência sem tamanho para quem considera a Serra Nevada de Santa Marta, e tudo que tem nela, como seus pais.

Os índios

O segundo dia começou cedo. Todos de pé às 5h para iniciar o que seria o mais longo dia, com estimativa de 8h de caminhada. A chuva que começou no início da tarde do dia anterior, persistiu pela madrugada e nos acompanhou até a manhã, minando o ânimo da galera.

Após algum tempo, porém, a chuva nos deixou caminhar em paz. Pudemos enfim dedicar as pausas para contemplar o visual das montanhas, que a essa altura já deixou as fazendas para trás, sendo ocupadas pela rica vegetação nativa, com diversas espécies de trepadeiras, bromélias e palmeiras, sendo algumas endêmicas.
Neste trecho as terras são pertencentes a reservas indígenas. É comum encontrar os atuais moradores da região, pertencente às etnias kogis, arhuacos, asarios e kankuamos, sendo os três primeiros mais comuns.

Os kogis são os que mantêm sua cultura mais preservada, podendo ser identificados por suas longas roupas brancas de algodão e suas mochilas feitas com fibra de fique, uma planta semelhante ao agave. Já os demais podem ser diferenciados por terem aderido ao uso de chapéu e botas. Vivem basicamente do cultivo de alimentos, caça e pequena criação de porcos, que vivem em liberdade.

Felipe Floresti/UOL
Teyuna tem nada menos que 35 hectares de área descoberta Imagem: Felipe Floresti/UOL

Não é difícil encontrá-los segurando o que chamam de poporo, utilizado para consumir a folha de coca. É uma espécie de cabaça cheia de uma cal branca extraída de uma concha encontrada nas praias do caribe colombiano. Com um pedaço de madeira, os indígenas pegam a cal e colocam diretamente sobre um punhado de folhas de coca que são colocadas no canto da boca. A saliva, cal e as folhas provocam uma reação química, liberando as substâncias da folha.

De uso sagrado, com ela os indígenas aliviam a fome, sede e cansaço, garantindo energia para subir e descer as longas distancia pelas montanhas da Serra Nevada. O primeiro poporo é dado ao indígena pelo mamo, líder do povo, assim que completa 18 anos, marcando o início da vida adulta.

Em sua maioria, os indígenas são tímidos e reservados, se negando a posar para fotos (é sempre bom perguntar antes de pegar a câmera). Até pouco tempo, mulheres e crianças fugiam ao avistar um forasteiro. Nos últimos anos, com o aumento do turismo no local, muitos costumes tem mudado. Chama atenção o gosto dos homens adultos por cerveja, enquanto algumas crianças ficam sentadas no caminho pedindo doces para os estrangeiros que encontram.

A caminhada passa ao lado de um povo indígena. Como são seminômades, deixam suas casas constantemente, seja para a produção de alimento ou rituais emoutros pontos das montanhas. Com isso, é possível para os turistas conhecerem de perto o povoado, caso esteja vazio.

Contando com uma parada em um dos acampamentos no caminho para o almoço, chegamos no meio da tarde ao último ponto de parada antes de subir à Cidade Perdida, o que faríamos na manhã seguinte.

Felipe Floresti/UOL
Casas de um dos quatro povos indígenas que habitam a Serra Nevada de Santa Marta Imagem: Felipe Floresti/UOL

Antes do pôr do sol ainda deu tempo para curtir um pouco o rio Buritaca e as cachoeiras que nele desaguam, e aliviar as dores nas pernas e ombros fruto dos dois dias de intensa atividade física.

Enfim: Teyuna

O dia começou às 6h. Após rápido café da manhã partimos para enfim atingir a cidade perdida dos Tairona. Após cruzar mais uma vez o rio Buritaca, dessa vez com ajuda de cordas devido à forte correnteza, chegamos à escada que leva às ruínas. São 1.200 irregulares e cansativos degraus de pedra originalmente construídos pelos indígenas na encosta da montanha até chegar ao destino. 

Construída no século 7, Teyuna, como é conhecida a Cidade Perdida pelos indígenas, é a maior construída pelos Tairona, que lá habitaram por dez séculos, até a chegada dos espanhóis na Colômbia. Estima-se que durante seu auge, a cidade tenha abrigado cerca de 2.000 pessoas. Apesar de nunca terem chegado de fato à cidade, os espanhóis contaminaram os indígenas com diversas doenças para quais não possuíam resistência, culminando no extermínio do povo, por volta de 1650.

Os remanescentes se refugiaram nos cantos mais remotos da Serra Nevada, dando origem às outras etnias indígenas lá existentes. A cidade, por sua vez, foi redescoberta em 1976 por guaqueros, como são conhecidos os caçadores das relíquias indígenas. Foram eles também que cuidaram de destruir o que o tempo e o abandono não haviam estragado.

Crenças indígenas

Os Tairona acreditavam em reencarnação. Quando morriam, eram enterrados nos arredores da casa de sua família com comida e uma corda amarrada ligando até fora da sepultura. Eles acreditavam que, quando morriam, partiam para uma jornada de nove mundos (referente aos nove meses de gestação). Os alimentos eram para ajudar na jornada e quando a corda se rompia, significava que a viagem havia terminado. Em seguida o corpo era desenterrado, os restos colocados em uma urna com todos seus pertences, e em seguida novamente enterrado.

Felipe Floresti/UOL
Antigamente dominada por plantações de coca, a Serra Nevada é hoje coberta por pastos Imagem: Felipe Floresti/UOL

Os guaqueiros sabiam disso, assim como sabiam que os Tairona eram bons em trabalhos com ouro e pedras preciosas. Faziam imagens zoomórficas, utilizando imagens de serpente (representando morte), sapo (fertilidade) e jaguar (boas energias). A Cidade Perdida foi então revirada, seus tesouros roubados, e somente em 1981 foi aberta como parque arqueológico aos visitantes, após extenso trabalho em que 70% foi reconstruída.

Hoje é uma série de terraços, escadas e muros, todos feitos de pedra, sobre os quais construíam casas, centros de cerimônia e outras estruturas para a comunidade.

Duas réplicas das casas foram construídas, sendo muito semelhantes com as que até hoje são utilizadas pelos índios kogi. A área descoberta ocupa 35 hectares em meio às montanhas da Serra Nevada.

Teyuna ainda é palco de rituais e cerimônias dos índios que habitam as montanhas. Para eles, a Serra Nevada de Santa Marta é o centro do mundo, sendo seus dois picos mais altos, o Simón Bolivar e Cristóbal Colón, a 5.775 metros acima do nível do mar, seus pais. As águas são suas mães. Os homens de fora são os irmãos menores, enquanto eles são os irmãos maiores. São os irmãos maiores responsáveis por manter o equilíbrio planetário, com rituais e oferendas de pagamento para tudo que o homem explora da natureza.

No ponto mais alto, com vista privilegiada da cidade, uma base do Exército cuida da segurança do local e dos turistas. Isso desde 2003, quando oito estrangeiros foram sequestrados pelo Exército de Libertação Nacional, colocando o local sagrado dos Tairona no meio do conflito entre as guerrilhas e o governo. Hoje o passeio é seguro.

Finalizada a visita, resta partir para a jornada de regresso. Depois do almoço são mais quatro horas de caminhada até o próximo ponto de parada, onde o grupo passou a noite. No dia seguinte, o tempo sem chuva e o caminho a favor da gravidade facilitou um pouquinho a descida, tornando menos exaustivas as 7 horas de caminhada.

Após quatro intensos dias, enfim o grupo retorna a Machete Pelado, sendo esperados com um belo almoço. Extenuados, mas felizes, partimos de volta para Santa Marta, levando na memória a imersão no centro do mundo da comunidade indígena da Serra Nevada.

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