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No Piauí, turismo arqueológico revela história do homem nas Américas

Marcel Vincenti

Do UOL, no Parque Nacional Serra da Capivara (Piauí)*

10/10/2013 07h55

“Este lugar poderia receber entre 5 e 6 milhões de turistas por ano. Mas só recebe 20 mil. É um patrimônio da humanidade que ainda não foi reconhecido devidamente”. A declaração é de autoria da arqueóloga paulista Niède Guidon, uma Indiana Jones da caatinga. E, com seu estilo contundente, explica bem o potencial arrebatador, e ainda pouco explorado, do Parque Nacional Serra da Capivara, no interior do Piauí.

“Temos aqui paisagens maravilhosas, monumentos geológicos únicos, um museu bem estruturado e o principal complexo arqueológico do país. Mas não há aeroporto nem hotéis suficientes para atender os visitantes”.

Niède tem autoridade para falar: desde o começo dos anos 1970, ela tem sido figura-chave na descoberta dos sítios arqueológicos que compõem o Parque Nacional Serra da Capivara, o lugar com a maior quantidade de pinturas rupestres no mundo (mais de 40 mil) e que traz informações reveladoras sobre a chegada do homem ao que hoje são as Américas.

  • Arte/UOL

Localizado a 530 km de Teresina, e acessível apenas por estrada, o parque está realmente em uma região carente de infraestrutura turística. Mas vale cada palmo de asfalto percorrido pelo viajante.

Poucos lugares no Brasil, e no planeta, colocam o visitante em contato tão próximo com a história da Terra e da humanidade.

Com mais de 120 mil hectares de cânions, grutas, falésias e o rico bioma da caatinga, o Parque da Serra da Capivara e seu entorno abrigam 1.334 sítios arqueológicos (172 deles abertos a turistas), pinturas com 29 mil anos de história, paisagens que remontam ao período pré-cambriano (mais de 570 milhões de anos atrás) e um infindável cemitério de animais da megafauna: de seus terrenos são retiradas, periodicamente, ossadas de mastodontes, tigres-dente-de-sabre, preguiças gigantes (que tinham seis metros e até 700 quilos) e outras espécies extintas há milênios.

Museu e trilhas

Antes de entrar no parque, porém, é aconselhável que o forasteiro faça uma visita ao museu da Fundação do Homem Americano (Fundham), instituição da qual Niède é diretora e que preserva mais de 1 milhão de achados arqueológicos e paleontológicos da região. Com cerca de cem relíquias em exposição, o local é uma introdução perfeita para as andanças pela Serra da Capivara.

Lá estão, por exemplo, um crânio de quase 10 mil anos descoberto no Sítio dos Coqueiros, localizado dentro do parque. “É um crânio alongado, que pertenceu a um indivíduo que viveu nesta região”, conta Gisele Felice, arqueóloga da Fundham. “Ele é muito parecido com o crânio da Luzia [a mulher de 11 mil anos encontrada em Minas Gerais nos anos 1970] e é uma das principais atrações do acervo”.

  • Marcel Vincenti/UOL

    A região da Serra da Capivara abriga 1.334 sítios arqueológicos, 172 deles abertos a turistas

O museu também preserva colares de 8.000 anos, ferramentas líticas de 9.000 anos e até fezes fossilizadas com quase quatro milênios. Também exibe urnas funerárias e explica como as populações que viveram na área enterravam seus mortos. 

Abastecido pelas informações encontradas no museu, o turista está pronto para suas incursões ao Parque Nacional. Os passeios devem ser feitos com um guia: os veículos saem da cidade de São Raimundo Nonato e, depois de 20 minutos, estão cruzando as trilhas semiáridas da Serra da Capivara, entre mandacarus, xiquexiques e juazeiros.

AEROPORTO E MUSEU

A Secretaria de Infraestrutura do Piauí afirma que está cuidando da construção de um aeroporto na cidade de São Raimundo Nonato, a 30 km da entrada do Parque da Serra da Capivara. De acordo com a assessoria de imprensa do órgão, as pistas já estão prontas, e o terminal de passageiros será concluído em dezembro deste ano. Ainda não há previsão de quando será realizado o primeiro voo para a região. Além do aeroporto, a área pode ganhar em breve o Museu da Natureza, que deverá ser aberto na cidade de Coronel José Dias. “Será um museu que contará como as paisagens do parque se formaram”, adianta a arqueóloga Niède Guidon.

A infraestrutura do parque é excelente: 17 dos seus 172 pontos de visitação oferecem acesso a cadeirantes e há sinalização por todos os lados. Como atesta Niède Guidon, os turistas são realmente poucos e os atrativos, abundantes.

Em dois dias, o visitante consegue ir até os lugares mais famosos da área, onde é possível admirar testemunhos das populações caçadoras e coletoras que viveram na região: o Boqueirão da Pedra Furada, por exemplo, formado em uma cuesta arenítica, exibe pinturas rupestres que, segundo a Fundham, chegam a ter de 29 mil anos e se espalham em um paredão com 70 metros de comprimento. Já a Toca do Sítio do Meio exibe figuras humanas e de cervídeos, que são consideradas algumas das melhores expressões artísticas da Serra da Capivara.

O Baixão do Perna II, por sua vez, está localizado sobre uma plataforma rochosa que abrigou acampamentos humanos há milhares de anos. Nas pinturas rupestres do lugar, feitas com traços extremamente delicados, aparecem homens em ações cerimoniais.

Novas teorias

Os resquícios de presença humana encontrados nesses lugares lançou uma nova possibilidade sobre a chegada do homem ao que hoje são as Américas. Uma das teorias mais aceitas diz que o homo sapiens entrou na região através do Estreito de Bering (entre os territórios atuais da Rússia e do Alasca) há cerca de 15 mil anos.

Entretanto, usando técnicas de datação pelo carbono 14 e por termoluminescência em suas investigações na Serra da Capivara, as equipes de Niède Guidon chegaram à conclusão de que a presença humana na área tem pelo menos 100 mil anos de história.

  • Mapa mostra a abundância de sítios arqueológicos no Parque da Serra da Capivara

Nos sítios visitados pelos turistas foram descobertos restos de fogueiras, oficinas líticas, resquícios de aldeias, cerâmicas, discos polidos e machados lascados. São as pinturas, porém, que irão receber e encantar os visitantes. “Até hoje me impressiono com a qualidade dessas obras de arte”, diz o guia Giordano Macedo, olhando o paredão do Sítio do Meio. “Você pode enxergar movimento nas pinturas e aprender sobre diversos aspectos da vida dessas pessoas”.

Muitas das pinturas são narrativas: feitas principalmente com óxido de ferro, elas retratam figuras antropomórficas e zoomórficas em plena interação. Há duplas (e trios) fazendo sexo, homens conduzindo rituais, caçadores correndo atrás de animais, mulheres dançando e até um lindo casal dando um “selinho”.

O turista pode passar dias só explorando as obras de arte espalhadas pelo parque (o recomendável é que se reserve pelo menos quatro dias para percorrer a região, visto que os sítios estão a quilômetros de distância uns dos outros).

Mas, na Serra da Capivara, também vale a pena praticar um pouco de ecoturismo: os guias geralmente levam os turistas até locais que oferecem lindas visões da área, que esteve sob o mar em um passado distante, emergiu da água com o movimento das placas tectônicas e hoje exibe monumentos como a Pedra Furada (um dos principais cartões-postais da Serra da Capivara).

  • Marcel Vincenti/UOL

    No Parque Nacional Serra da Capivara existem 57 mamíferos e 208 espécies de aves

As caminhadas podem ser exaustivas, mas são altamente recompensadoras. Com o semiárido despovoado sob seus pés, o forasteiro se sente, mais do que nunca, como um explorador privilegiado de um mundo perdido.      

O voo das andorinhas

No Parque da Serra da Capivara existem 57 mamíferos (onças entre eles) e 208 espécies de aves. E o encontro mais marcante com a fauna da região ocorre na área conhecida como Baixão das Andorinhas. No final da tarde, turistas de reúnem no local para olhar o horizonte, na direção do pôr do sol, e avistar dezenas de andorinhas voando em sua direção. Fazendo algazarra, as aves passam sobre a cabeça dos presentes e mergulham no lindo cânion que marca a paisagem da área, para passar à noite em suas fendas. O espetáculo dura poucos minutos, mas merece a audiência de qualquer turista que visite o parque.

ALGUNS DESTAQUES DA SERRA DA CAPIVARA

Boqueirão da Pedra Furada: Formado em uma cuesta arenítica, este local exibe pinturas rupestres que, segundo a Fundham, chegam a ter 29 mil anos e se espalham em um paredão com 70 metros de comprimento. Dificuldade de acesso leve e acessível a cadeirantes.

Alto da Pedra Furada: Perto do Boqueirão da Pedra Furada começa uma escadaria com 350 degraus que leva o visitante até um mirante para a Pedra Furada. No percurso é possível conhecer locais onde homens pré-históricos usavam seixos para fazer ferramentas e instrumentos de caça. Dificuldade de acesso: alta.

Toca do Sítio do Meio: Situada em um abrigo sob rocha, a Toca do Sítio do Meio possui um complexo painel de pinturas rupestres que mostram figuras humanas e de cervídeos, feitas com um pigmento vermelho e consideradas algumas das melhores expressões artísticas da Serra da Capivara. Acredita-se que a pinturas foram realizadas entre 13.900 e 12.200 anos atrás. No local ainda foram encontrados restos de fogueiras que podem ter até 14 mil anos, pedaços de cerâmicas com quase 9.000 anos e pedras lascadas. A machadinha de pedra polida de 9.200 anos que é destaque do Museu do Homem Americano também veio de lá. Dificuldade de acesso: moderada.

  • Marcel Vincenti/UOL

    Pinturas rupestres no Boqueirão da Pedra Furada mostram pessoas em posições sexuais

Baixão do Perna I: Neste local foram descobertas ferramentas de pedra lascada, ossos de animais assados pelos caçadores, restos de fogueiras e pinturas rupestres. Acredita-se que o abrigo, que está situado à margem de um cânion, onde passava um rio, foi ocupado entre 10 mil e 3 mil anos atrás.

Baixão do Perna II: Está localizado sobre uma plataforma rochosa que abrigou acampamentos humanos há milhares de anos. Nas pinturas rupestres do lugar, feitas com traços extremamente delicados aparecem homens realizados ações cerimoniais. O sítio é cercado por belas árvores e paisagens.

Toca do Caldeirão dos Rodrigues: Abrigo localizado 80 metros acima do vale do Boqueirão da Pedra Furada. Suas pinturas retratam cerca de 12 mil anos de evolução estilística e cultural. As escavações no local, ainda não terminadas, já permitiram encontrar vestígios da presença humana de 18 mil anos.

SERVIÇO

Quando ir: De novembro a maio, a Serra da Capivara vive sua estação das chuvas, o que faz a paisagem local florescer e ganhar uma cor verde intensa. Entre junho e julho, a paisagem adquire um aspecto outonal, com as folhas das árvores amareladas, e até outubro, no período da seca, o ambiente fica mais desértico. A região é quente durante todo o ano, mas o calor pode atingir níveis altíssimos entre outubro e novembro, quando a temperatura chega a 48º. Junho é o mês mais frio do ano, com temperatura média de 25º.

Guias: Caso você não esteja com uma agência, vale a pena contratar um dos guias da ACOVESC (Associação dos Condutores de Visitantes Ecoturísticos) para conduzi-lo pelo parque. A entidade é baseada em São Raimundo Nonato e a diária de um guia custa entre R$ 80 e R$ 120 (para um grupo de até oito pessoas). Telefones: (89) 9403-7742 ou (89) 8129-6385.

Para mais informações (como horários de funcionamento e preços de ingressos) acesse: www.fumdham.org.br

*O repórter Marcel Vincenti viajou à Serra da Capivara a convite do Sebrae-Piauí.

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