Ilhas Lofoten

Cultural

Na Noruega, explore o Ártico e pesque seu próprio bacalhau

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Marcel Vincenti
Do UOL, em Svolvær (Noruega)*

Há mais de um milênio, os povos que deram origem à Noruega mostram um talento inegável para a conquista dos mares. Durante a era viking, entre os anos 793 e 1.066 d.C., eles se lançavam ao oceano para dominar, explorar e colonizar terras longínquas. Hoje, é no fundo do Atlântico que eles buscam suas riquezas.

Nem todos sabem, mas o mar norueguês, além de abrigar reservas monstruosas de petróleo, é o grande celeiro do bacalhau consumido no planeta (pasmem: Portugal, apesar de ter receitas deliciosas, não conta com a presença do peixe em suas águas).

A importância do bacalhau é econômica (ajuda a Noruega a ser o segundo maior exportador de pescados do mundo) e, cada vez mais, turística: as ilhas Lofoten, principal centro de pesca do bacalhau no país, oferecem diversos passeios que colocam o forasteiro em contato direto com a cultura marítima local.

Esqueça o cheiro do peixe, que será apenas um detalhe no roteiro. Situado acima do Círculo Ártico, Lofoten é um dos arquipélagos mais lindos da Escandinávia. Toda a área é cortada por fiordes imponentes e, em determinadas épocas do ano, se vê envolta por fenômenos como o sol da meia-noite (entre maio e julho) e a aurora boreal (em alguns dias entre setembro e março).

A principal porta de entrada do arquipélago é Svolvær, vila de 4.500 pessoas aonde se chega a bordo de um teco-teco ou após uma viagem de barco desde o continente. Lindas casinhas vermelhas (as “rorbuer” e as “sjøhus”, pintadas com a cor predominante nas construções em toda a área) e montanhas envolvendo baías de água cristalina são as marcas do lugar.

Pescando o bacalhau

Svolvær também abriga alguns dos melhores hotéis e restaurantes do arquipélago, e é ponto de partida dos barcos que levam turistas para pescar bacalhau no meio do Vestfjorden, o fiorde que separa as ilhas Lofoten do território continental da Noruega.

Uma das empresas que realiza o tour é a XX Lofoten: a navegação, que chega a durar oito horas, é feita com um barco de 1917 e vai até Henningsvær, outro dos pitorescos vilarejos locais. Durante o trajeto, os turistas tomam conta das linhas e dos anzóis da embarcação e são os responsáveis por puxar seus próprios peixes do fundo do mar.

Marcel Vincenti/UOL
As vilas de pescadores das ilhas Lofoten estão cercadas por lindas montanhas

A tarefa não é difícil: mesmo fora da alta temporada da pesca do bacalhau (que vai de janeiro a abril, época que o peixe sai do mar de Barents, no extremo norte do planeta, para deixar seus ovos nos arredores de Lofoten), as águas do arquipélago se encontram recheadas de vida.

O condutor da embarcação, Bengt Bersaendsen, de 58 anos, é um pescador de verdade, que largou a profissão de caminhoneiro em 1995 para se dedicar à vida em alto-mar. “É um trabalho que me dá liberdade e paga muito bem”, diz ele.

Bersaendsen conta que, em Lofoten, um pescador consegue tirar 830 mil coroas norueguesas (cerca de R$ 300 mil) por ano. O maior bacalhau que ele já pegou? “Tinha 35 quilos e 1,50 metro de comprimento”, lembra, modesto. “Mas isto está longe de ser um recorde: o maior bacalhau pescado na história tinha 58 quilos”.

Arte/UOL
Mapa mostra o percurso do bacalhau entre o mar de Barents e as ilhas Lofoten, na Noruega

Bersaendsen navega com o olho em um aparelho eletrônico que identifica uma enorme massa de peixes sob o barco e, de repente, um bacalhau de seis quilos surge preso a um anzol.

Trata-se da espécie Gadus morhua, considerada pelos noruegueses como o legítimo bacalhau (a carne das espécies saithe, ling e zarbo também passam por um processo de salga e secagem que as fazem serem vendidas como bacalhau ao redor do mundo).

A poucos metros de distância, um barco pesqueiro com 60 metros de comprimento aparece vergado sobre o oceano, fazendo força para puxar da água uma rede gigantesca recheada de seres marinhos. Atrás da embarcação, surgem as pontiagudas montanhas das ilhas Lofoten, iluminadas pela intensa luz branca do Ártico.

Brasil consumidor

A Noruega exportou em 2013, para 130 nações, cerca de 2,3 milhões de toneladas de produtos da pesca, a um preço de R$ 22,5 bilhões. No mundo, como exportador de pescados, o país perde apenas para a China.

A primeiro venda para o Brasil foi realizada em 1841, quando o navio “Estrela do Norte” trouxe ao território verde e amarelo diversas toneladas de bacalhau e retornou à Escandinávia carregado de café e açúcar. Hoje, os brasileiros compram 26% de todo bacalhau vendido pelos noruegueses: em 2013, foram 26 mil toneladas, no valor de R$ 330 milhões.

O bacalhau vendido ao Brasil já chega aqui seco e salgado, que é como os brasileiros gostam de comprá-lo no mercado. Durante o passeio de barco nas ilhas Lofoten, porém, é possível saborear o peixe de outras maneiras.

Ao desembarcarem nos arredores de Henningsvær, os turistas degustam iguarias como a língua, o óleo de fígado e o caviar do bacalhau (este vendido por 200 coroas, cerca de R$ 75, o quilo). Em outro parada da jornada, os viajantes comem, ao ar livre, de frente para o mar, o bacalhau pescado durante a navegação (a cabeça, como ocorre no Brasil, não é consumida na Noruega, mas vendida para países como Nigéria, onde se aprecia muito as bochechas do peixe).

Marius Fiskum/Innovation Norway
O caviar de bacalhau é uma das iguarias que podem ser provadas nas ilhas Lofoten

É altamente recomendável que o retorno a Svolvær seja feito por terra (as agências locais oferecem esta opção): o trajeto é feito pelas rodovias RV815 e E10, que serpenteiam entre montanhas deslumbrantes e baías de água verde-esmeralda. No caminho, aparecem os famosos "hjell", as estruturas de madeiras triangulares sobre as quais os pescadores secam o bacalhau (o processo da secagem chega a durar quatro meses), e também visitar atrações como Museu Viking Lofotr, localizado em Vestvågøy.

No local está a área onde foram achadas, em 1981, as ruínas da antiga residência de um líder viking que, calcula-se, alcançava 83 metros de comprimento. O governo norueguês construiu uma réplica da casa ao lado do sítio arqueológico e, lá dentro, tem-se uma ideia de como eram os móveis, as armas e a vida daquele povo conquistador. No teto, aparece pendurado um monte de bacalhau seco. Hoje fundamental para a economia norueguesa, o peixe era um elemento vital na dieta viking.

Estômago de viking

Se a consciência ambiental permitir, uma experiência gastronômica única na Noruega é a degustação de carne de baleia. A caça ao mamífero é permitida no país nórdico e, nas ilhas Lofoten, há restaurantes que servem a iguaria frita ou em um formato parecido ao do carpaccio.

Se o estômago for forte, aproveite para provar junto algumas doses de aquavit, uma bebida alcoólica de batata e especiarias muito apreciada na Noruega. A fabricante Linie Aquavit afirma que, antes de ir para o mercado, seu produto repousa em barris de carvalho durante 12 meses. Depois, os barris são colocados nos porões de navios que, durante quatro meses, fazem uma viagem de ida e volta entre a Noruega e a Ásia, cruzando a linha do Equador duas vezes. De acordo com a empresa, a jornada e as mudanças de temperatura ajudam a refinar o sabor da bebida. 

O redemoinho de Edgar Allan Poe
  • Getty Images
    Nas águas de Lofoten, os turistas podem ver os redemoinhos "moskstraumen", que inspiraram o conto "Uma descida no Maelström", de Edgar A. Poe, no qual um pescador é quase engolido pelo mar após um acidente de barco. O fenômeno ocorre perto de Mosken (foto), no sul do arquipélago. No local, há redemoinhos com 50 metros de diâmetro. Uma das agências que faz o tour é a Aqua Lofoten Coast Adventure Foto: Getty Images

SERVIÇO

Como chegar
Há embarcações que saem da cidade de Skutvik, na parte continental da Noruega, e levam turistas e seus veículos até Svolvær, em uma viagem que dura cerca de 90 minutos. A maneira mais prática, porém, é tomar um avião em Oslo e voar até Svolvær, fazendo escala antes na cidade de Bodø. O trajeto dura a partir de 2h30. No arquipélago, Svolvær é a cidade mais prática para a hospedagem, mas outras vilas também oferece ótima infraestrutura para os turistas, como Henningsvær, Nusfjord e Å (sim, o nome da cidade é apenas uma letra), no extremo sul do arquipélago. Todas estas vilas estão interligadas pela linda estrada E10, que pode ser percorrida facilmente de carro e de bicicleta. Se você não estiver com nenhum dos dois veículos, vale a pena contratar os serviços de alguma agência local que, além da experiência da pesca do bacalhau, oferecerá passeios de caiaque, caminhadas pelas montanhas e encontros com a aurora boreal. Entre as empresas turísticas que atuam em Lofoten estão a XX Lofoten e a Lofoten Tours

Quando ir
As ilhas Lofoten são um cenário perfeito para passeios ao ar livre. Portanto, vale a pena visitá-las nos meses mais cálidos (ou menos frios) do ano. Na Noruega, esses períodos ocorrem principalmente entre abril e outubro. Se seu objetivo for ver a aurora boreal, porém, espere por muita friaca. O fenômeno tende a ocorrer entre setembro e março.  

Três lugares para comer um bom bacalhau nas ilhas Lofoten
Restaurante Kjokkenet: Via Lamholmen, Svolvær
Bar e restaurante Bacalao: Via Havnepromenaden 2, Svolvær
Henningsvær Bryggehotel: Via Hjellskjæret, Henningsvær

Três lugares para comer carne de baleia nas ilhas Lofoten
Restaurante Kjokkenet: Via Lamholmen, Svolvær
Bar e restaurante Bacalao: Via Havnepromenaden 2, Svolvær
Restaurante Børsen Spiseri: Via Gunnar Bergs Vei 2,  Svolvær

*O jornalista Marcel Vincenti viajou a convite do escritório de representação norueguês Innovation Norway.

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