Ibitipoca

Guilherme Andrade/UOL
Visual da trilha no Circuito das Águas do Parque Estadual de Ibitipoca Guilherme Andrade/UOL

Um dos primeiros povoados de Minas, Ibitipoca fascina os visitantes com cachoeiras, grutas e uma natureza sem igual

"À vista dos belos campos que se apresentaram hoje aos meus olhares, não pude deixar de sentir verdadeiro aperto de coração pensando que logo os deixarei para sempre..." - Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853), botânico francês; trecho relatando sua passagem pela Vila de Conceição do Ibitipoca em 1822.

Encontrei cumplicidade nessas palavras antigas e emocionadas. Antes mesmo de deixar esse santuário natural no sul de Minas, já estava com saudades. Sinceramente, não fazia ideia do encantamento que me aguardava, um lugar onde águas mágicas e avermelhadas abrem caminho em rochas de quartzito. E tempestades elétricas dão nome ao lugar — em tupi, Ibitipoca quer dizer "serra que estoura".

Chegando de viagem, fui direto ao Parque Estadual de Ibitipoca, um dos mais belos e estruturados do país. Três circuitos percorrem os principais atrativos na unidade de conservação, uma área de 1.488 hectares. Aproveitei o calor de sol a pino para começar pelo Circuito das Águas, uma trilha leve que acompanha o Rio do Salto. Poços deliciosos para mergulho, duchas relaxantes e, de vez em quando, a vista de um casal de Ararinha ou Tucano do Bico Verde que cruzava a trilha. Não imaginava, porém, que o ponto (literalmente) alto do passeio ficava alguns passos à frente: a Ponte de Pedra, um arco de 25 metros de altura, escavado sem pressa pelas corredeiras. No final do dia, já sonhava em voltar. Ou mesmo seguir a vontade do coração, como fez o guia "Minhoca", morador de Ibitipoca há mais de 20 anos: "Vinha sempre passar férias aqui. Na hora de ir embora era aquela tristeza... Então decidi ficar de vez".

Voltei ao Parque na manhã seguinte. Desta vez, para percorrer os 16 quilômetros do Circuito Janela do Céu. A todo o tempo, uma flora exuberante acompanha o caminho; canelas de ema, bromélias de todos os tipos, orquídeas multicoloridas e muitas candeias e suas barbas de velho. Subindo a 1784 metros cheguei ao Pico da Lombada, ponto mais alto da Serra de Ibitipoca. E dividi com amigos alados uma visão única do mar de montanhas à volta. Uma espécie em particular me chamou a atenção, o Andorinhão de Coleira Falha. Em formação, o bando de Andorinhões dá um show de evolução e voos rasantes, passando por trás das cachoeiras e sumindo em labirintos de pedra. Incluindo numerosas grutas escondidas no topo da montanha, que no passado já serviram de abrigo para viajantes e escravos em fuga, uma atração à parte.

O melhor ainda estava por vir: a cachoeira da Janela do Céu, com 200 metros e sete quedas d'água. Dentro dos limites do Parque só é possível conhecer a primeira delas, a de cima, justamente onde está seu diferencial; uma espécie de "borda infinita" como há em algumas piscinas. Neste caso, naturalmente emoldurada pela floresta.

Para os que podem ficar até três dias (ou mais) em Ibitipoca, não faltam opções de passeio. Ainda dentro das fronteiras do Parque, o Circuito do Pião dá acesso ao segundo ponto mais alto das redondezas, o próprio Pico do Pião, com 1722 metros de altitude.

O Parque é sem dúvida a maior atração da Vila de Conceição do Ibitipoca, um dos primeiros povoados no estado. Sua natureza única, que tanto cativa botânicos, turistas e pesquisadores, já despertou também a cobiça pelo ouro, ali descoberto por bandeirantes em 1694.

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