Cidade de Goiás

David Santos Jr./UOL
A cidade de Goiás foi a capital do estado de mesmo nome até meados dos anos 1930 David Santos Jr./UOL

Cidade de Goiás preserva sua história, costumes e tradições

Quarta-feira de Semana Santa, noite de lua cheia. Na antiga capital do Estado de Goiás, os lampiões vão se apagando um a um, e o Centro Histórico, como nos tempos coloniais, fica novamente iluminado apenas pelo fogo de tochas. Nessa data especial, gente vinda de toda a parte se junta aos moradores para participar do Fogaréu, a procissão que simboliza a busca e captura de Cristo pelos guardas romanos. E continua sendo realizada desde 1745. À meia-noite em ponto, um grupo de quarenta pessoas — vestindo túnicas coloridas com capuz pontudo — dá início ao cortejo. São os Farricocos, ícones da cidade. A procissão segue em clima dramático, cadenciada pelo ritmo de tambores militares.

Fundada durante o ciclo do ouro, a Cidade de Goiás preserva sua história, costumes e tradições, resistindo à passagem dos anos. Ao cair da tarde, quando o forte calor dá uma acalmada, seus moradores, os vilaboenses, põem cadeiras à porta de casa e puxam papo, sem pressa. A vida segue em outra rotação, saudável e tranquila. Mesmo em plena era da Internet, os sinos das igrejas, tataravôs dos meios de comunicação, permanecem vivos em seu papel. Basta perguntar aos mais velhos: conforme o repique e o tom, são anunciados missa, casamento, procissão e enterro; nesse último caso, badaladas graves para homem e agudas para mulher. Ao sinal, como antigamente, o povo pergunta o nome de quem se foi.

Quase tricentenária, a cidade tem lendas como a do enterro de ouro, escondido nos casarões para escapar do fisco real e causando a quem o encontrar doença grave ou morte certa. E também sobre a proibição da Irmandade da Misericórdia de tocar na corda do condenado à forca, para evitar que a peça levasse antecipadamente um banho de aguarrás e se partisse "naturalmente" na hora necessária, livrando o acusado de culpa pelo legítimo sinal divino.

Mas impressionante mesmo é visitar o Museu das Bandeiras, onde funcionou a velha cadeia de 1766 até 1950. Qualquer um sente na alma a crueldade desumana de suas celas. Ali, sem camas nem luz do dia, o ambiente permanecia sempre úmido pelo sal jogado propositalmente ao chão de pedra. Como se não bastasse, não havia outro sanitário senão um grande barril, só retirado depois de cheio e que os próprios presos eram obrigados a carregar até o rio Vermelho para esvaziar.

Este rio, por sua vez, tem ligação direta com o passado e formação do núcleo urbano. Foi em suas águas que o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva fez a descoberta do ouro de aluvião, fundando em suas margens o Arraial de Sant'Anna em 1726. Em sua homenagem, o arraial passou a se chamar Vila Boa de Goyaz, prosperando e permanecendo como capital do Estado até 1937, quando houve a transferência do poder político e administrativo para Goiânia.

A mudança causou decadência no município, porém foi fator decisivo, juntamente com o declínio da produção de ouro ainda no século 18, para a preservação do conjunto arquitetônico setecentista, que afirmam os historiadores ser semelhante ao da cidade de São Paulo dos tempos coloniais. Casarões e igrejas começaram a ser tombados pelo Patrimônio Histórico ainda na década de 1950, e graças ao esforço e dedicação da comunidade, ganharam em 2001 o título de Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.

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