07/11/2009 - 11h59
Mosteiro português exibe em paredes "grafites" de 500 anos
Por Sílvia Reis, da agência Lusa Batalha, Leiria, 7 nov (Lusa) - Letras, antropônimos, cruzes de Santa Maria, um rosto humano e uma cegonha são alguns dos muitos "grafites" que ilustram, há 500 anos, as paredes internas e externas do Mosteiro da Batalha, patrimônio mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) desde 1983.
"É precisamente baseado mais no tipo de letra que surge que nos leva a afirmar que estes grafites não serão seguramente posteriores à segunda metade do século 16", disse à Agência Lusa o diretor do local, Júlio Órfão.
Alertando que sobre o assunto há "mais hipóteses do que verdades adquiridas", ele destacou, porém, "alguns avanços" no estudo dos desenhos, resultado do trabalho de historiadores, entre os quais destacou Saul António Gomes e Jorge Estrela.
Segundo o responsável, estão identificados dois grupos de grafites no mosteiro.
"Um conjunto localizado, sobretudo, no Claustro Real e um pouco por todo o monumento, também no exterior, nas Capelas Imperfeitas", disse Júlio Órfão, que acrescentou que devem ser sido desenhados "provavelmente com um ponteiro, talvez de argila, em que deixa o dióxido de ferro no calcário branco e macio, que depois vai tomando esta tonalidade avermelhada".
E se estes são os mais antigos do mosteiro, o mesmo não se pode dizer dos grafites que estão no Claustro de D. Afonso V.
"É um conjunto de pedras de traçaria, em que o grafite já nos aparece bem gravado", esclareceu Júlio Órfão, destacando que estes últimos são posteriores ao século 16.
Divergências
O responsável pelo mosteiro admitiu que as imagens podem ter sido feitas pelos trabalhadores do monumento, mas disse que os historiadores Saul António Gomes e Jorge Estrela divergem sobre "os grupos etários e até as categorias profissionais" dos que teriam feito os desenhos.
Citando Saul António Gomes, afirmou que "seria aceitável referenciar estes grafites como apontamentos basicamente juvenis".
Já Jorge Estrela, "até pela associação que faz da figura de muitos barcos a técnicas da construção naval - a parte inferior dos barcos é muito semelhante em alguns casos com as abóbadas do monumento -, provavelmente estará a se referir a um tipo de trabalhador mais maduro e com alguma experiência profissional".
Além dos desenhos, que Júlio Órfão afirma que reproduzem "algo que está, de certa maneira, associado ao monumento, à sua construção ou até às suas vivências", o mosteiro também foi ilustrado por "marginália".
São imagens que "teriam o mesmo significado aparecerem no Mosteiro da Batalha ou em outro monumento qualquer", explicou Júlio Órfão, que destaca, por seu número, os barcos ou naus que ilustram outras tantas paredes externas e internas do monumento.
Para o diretor do mosteiro, antes, como agora, os grafites são "um fenômeno de cultura marginal", feitos em "sítios menos apropriados" ou nos "sítios possíveis", como ocorreu no monumento.
O responsável afirma ser "possível e desejável" outros estudos sobre os múltiplos desenhos que o monumento apresenta, e lembra que "o mosteiro tem muita coisa descoberta, mas uma grande maioria ainda por descobrir".