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20/05/2009 - 09h30

Projeto de museu único na Europa está ameaçado em Évora

Lisboa, 20 mai (Lusa) - Dois colecionadores de arte espanhóis propuseram ao município de Évora (sul de Portugal) a construção na cidade de um museu de escultura contemporânea, único na Europa, com a sua coleção mas cansados de esperar, há dois anos, por um compromisso firme, admitem desistir em junho do local.

A prefeitura de Évora, apesar de acolher a iniciativa, alega falta de verbas para, por si própria, custear a transferência da coleção e a obra, que, reconhece, beneficiaria turística e culturalmente a cidade Patrimônio da Humanidade.

Natural de Évora, o presidente da Galp Energia, Murteira Nabo, que apoia a título pessoal tão "grande projeto para o país", salienta, por sua vez, que o estudo de viabilidade financeira do museu e de avaliação da coleção está concluído, ainda que há um mês, para que possa agora ser negociado um acordo com os proprietários das 250 esculturas.

Nem prefeitura nem colecionadores ou Murteira Nabo revelaram valores da cedência das obras de arte para o município de Évora e da construção do museu, próximo do centro histórico da cidade.

A ideia do Museu de Escultura Figurativa Internacional Contemporânea (MEFIC) em Évora começou a germinar depois de Eva Hernández Calderón e Antonio López Giménez terem se deslocado, "quase acidentalmente", à cidade e seus arredores para ver umas fazendas, em finais de 2006.

Os dois são donos de uma coleção de 250 esculturas figurativas e realistas de finais do século 20 e do século 21 de artistas de 22 países, incluindo Portugal, que foi iniciada na década de 80. Uma "autêntica aventura", dizem.

Eva Hernández Calderón e Antonio López Giménez, que também são proprietários de uma empresa de promoção de exposições e eventos culturais, lançaram a proposta do MEFIC ao prefeito de Évora, José Ernesto de Oliveira, que "se entusiasmou com a ideia de fazer um grande museu" na cidade com a coleção de ambos.

"Começaram os contatos e as conversações para tornar realidade o projeto", recordou, em declarações à Agência Lusa, Eva Hernández Calderón, frisando que, "depois de dois anos de negociações, (...) chegou o momento de dar o passo definitivo".

"Depois de dois anos de conversações, viagens, estudos, relatórios, encontros e mais encontros, estamos à espera de uma resposta definitiva. Esperamos até 1° de junho. A partir desse dia, a coleção será oferecida a outras cidades e Évora perderá a sua oportunidade", reforçou, adiantando que, na Espanha, "há muitas cidades interessadas" no museu, desde Múrcia, onde está armazenada grande parte da coleção, até Cuenca.

O prefeito de Évora confirma as conversações mas aponta a falta de dinheiro do município para abraçar, sozinho, a instalação de um museu "único, com uma coleção de arte figurativa hiper-realista valiosa em termos mundiais", que traria "muita gente" a Évora, cidade Patrimônio da Humanidade situada no "Eixo Lisboa-Madrid" e já visitada anualmente por "mais de meio milhão" de turistas.

"Temos interesse que a coleção venha para a cidade mas trata-se de encargos muito grandes, significativos, superiores ao que a prefeitura pode suportar", advogou à Lusa o prefeito, frisando que o município necessita de um "grupo alargado de parceiros públicos e privados que perceba a importância do projeto e se associe a ele".

Para José Ernesto de Oliveira, que defende um museu extensível à fotografia e pintura contemporâneas, as "circunstâncias atuais" de crise econômica "não são fáceis" para angariar apoios financeiros, pelo que as respostas de "entidades locais e nacionais" sondadas "têm sido prudentes".

"O custo é muito relativo, o edifício [do museu] é provavelmente o mais importante. Da nossa parte, estamos dispostos a ceder a coleção a Évora nas melhores condições econômicas, (...) por menos de metade do seu valor no mercado internacional", contrapõe a colecionadora Eva Hernández Calderón, que é igualmente historiadora de arte, co-gestora de uma galeria em Múrcia e diretora da revista "A Máquina Contemporânea".

A coleção, assegura, "é única" na Europa e nos Estados Unidos, por ser "especializada em escultura figurativa e realista internacional de finais do século 20 e do século 21".

Integra os nus femininos de John de Andrea, o "pai" do hiper-realismo norte-americano, os anjos mortos e homens com armaduras aos quadrados dos portugueses Jorge Abade e Pedro Pires, a rainha Isabel 2° pornográfica do italiano Paolo Schmidlin, os animais do espanhol Carlos Revenga, os meninos do holandês Harma Heikens, os rostos do australiano Sam Jinks e os bonecos infantis do japonês Yoshitomo Nara.

Uma pequena parte das peças, mais de duas dezenas, está exposta em museus na Alemanha, no Canadá e nos Estados Unidos.

Otimista e desconhecendo o prazo-limite de cerca de duas semanas imposto pelos colecionadores para um compromisso formal, o presidente da Galp Energia, Murteira Nabo, que se associou ao projeto por afetividade à terra onde nasceu, considera que estão agora reunidos os pressupostos para ser negociado um acordo com a dupla espanhola.

O estudo de viabilidade financeira do museu e de avaliação internacional da coleção, a cargo de uma equipe de seis especialistas, está pronto, ainda que há um mês, justificou.

Murteira Nabo crê que, no fim do ano, haverá condições para se ter um "plano de definição e calendário de execução da obra", que demorará "no mínimo dois a três anos" a ser concretizada.

"Logo que tenhamos acesso a um plano de ação, será altura de abordar as instituições financeiras", incluindo a banca e o Estado, afirmou à Lusa, enaltecendo a importância de uma "coleção de grande dimensão, valor e nível internacional".

Algumas das esculturas dos dois colecionadores espanhóis vão poder ser vistas, este ano, na Bienal de Vila Nova da Cerveira e na Art Lisboa - Feira Internacional de Arte de Lisboa.

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