Desde o último dia 23 de junho, quando o Ministério da Saúde do Brasil recomendou evitar a Argentina como destino por conta da gripe suína, o turismo verde e amarelo pelo país caiu em média 50%. Se essa retração se mantiver até o final do inverno, as perdas devem chegar a 130 milhões de dólares. O cálculo está baseado em cifras oficiais, no entanto, conservadoras diante das estimativas privadas, que projetam uma queda de até 70%.
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turistas brasileiros
vieram à Argentina em 2008. Um terço deles (284.210) na temporada de inverno. Com média de 150 dólares de consumo diário, são os que mais deixam dinheiro no país, além de terem estadas mais compridas: média de 6/7 noites. Quase 58% hospedam-se em hotéis de quatro ou cinco estrelas.
São Carlos de Bariloche, outrora 'Brasiloche', é a cidade argentina mais castigada, com uma queda oficial de 60% no turismo. O setor local calcula perdas em torno de 40 milhões de dólares com hotéis e serviços, sem incluir a falta de consumo (em restaurantes e comércios, por exemplo). De 250 voos charter no ano passado, com sorte, Bariloche pode chegar a 100 em 2009.
"Entre 4 e 18 de julho, a queda chegou a 80%", explica Héctor Barberis, presidente da Empresa de Promoção Turística de Bariloche. "Dito de outra maneira: são 20 mil brasileiros a menos na temporada, que gastam em média dois mil dólares na cidade em hotéis e passeios", completa. O auge do contágio da gripe suína na Argentina coincidiu com o início das férias de inverno no Brasil.
Temporada perdidaOnde antes se fazia fila, agora há mesas vazias. Lojas e agências de turismo que dependiam dos brasileiros fecharam as portas. Operadores de turismo, empresários e comerciantes concordam: esta é a pior temporada de inverno dos últimos 40 anos. A crise financeira internacional e a falta de neve do começo da temporada também colaboraram com a queda no fluxo de turistas, mas nada teve tanto impacto como o temor à gripe suína.
Numa das mais frequentadas cervejarias de Bariloche, a Berlina, o sócio-gerente Franco Ferrari contabiliza o prejuízo: "Eu me endividei e, por mais que os brasileiros venham, não há mais como recuperar o negócio nesta temporada", lamenta. Mônica Torres, responsável pelo Tante Frida, um dos mais disputados salões de chá e chocolates, passa pela mesma situação. "O pior é que aqui em Bariloche nem houve tantos casos de gripe, mas as pessoas generalizaram", resigna-se.
Apesar de ser a cidade mais castigada pela falta de brasileiros, Bariloche foi uma das que menos registrou casos de gripe suína. Até 8 de agosto a Argentina teve quase 800 mil casos da doença. Foram 404 mortes que deixam o país apenas atrás dos Estados Unidos. Em Bariloche, a gripe fez 29 casos, apenas cinco deles autóctones, nenhum caso entre brasileiros e nenhuma morte.
Na fábrica Frantom, o gerente Martín Seijo ilustra: "Fabricávamos 900kg de chocolate por dia; agora 400kg". O complexo turístico do teleférico Otto, um dos mais tradicionais da cidade, também contabiliza a queda. De 2.200 pessoas que o centro costumava receber por dia; restaram apenas 800. O gerente Oscar Borrelli assinala como exemplo os balcões vazios das agências brasileiras de turismo no setor de embarque da atração. Operadoras como Agaxtur, Calcos, Fênix, CVC e Tam Viagens sempre precisam abrir balcões para administrar os 18 mil brasileiros que traziam ao Otto no inverno. Neste ano, os balcões estão vazios. Não há nem filas para embarcar no teleférico.
Sem gripe, brasileiros aproveitamQuem saiu ganhando com tudo isso foi quem veio. Além de conviver sem preocupação com a gripe suína, o turista encontrou uma cidade em oferta. De Natal (RN), o casal Geórgia e Manuel Lopes Neto confessa que teve medo antes de chegar a Bariloche. "Quem nos convenceu foi o nosso amigo médico", brinca Manuel enquanto aponta para o doutor Nicholás Gabriel. "Em Natal, estudei e recebi treinamento do Ministério da Saúde do Brasil para justamente acalmar os ânimos das pessoas", confirma Nicholás. "Fiquei mais tranquilo quando cheguei aqui. A imagem de medo que se vende no Brasil é maior do que a realidade", conclui Manuel. "Não há nenhuma paranóia. Não se vêem máscaras. Não se sente nada", concorda Geórgia.
De Recife (PE), Hérika Pinheiro veio com toda a família, preparada para o pior. "Não tinha ninguém no nosso voo até Buenos Aires. Os assentos vazios. E vimos poucos brasileiros. Mas parecíamos ETs diante dos argentinos. Ninguém com sintomas de gripe, não há máscaras. Vida normal", surpreende-se.
O casal Júlio César da Silva e Idamis dos Santos, de Pindamonhangaba (SP), também admite o temor antes de vir, mas encarou a viagem e viu até mais vantagens. "Há menos tumulto e os preços despencaram. Cerca de 40% mais baixos do que no ano passado. Está tudo mais barato. Quem não veio, perdeu um grande passeio. Nós já estamos planejando voltar no ano que vem", garante Idamis. De Lajeado (RS), Carmen e Pedro Pozzebon enumeram as vantagens que os brasileiros encontram: "promoções por todos os lados, preços baixos em geral, menos tumulto e, para completar, o real ainda se valorizou frente ao peso nas últimas semanas".
Argentina em ofertaPara reverter o impacto da queda do seu principal cliente, o Instituto de Promoção Turística (Inprotur, equivalente à Embratur no Brasil) e as nove agências brasileiras mais importantes na emissão de turistas ao país iniciaram uma campanha publicitária com ofertas. Até o final de setembro, nunca terá sido tão barato viajar à Argentina.
"Preferimos usar o termo 'conveniente' porque não queremos passar a ideia de perda da qualidade dos serviços. Esta é uma grande oportunidade", define Marcela Cuesta, coordenadora de promoção no Mercosul.
A mesma gripe suína que afastou os brasileiros permite agora encontrar pacotes turísticos tentadores. Passar um fim de semana em Buenos Aires, com tudo incluído (aéreo, hotel quatro estrelas, passeios, traslados e seguro de viagem), sai por 264 dólares, para quem vem de São Paulo, por exemplo. Quatro dias em Bariloche (com neve até outubro), com tudo incluído (aéreo, hotel, excursões, traslados e seguro de viagem), custa 467 dólares.
Os hotéis argentinos vivem uma reviravolta em termos de preços e as redes buscam um novo posicionamento no mercado brasileiro. A ordem é aproveitar para ganhar terreno no Brasil. "Sabemos que dificilmente se repetirá uma conjuntura tão favorável para o brasileiro vir à Argentina e apostamos em ter outra projeção para quando se normalizar o fluxo", revela Jorge Tito, gerente geral do Sofitel Buenos Aires.
"O grande termômetro da campanha será o feriado de 7 de Setembro, que também coincide com o jogo (dia 5) entre as seleções brasileira e argentina de futebol", indica Marcela Cuesta da Inprotur.