São grandes as esperanças em alguns círculos de que a presidência de Obama devolverá algum brilho à imagem de Washington como um brilhante centro cultural e social. Na verdade, as duas últimas décadas discretas foram mais uma exceção do que a regra. Por grande parte dos séculos 19 e 20, Washington contava com pelo menos mil pontos de luz em uma paisagem social vibrante.
A maioria daqueles prédios palacianos ao longo da Massachusetts Avenue ou agarrados às encostas do Rock Creek Park foi construída não como embaixadas, mas como lares dos ricos e bem-nascidos do país, que vinham à cidade para passar pelo menos parte do ano (geralmente em janeiro, para a abertura do Congresso) convivendo com a elite política. E havia aqueles que viviam ali em tempo integral, servindo no quadro do governo ou diplomático, e outros atraídos para a cidade por sua mistura inebriante de cultura e poder.
Museu Têxtil, montado na antiga residência de seu fundador, George Hewitt Myers, que tinha paixão por tapetes orientais; há residências repletas de tesouros em Washington
Com eles veio a pompa de uma vida refinada -importantes coleções de arte, bibliotecas e móveis finos, tudo isso bem instalado em suas casas de exibição.
Muitos vestígios dessa era mais profusa permanecem na forma das mansões repletas de arte e casas-museu históricas que contam uma história fascinante da vida política, social e cultural da capital do país. Muitas adicionam uma boa dose de personalidade aos Picassos e porcelana fina. Assim, enquanto o mundo fica obcecado com os novos moradores do Nº 1600 da Pennsylvania Avenue, agora é um ótimo momento para checar alguns dos outros endereços interessantes do distrito.
O principal entre eles é
Hillwood, a antiga residência da herdeira e patrona das artes Marjorie Merriweather Post, um museu que se rotula como o lugar "Onde Vive o Fabuloso". Construída nos anos 30, a ampla mansão de tijolos em estilo georgiano fica situada em meio a mais de 100 mil metros quadrados de jardins planejados e mata nativa.
Post comprou a propriedade em 1955 e a reformou para abrigar sua extensa coleção de arte. Do lado de fora há uma estufa com centenas de orquídeas, uma dacha russa e uma casa de campo estilo Adirondack.
Herdeira de uma fortuna de cereais, Post, que morreu em 1973 aos 86 anos, sabia como viver de forma opulenta, e visitando sua antiga residência é possível sentir que ela admirava a mesma característica nos outros. Ela tinha uma afinidade especial por Maria Antonieta e frequentemente se vestia como a malfadada rainha francesa para suas festas de gala. Uma exposição chamada "Um Convite para o Baile", a partir de 14 de março, destacará uma seleção de suas fantasias dos anos 20.
É possível vislumbrar a qualidade da coleção e um senso da lendária hospitalidade de Post ao entrar na casa principal. "La Nuit" ("A Noite"), uma pintura sensual em tamanho natural de uma mulher nua curvilínea coberta em parte por um véu preto, de autoria de William-Adolphe Bouguereau, um pintor francês do século 19, está pendurada no guarda-roupa. Ele parece deslocado ali, até se descobrir que o guarda-roupa era originalmente um vestiário masculino, para o qual Post considerou o quadro uma escolha adequada.
O restante da casa de 36 quartos é igualmente extravagante, com quarto após quarto de requintadas artes decorativas francesas do século 18, como móveis de marchetaria, tapeçarias e inúmeros jogos de porcelana de Sèvres e outros -um dos guias de áudio até mesmo é intitulado "Reis, Rainhas e Sopeiras".
O terceiro marido de Post, Joseph E. Davies, foi embaixador na União Soviética, e foi lá, no final dos anos 30, que ela começou a adquirir uma série de artes decorativas russas -paramentos litúrgicos bordados em ouro, ícones religiosos e peças decorativas imperiais- enquanto Stalin vendia as coleções expropriadas pelo Estado para financiar a industrialização. Post acabou reunindo cerca de 80 trabalhos do lendário Peter Carl Fabergé, variando de bibelôs como um umedecedor de selos ao famoso Ovo de Páscoa de Catarina, a Grande, que o czar Nicolau 2º presenteou à sua mãe em 1914.
Museu Kreeger abriga esculturas e cerca de 200 pinturas notáveis de pintores como Degas, Cézanne, Van Gogh, Picasso, entre outros
Apesar de igualmente repleto de riquezas artísticas, o
Museu Kreeger, que está celebrando seu 15º aniversário neste ano, parece muito distante de tamanha pompa imperial. Construída em 1967 pelo arquiteto Philip Johnson como residência privada de David Lloyd Kreeger, na época o presidente-executivo da seguradora Geico, e sua esposa, Carmen, a casa é um pavilhão repleto de luz, quase como um templo, que é ao mesmo tempo moderna e clássica, assim como totalmente tranquila.
Apesar de não ter sido construída como museu (os amigos simplesmente batiam à porta e pediam para ver a coleção), ela é de fato perfeita para esta função. Ao longo das paredes de travertino estão penduradas cerca de 200 pinturas notáveis dos anos 1850 até os anos 1980, de pintores como Degas, Cézanne, Van Gogh, Picasso, Braque, Klee, Kandinsky, Miró, Man Ray e Frank Stella. Um delicado móbile de Calder está pendurado sobre a escada que leva a exposições de máscaras africanas e esculturas.
Um terraço com vista para a piscina e o jardim dos fundos exibe esculturas de grandes mestres como Henry Moore, Aristide Maillol e Isamu Noguchi.
Patronos das artes em Washington por toda sua vida, os Kreegers tinham que concordar com cada pintura que adquiriam e a coleção abrangente e diversa fornece um vislumbre de sua paixão compartilhada pela arte. Na antiga sala de jantar, uma parede de radiantes paisagens de Monet fica em frente à vista do jardim pela janela.
O hall central tem uma acústica excelente e era frequentemente cenário de concertos nos quais Kreeger tocava seu violino Stradivarius ao lado de Isaac Stern ou Pablo Casals.
Interessados por arquitetura vão querer ver outra galeria de Philip Johnson, esta em
Dumbarton Oaks, uma impressionante propriedade em Georgetown que Robert Woods Bliss e sua esposa, Mildred Barnes Bliss, deixaram para a Universidade de Harvard. Morando em Paris nos anos que antecederam à Primeira Guerra Mundial, os Blisses começaram a colecionar arte e tecidos bizantinos e pré-colombianos, que na época não eram particularmente valorizados.
Eles compraram a propriedade em 1920, ampliando consideravelmente a casa existente para criar um espaço de galeria para as coleções e biblioteca. A sra. Bliss trabalhou com Beatrix Farrand para projetar os amplos jardins com terraços, que são impressionantemente belos em qualquer estação.
Em 1959, Johnson foi contratado para projetar as galerias para a coleção deslumbrante de arte pré-colombiana, incluindo jóias de ouro reluzentes, cerâmicas pintadas com padrões geométricos brilhantemente coloridos e figuras de animais entalhadas em jade e turquesa. Situada em meio às árvores atrás da casa principal, as galerias compactas e com paredes de vidro de Johnson, quase cilíndricas, encorajam a contemplação intimista destes tesouros em pequena escala.
O restante do museu, incluindo as galerias para os mosaicos, esculturas e tecidos romanos e bizantinos, recentemente passou por uma ampla reforma que talvez tenha corrigido parte dos espaços desajeitados, mas que os deixou um pouco frios e pouco convidativos. A loja, que oferece muitos produtos do jardim, como broches de folha em cobre feitos com moldes das folhas dos carvalhos locais, vale a pena ser visitada.
A poucas quadras de distância é possível encontrar uma casa histórica de nome semelhante, mas não relacionada, a
Casa Dumbarton, um museu de arquitetura, móveis e artes decorativas do período federalista, além da sede da Sociedade Nacional das Damas Coloniais da América. A casa, cuja construção teve início em 1798, dois anos antes do governo federal se instalar em Washington, viu muita história. Dolley Madison se refugiou nela enquanto fugia do incêndio da Casa Branca e do avanço das tropas britânicas em 1814.
Dobrando a esquina fica a
Tudor Place, o lar de sucessivas gerações da família Peter, descendentes de uma das netas de Martha Washington, Martha Custis Peter. Ela foi projetada por William Thornton, o arquiteto da Octagon House assim como do primeiro Capitólio dos Estados Unidos, que foi reduzido a cinzas pelos britânicos em 1814.
Os Peters, que moraram em Tudor Place de 1805 até 1984, tinham um papel social ativo na cidade. O marquês de Lafayette foi convidado de jantar, assim como muitos dignitários que passaram por Washington durante os quase dois séculos que a família viveu na casa. Robert E. Lee se casou com uma prima dos Peters, e antes das árvores de Georgetown ficarem altas demais, a Casa Arlington, com suas colunas brancas e onde ele morava, podia ser vista do alto da colina de Tudor Place.
Os destaques da coleção incluem mais de 100 objetos de Mount Vernon que foram comprados por Martha Custis Peter na venda da propriedade realizada após a morte de sua avó. Além da graciosa arquitetura neoclássica, parte do charme de Tudor Place está no fato de não estar congelada em qualquer década específica, mas revelar uma rica pátina de história.
A visita de 45 minutos parece como uma passagem rápida pela história americana contada com uma série interminável de casos interessantes. Onde mais é possível encontrar a poncheira e a mesa de chá de George Washington em uma sala e um retrato ternamente esboçado da tataraneta de Martha Washington, pintado por Cecilia Beaux, na sala ao lado?
Em Washington, sempre vale a pena lembrar a lição do Museu Kreeger: se você vir um prédio que poderia ser um museu, bata na porta. Na maioria das vezes, você não apenas será autorizado a entrar, mas também poderá ser guiado ou receber um guia de áudio.
Eu morei virando a esquina da
Casa Anderson, um museu e sede da Sociedade do Cincinnati, por mais de um ano antes de me aventurar a descobrir o que havia em seu interior. Escondido por trás de seu nome que soa exclusivo e fachada imponente na Massachusetts Avenue se encontrava um impressionante palácio da Era Dourada, construído para outro casal encantador de riqueza aparentemente infinita.
Larz Anderson 3º foi um diplomata de carreira que acabou servindo como embaixador no Japão, e sua esposa, Isabel, era uma das herdeiras mais ricas de sua época e escreveu mais de 40 livros infantis e de viagem. O casal era dono de um iate, no qual percorreram toda a Costa Leste, e uma casa-barco; seus criados britânicos vestiam uniformes do século 18.
A mansão deles de 50 quartos em Washington, que foi concluída em 1905, servia como casa de inverno e foi projetada para o tipo de entretenimento em grande estilo que poderia promover a carreira de Anderson.
Ela contava com murais ornamentados e hectares de painéis de madeira entalhada e pisos de mármore com mosaicos. Os tesouros ainda presentes na casa incluem tapeçarias flamengas que antes pertenciam ao cardeal Barberini, o núncio papal para a França no início do século 17 e sobrinho do papa Urbano 8º; uma fruteira de malaquita trazida de uma viagem à Rússia; e biombos pintados e caixas laqueadas japonesas.
A poucas quadras a oeste na S Street fica a
Casa Woodrow Wilson -o único museu presidencial da cidade- para onde o presidente Wilson se mudou após deixar a Casa Branca em 1921. Sua conservação torna a casa um livro de história vivo da vida moderna americana nos anos 20, completa com vestidos melindrosa e pias galvanizadas.
E ao lado fica o
Museu Têxtil, montado na antiga residência de seu fundador, George Hewitt Myers, cuja paixão por tapetes orientais nasceu quando comprou um para seu quarto de dormitório em Yale. Em exposição no museu até 8 de março está "Do Timbuktu ao Tibete: Tapetes e Tecidos dos Hajji Babas", uma coleção vibrante de têxteis de tecedura ousada das tribos nômades do Oeste da África até os tapetes felpudos e veludos sedosos reluzentes produzidos na Pérsia e no Himalaia.
Com residências repletas de tesouros como estas, Washington poderia facilmente reconquistar sua reputação como capital mundial pelo simples estudo de sua própria história de estilo de vida extravagante e autoindulgente.
Tradução: George El Khouri Andolfato