Os franceses elevaram muitas coisas à alta arte: moda, flerte, foie gras. O chocolate não é exceção. Com butiques que exibem trufas como se fossem diamantes, a experiência de visitar as chocolaterias parisienses pode ser sublime.
O problema, é claro, é espremer o máximo possível dessas visitas indulgentes sem deixar de dar a devida atenção ao restante da cidade. Minha solução: dedicar um dia inteiro às butiques de chocolates, e fazê-lo com estilo. Assim, na minha última visita a Paris, eu usei o sistema público de aluguel de bicicletas Vélib' e elaborei um circuito para duas rodas passando por oito chocolateiros de excelente reputação.
O Vélib' - ciclovias de aspecto industrial que já são ícones do chique parisiense apenas um ano e meio após a cidade ter dado início ao programa - tornou o banquete móvel mais divertido. Passando das pralinas aos pavês, eu pedalei pela Torre Eiffel, atravessei o Sena e percorri as ruas de St.-Germain-des-Prés ao lado de outros ciclistas: parisienses em vestidos de verão e ternos executivos, com suas cestas frontais carregando pastas, baguetes e, às vezes, até mesmo terriers Jack Russell.
Pelo aspecto prático, as bicicletas são essenciais. De que outra forma eu cobriria cinco arrondissements no mesmo espaço de horas, compensando simultaneamente um dia de excessos?
O hedonismo começou no centro da cidade, com o mestre mais antigo da minha lista, Michel Cluizel (201, rue St.-Honoré; 33-1-42-44-11-66;
www.chocolatmichelcluizel-na.com), que faz chocolates desde 1948. A uma curta distância de uma estação do Vélib' no cruzamento das ruas de l'Echelle e St-Honoré, eu passei por lojas de luxo exibindo vestidos ondulados e sapatos boneca com salto alto de 10 centímetros e entrei dentro de um lugar simplesmente divino: uma loja onde chocolate derretido jorra de uma fonte e as prateleiras estão repletas de barras contendo até 99% de cacau.
Na loja do sr. Cluizel, administrada por sua filha, Catherine, eu descobri o macarolat (1,55 euro, ou cerca de US$ 2, com o euro cotado a US$ 1,29). Uma versão em chocolate do macaroon, ele possui uma concha de chocolate preto recheada com amêndoa e pralina de avelã, ambas moídas grosseiramente para dar uma textura rica, granulada. Foram duas mordidas combinando cremoso com crocante, sensação instantânea com sutileza. Mas foram apenas duas mordidas; eu queria mais.
Uma rápida pedalada me levou às portas de Jean-Paul Hévin (231, rue St-Honoré, 33-1-55-35-35-96;
www.jphevin.com). Uma mistura moderna de decoração em madeira preta, pisos de ardósia e paredes iluminadas por trás, onde caixas de bombons em cor de cobalto estão exibidas, o espaço pareceria intimidante se não fossem pelos atendentes, que são tanto numerosos quanto graciosos no trato das multidões que olham desejosamente para os macaroons de manga e coentro e bolos Pyramide. Após um debate considerável - seria uma glutonice ridícula comer tão cedo um "choco passion" (chocopaixão), um bolo de cacau com musse de chocolate, ganache de chocolate e bolinho de pralina? - eu optei por um bûche de caramelo (3,20 euros). Maior do que um bombom mas menor do que uma barra de chocolate Hershey, o caramelo sedoso enrolado em delicado chocolate preto me elevou às alturas.
Com o sabor de chocolate salgado ainda na minha língua, eu peguei uma bicicleta no lado externo do Hotel Costes, entortando o pescoço para espiar alguma celebridade - aqueles não eram o Sting e a Trudie? Beyoncé e Jay-Z?- e parti para o 16º Arrondissement.
Passando a Place de la Concorde eu entrei na Avenue Gabriel. Ela é uma rua curva que passa tanto pela Embaixada dos Estados Unidos quanto pelo Espace, a vitrine da Pierre Cardin para jovens artistas, antes de entrar em uma passagem estreita, margeada por cafés, onde é preciso ziguezaguear entre caminhões de entrega estacionados em fila dupla. Na esperança de evitar os turistas de olhos arregalados na paralela Champs-Élysées e os carros que circulam perigosamente pela rotatória do Arco do Triunfo, eu tomei as ruas laterais residenciais até a Avenue Victor Hugo.
Foi nesse endereço que encontrei o mais excêntrico chocolateiro na minha lista: Patrick Roger (45, Avenida Victor Hugo; 33-1-45-01-66-71;
www.patrickroger.com). Não são apenas as esculturas de chocolate (um fazendeiro em tamanho real, por exemplo), arranjos sazonais de vitrine (uma família de pingüins, também em tamanho real) ou as embalagens azul-marinho enfeitadas pelas quais ele é conhecido: mas seus bombons de sabor intenso, mais ousados impossível.
Eu considero Patrick Roger notável, já que ele combina novos sabores incomuns", disse David Lebovitz, um connoisseur de chocolate americano, autor de "The Great Book of Chocolate" e morador de Paris. Mas, ele acrescentou, Rogers "não faz sabores estranhos apenas para ficar na moda, como outros tendem a fazer em Paris atualmente".
Eu provei alguns para confirmar. O Jamaica tem um rico sabor de café de grãos moídos de café arábica; o Jacarepagua mistura coalhada de limão e hortelã fresca, e o Phantasme, feito de... flocos de aveia. Cada um custa menos de 1 euro.
Passados aproximadamente 90 minutos de passeio, eu provei cremosos, salgados e azedos e cruzei um bom trecho da cidade. Eu estava intoxicada - de Paris e açúcar - enquanto passava sob as altas castanheiras e plátanos da Avenue Kleber na direção da Place du Trocadéro, na 16º Arrondissement. Serpenteando pelas ladeiras íngremes da Rue Benjamin Franklin e pelo Boulevard Delessert, passando por cafés românticos e edifícios de pedra calcária, alternadamente beges e cinzas, dependendo da luz, eu me senti como se estivesse em um vilarejo gaulês pitoresco, não na capital. Isso até cruzar o rio na direção do maior marco de Paris: a Torre Eiffel.
Piscavam flashs de câmeras digitais, suvenires eram mascateados e regimentos de ônibus de turismo aguardavam em um grande zunido mecânico. Era como se todo estrangeiro presente na cidade tivesse se dirigido para lá naquele momento. Eu não expirei até entrar no discretamente sofisticado 7º Arrondissement.
Michel Chaudun (149, rue de l'Université, 33-1-47-53-74-40) é extremamente talentoso tanto como artista quanto como escultor de chocolate (suas aquarelas decoram a loja juntamente com ovos Febergé e estátuas africanas de chocolate), sem contar sua reputação de ser um dos melhores chocolateiros do mundo. Após 22 anos transformando cacau em bombons sublimes, ele é responsável por influenciar muitos da mais nova geração de chocolateiros da cidade.
Seus pavês são particularmente adorados. São quadrados no tamanho de cubos de açúcar de ganache polvilhado de cacau que você espeta com cuidado na caixa com um palito de dente e então permite que derreta um pouco na língua antes de morder sua rica cremosidade. Frescos e estimulantes, eles também são hipersensíveis à temperaturas quentes. O que significa que se tentasse guardar alguns para mais tarde, eles se transformariam em uma poça de chocolate.
Entrar e sair da Vélib' com tamanha freqüência causou uma certa dose de problemas. O cinismo parisiense deu as caras quando um homem revoltado em uma estação me disse que 90% das bicicletas não funcionam. Eu não diria que bicicletas com defeito foram tão freqüentes, mas eu aprendi uma lista de conferência essencial: os pneus estão murchos? Os aros estão retos? A cesta dianteira está intacta? As marchas funcionam? A correia está no lugar? Após a conferência desses itens, você pode partir, como fiz após saborear o último pavê da minha modesta caixa de seis (3,40 euros).
Cruzando as praças diante de Les Invalides eu passei por estudantes lançando frisbees e velhos jogando pétanque (bocha francesa). À minha direita, o domo dourado de Les Invalides; à minha esquerda, mais dourado coroando a ornamentada ponte Alexandre 3º. Esta era de fato uma jornada decadente.
Finalmente, no 6º Arrondissement, parecia que eu podia atirar um M&M em qualquer direção que atingiria um chocolateiro de classe mundial. Havia o fantástico Jean-Charles Rochoux (16, rue d'Assas, 33-1-42-84-29-45;
www.jcrochoux.fr), onde esculturas de chocolate extravagantes de gnomos de jardim escondem a arte séria de suas trufas.
Christian Constant (37, rue d'Assas, 33-1-53-63-15-15) exibe excelência nos traços condimentados e florais como açafrão e ylang-ylang. Pierre Marcolini (89, rue de Seine, 33-1-4407-3907;
www.marcolini.be), o único belga do grupo, oferece chocolate 75% preto de sete regiões sul-americanas e africanas. Voando baixo, eu pretendia concluir o circuito em grande estilo.
A fila serpenteando para fora da pequena butique de Pierre Herme (72, rue Bonaparte, 33-1-43-54-47-77;
www.pierreherme.com) me dizia que eu estava fazendo a coisa certa. Quando passei pela portas automáticas, era (me perdoe!) como ser uma criança em uma loja de doces: fileiras impecáveis de bolos adornados com frutas frescas, grãos de café e raspas de chocolate preto.
"Un Plenitude, s'il vous plait."Eu levei meu tesouro até um parque próximo e mergulhei no bolo em forma de domo recheado de ganache e musse de chocolate, caramelo crocante e fleur de sel. Eu desfrutei de sua fofa riqueza, do sabor do chocolate preto e do toque de sal. Eu teria morrido e ido para o céu? Não, foi apenas um dia arrebatador na Cidade Luz e do chocolate preto.
Pedalando por PavêsApós dobrar o número de bicicletas desde o início do programa na metade do ano para 20.600, o Vélib' de Paris (
www.velib.paris.fr) agora é o maior programa de bicicletas gratuitas na França. Há 1.451 estações na cidade, ou aproximadamente uma a cada 275 metros. Cada estação possui entre 15 e 20 bicicletas. As bicicletas são simples: três marchas, assento ajustável, campainha, cesta e farol.
Ao comprar um passe diário ou semanal em um quiosque localizado na estação, você pode escolher qualquer bicicleta e deixá-la no próximo destino. Para liberar a bicicleta, você insere seu código de acesso pessoal no quiosque.
Apesar de ser chamado de programa de bicicleta gratuita (Vélib' é uma abreviação de vélo libre, ou bicicleta livre), o passe diário custa 1 euro. A primeira meia hora na bicicleta não tem custo adicional, a segunda meia hora custa um 1 euro, a terceira meia hora custa 2 euros. Depois disso, são 4 euros para cada meia hora. Quanto mais breve sua viagem, menor o custo. Meu custo total por cinco horas foi de 12,60 euros, ou cerca de US$ 16,15 com o euro cotado a US$ 1,29.
Tradução: George El Khouri Andolfato