UOL Viagem Notícias

26/08/2008 - 23h26

Na Sardenha, um playground dos bilionários se torna mais acessível

SETH SHERWOOD
New York Times Syndicate

Fotos Chris Warde-Jones/NYT

Vista de Porto Cervo, uma aldeia moura medieval na Costa Smeralda, na Sardenha, Itália

Vista de Porto Cervo, uma aldeia moura medieval na Costa Smeralda, na Sardenha, Itália

Quando Patrick Behr soube que o Billionaire, o famoso clube noturno decadente da Sardenha, realizaria sua abertura de gala anual no último fim de semana de junho, ele decidiu que seria a ocasião perfeita para descobrir a vida noturna do canto nordeste chique da ilha, mais conhecida como Costa Smeralda (Esmeralda).

Então Behr, um viajante mundial que vive em Frankfurt, reservou uma mesa e partiu às pressas para o resort mediterrâneo acompanhado de uma amiga. "Nós apenas queremos festejar esta noite e amanhã à noite!", ele berrou em meio ao hip hop em alto volume do clube. A Costa Smeralda o atraiu, ele disse, porque ouviu dizer que era "luxuosa, muito bonita e extraordinária".

Ao seu redor, o Billionaire estava à altura de seu nome bombástico. Astros da televisão italiana e deuses do futebol andavam sobre os tapetes orientais para conversar com as equipes de TV européias. O dono grisalho do clube, Flavio Briatore, se reclinava como um sultão em meio às garrafas da carta de champanhes do clube, que conta com uma methuselah (meros seis litros) de Cristal por 35 mil euros. Periodicamente, Briatore, o qüinquagenário magnata da Fórmula 1, se levantava para receber os visitantes do clube, que no ano passado incluíam Denzel Washington, Lenny Kravitz e Bruce Willis.

Absorvendo a cena, Behr, 33 anos, parecia totalmente dentro de seu elemento. Exceto por duas coisas: ele não é nem um músico detentor de disco de platina nem um presidente-executivo com salário de sete dígitos, mas um humilde acadêmico, um professor assistente de finanças. E ele chegou à Sardenha não em um jato Gulfstream, mas por uma pequena companhia aérea chamada Air Italy, que serve o recém-ampliado aeroporto na cidade vizinha, Olbia.

"É uma companhia aérea barata", explicou Behr, que disse que sua passagem custou 95 euros, cerca de US$ 145, com o euro cotado a US$ 1,60 —cerca de um quinto do preço da mesa que ele reservou no clube. "Eu viajo muito, mas não gasto muito porque não tenho muito para gastar."


Pôr-do-sol no Phi Beach, um clube ao ar livre na Costa Smeralda que preza a liberdade e não tem seguranças


Antes o ponto mais remoto e inacessível dentre os destinos de escapada do jet set mediterrâneo —a Riviera Francesa, Capri, Marbella, Ibiza —, a pitoresca Costa Smeralda está atraindo mais novos visitantes do que nunca, graças em parte ao novo terminal em Olbia. Concluído em 2004 e três vezes maior do que seu antecessor ultrapassado, o terminal está adicionando rotas e companhias aéreas européias a cada ano, incluindo companhias aéreas baratas. Como resultado, as chegadas internacionais mais que dobraram.

De fato, o terminal moderno e elegante é emblemático dos novos ventos que sopram pelas colinas cobertas por florestas de pinheiros da região. A comunidade tradicionalmente arredia e séria tem dado as boas-vindas a uma série de espécimes antes desconhecidas em seu meio: hotéis atraentes de preço acessível, jovens talentos culinários, espaços culturais de vanguarda e pontos de festa cheios de estilo e abertos a todos.

É um capítulo novo e bem-vindo para a Costa Smeralda, que foi originalmente criada para receber as classes aristocráticas e as celebridades, mais ou menos de forma exclusiva.

Refúgio suntuoso de um príncipe

O conto dourado começou, de forma apropriada, com um príncipe. No início dos anos 60, o príncipe Karim Aga Khan 4º, o líder espiritual de cerca de 20 milhões de muçulmanos xiitas ismailitas, ficou encantado pelas águas verdes transparentes da região nordeste da ilha, que na época era pouco habitada e pouco conhecida, e formou um consórcio de amigos, que comprou quilômetros de terras costeiras dos pescadores e pastores locais.

E então Aga Khan construiu seu refúgio suntuoso.

Ele deu à Costa Smeralda seu nome de luxo. Ele contratou importantes arquitetos franceses e italianos para criar, do nada, uma aldeia moura medieval (a cidade de Porto Cervo). Ele trouxe Robert Trent Jones para elaborar um complexo de golfe de classe mundial, o Pevero Golf Club. Ele ergueu um iate clube exclusivo tendo o príncipe Rainier de Mônaco no conselho diretor.


Primeira exposição do recém-aberto Monte di Mola Museo é dedicada ao artista pop italiano Mimmo Rotella


Cercado por águas do Mediterrâneo, seu Xanadu logo se tornou um destino popular para a alta roda de pessoas como o rei Juan Carlos da Espanha, Catherine Deneuve e Brigitte Bardot. Décadas depois, a Costa Smeralda permanece a escapada de verão mais vistosa da Itália. Dirigindo até o Polo Gold Cup ou ao Porsche Parade, é possível cruzar com o oligarca russo Roman Abramovich ou com o político italiano e titã da mídia Silvio Berlusconi, que possuem suas próprias propriedades nos arredores.

"Quando vim aqui pela primeira vez há poucos anos, eu achei que não conseguiria durar mais de uma semana em um local com tão pouca atividade cultural", disse Frederic Arnal, diretor da nova galeria Louise Alexander de arte contemporânea. Inaugurada no ano passado, esta filial da galeria Louise Alexander de Paris é o primeiro espaço cultural a desbravar as ruas reluzentes de Porto Cervo, onde criatividade tradicionalmente significa Gucci, Bulgari e Dolce & Gabbana.

Mas Arnal, o diretor de 27 anos da galeria, tem feito muito para preencher o vazio de arte. Além de apresentar obras de Andy Warhol, Jean-Michel Basquiat e Roy Lichtenstein, ele está cultivando artistas internacionais emergentes —"americanos, franceses, alemães, chineses"— para exposições individuais e coletivas. Os amantes das artes não são mais forçados a bocejar diante da coleção de modelos de navios antigos de Aga Khan, exibidos no iate clube.

Quarteirão cultural

"A frase que mais ouvimos aqui é: 'Finalmente, uma galeria de arte'", Arnal disse rindo enquanto permanecia no terraço da galeria e observava os megaiates flutuando na marina de Porto Cervo. Na verdade, ele disse, ele estava tentando inspirar outros espaços de exposição a se instalarem nas proximidades.

"Nós estamos tentando desenvolver um quarteirão cultural", explicou. "Eu acho que outras galerias vão abrir ao nosso lado e desenvolveremos um nicho de arte contemporânea de alta qualidade —não apenas uma cena local ou artesanal, mas um verdadeiro distrito de arte contemporânea para o mercado internacional." É uma declaração ousada, mas longe de quixotesca. Este ano viu a abertura do primeiro museu de arte de Porto Cervo, o Monte di Mola Museo, em um prédio de três andares bem ao lado da galeria Louise Alexander.

A primeira exposição do museu (até 21 de setembro) é dedicada ao falecido artista pop italiano Mimmo Rotella. Nos pastiches pós-modernos de Rotella, ícones do entretenimento (Marilyn Monroe, Audrey Hepburn) se misturam com embalagens de alimentos e recortes de jornal, cobertos por cores berrantes. Cheias de celebridades e consumismo, as obras se encaixam perfeitamente na Costa Smeralda.

O terraço superior esconde outro dos segredos mais bem-guardados de Porto Cervo: um bar de champanhe Moet & Chandon. Com garrafas custando a partir de 60 euros —uma pechincha nestas bandas —, o terraço de cobertura é o local ideal para bebericar champanhe enquanto se aprecia a vista.


Nascer do dia em Porto Cervo, cidade na Sardenha que foi idealizada pelo príncipe Karim Aga Khan 4º


Quando cai a noite na vila, grupos de ávidos comensais seguem para outro templo do estilo de vida de Porto Cervo, o restaurante Fior d'Acqua, aberto há um ano. Recém-permeado de fragrâncias encomendadas, os garotos badalados de fundos fiduciários e casais vestidos de branco enchem o salão de jantar e saboreiam bocados preparados pelo célebre chef Michele Farru.

Astro do programa da TV italiana "La Prova del Cuoco" —uma competição vagamente parecida com "Iron Chef", que o coloca contra cozinheiros rivais —, o trintão pueril poderia facilmente criar um cardápio hipercriativo custando mais de 100 euros por pessoa. Mas ele tem adotado uma abordagem mais humilde —em seus pratos e preços —, preferindo deixar os ingredientes locais falarem por si só. Enquanto comensais menos seletivos pagam exageradamente por massa com frutos do mar nos muitos restaurantes elegantes, mas comuns, da cidade, Farru prepara um leitão excelente e um polvo tenro, servidos por garçons vestidos de preto sob uma trilha sonora de Amy Winehouse.

Até mesmo ir à praia está sendo redefinido atualmente. Por grande parte da existência da Costa Smeralda, se tratava de tranqüilidade e adoração ao mar. Você explorava as estradas costeiras, escolhia uma das faixas de areia escondidas ao longo do caminho, colocava seus óculos escuros de grife e admirava as águas de tons elétricos.

Empoleirado em um afloramento rochoso, o Phi Beach de quatro anos ignora as prioridades tradicionais. Apesar de seu nome, o clube ao ar livre quase não possui areia e os freqüentadores chegam bem depois dos horários de bronzeamento. A convivência é colocada acima da tranqüilidade. O céu predomina em relação ao mar. É o entardecer sublime —a descida radiante do Sol atrás do mar e dos montes a oeste — que eles vêm celebrar diariamente.

E assim, em um fim de tarde, grupos de corpos bronzeados se espalhavam pelas camas com baldaquim branco e cercavam o bar circular enquanto um DJ, em uma torre, tocava música electro-house. A primeira festa "Domingo Incrível" do Phi Beach, uma nova série de verão co-patrocinada pelos principais clubes noturnos da área, estava em andamento efervescente.

Sem leões-de-chácara

Mas, apesar do agitado clima de discoteca, uma armadilha da Costa Smeralda estava visivelmente ausente: funcionários de porta. Nada de leões-de-chácara, gerentes ou hostesses empunhando listas de convidados patrulhando a entrada. Na verdade, não havia entrada —apenas a praia aberta e grandes espaços gramados pelos quais qualquer um podia entrar, gratuitamente.

"O conceito de ter segurança em um clube, acima de tudo um clube de praia, é ultrajante para mim", disse Mirko Negri, o proprietário. Exibindo um chapéu com aba larga, uma camiseta azul e laranja e um envoltório parecido com sarongue, Negri prosseguiu: "Todos precisam se sentir livres para vir aqui".

As pessoas claramente se sentiam. Enquanto o Sol se punha, todo festeiro: conquistadores de camisa aberta, socialites de biquíni, descolados com cabelo com dread, pessoas do tipo secretária de meia-idade, famílias com crianças e um roqueiro punk com tatuagens e cabelo moicano. Alguns flutuavam no mar em lanchas vindas dos iates multimilionários em alto-mar. Alguns chegavam suados, pedalando em bicicletas alugadas. Muitos exibiam abdome tanquinho. Muitos o oposto.

Enquanto o volume da música aumentava, o público começou a assistir ao horizonte ocidental. Ex-apresentador de um canal de videoclipes italiano, Negri admirava seus convidados com a satisfação de alguém que claramente gosta de entreter um público diverso.

"Nós estamos tentando fazer coisas para todos aqui", ele disse. "O que você verá daqui a 15 minutos, quando o Sol se pôr, será incrível."

Para Chegar Lá
Para uma lista completa das cidades e companhias aéreas que voam para Olbia, vá a www.geasar.it/eng/airport.

Uma boa opção é voar para Londres e fazer uma conexão com vôos da EasyJet (www.easyjet.com), que tem vôos diários de ida e volta saídos do aeroporto Gatwick com destino a Olbia, a partir de cerca de 90 libras (cerca de US$ 180, com a libra cotada a US$ 2) em meados e final de agosto. O aeroporto Malpensa de Milão também tem vôos diários para Olbia pelas companhias EasyJet e Meridiana (www.meridiana.it).

Onde Ficar
Os principais hotéis da Costa Smeralda cobram mais de US$ 1.000 por noite na alta temporada. Menos exorbitante e ainda assim divertido é o Club Village Forte Cappellini (Via Tre Monti; 39-0789-99490; www.bajahotels.it/en/), que fica na cidade de Baia Sardinia e muito perto do clube Phi Beach. Diárias dos quartos duplos em agosto custavam em torno de 270 euros, ou US$ 415, com o euro cotado a US$ 1,60. Ainda mais barato é o Hotel Dolce Vita (39-0789-91855; www.hotel-dolcevita.it). No Liscia di Vaca, um hotel rústico minimalista aberto há dois anos a cerca de um quilômetro e meio de Porto Cervo, quartos duplos custam a partir de 209 euros. (Uma estadia mínima de cinco noites pode ser obrigatória durante alguns períodos.)

Onde Comer
O chef célebre Michele Farru cuida da cozinha do Fior d'Acqua (Piazza del Principe, Porto Cervo; 39-0789-907021; www.piazzadelprincipeportocervo.com/fiordacqua.asp). O cardápio inclui leitão e perca e caviar no bolo de batata com manjericão. Duas pessoas podem comer três pratos por cerca de 100 euros, sem vinho.

Parte lounge para descanso e parte restaurante ao ar livre, o Aqua, sem relação com o restaurante acima (Piazza Azzurra, Porto Cervo Marina; 39-0789-957066; www.aqualounge.it), conta com belas vistas do porto e pratos como a terrine de polvo e o carpaccio de atum, salmão e perca. Um jantar com três pratos para dois, sem vinho, sai por cerca de 90 euros.

O Que Fazer
Converse com seu consultor financeiro antes de ir ao Billionaire (Golfo Pevero, Porto Cervo; 39-0789-94192; www.billionaireclub.it), um clube tão caro e agressivamente decadente quanto o nome sugere. (O couvert de 30 euros inclui um drinque.) Para um clima mais descontraído e um público mais diverso, experimente o Phi Beach (Baia Sardinia; 39-320-488-5180; www.phibeach.it), um clube à beira-mar ao ar livre que começa a funcionar ao entardecer. Sem couvert.

A nascente cena de arte da Costa Smeralda está despontando ao longo do Promenade du Port, em Porto Cervo. Inaugurada no ano passado, a galeria Louise Alexander (Via del Porto Vecchio, 1; 39-0789-92090; www.louise-alexander.com) exibe trabalhos de artistas contemporâneos internacionais de vanguarda.

A poucos passos fica o primeiro museu de arte de Porto Cervo, o Monte di Mola Museo (Via del Porto Vecchio, 1; 39-0789-92225; www.gocilgroup.com), que abriu neste ano. Uma exposição dedicada ao já morto artista pop italiano, Mimmo Rotella, fica até 21 de setembro. O museu abre tarde: das 18h à meia-noite.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Compartilhe:

    Hospedagem: UOL Host