Eu abri meus olhos sem me mover no terreno suave do deserto. Um perfeito sol alaranjado estava se erguendo sobre uma cordilheira distante, seus raios refletindo na colina onde abri meu saco de dormir na noite anterior. Meus ouvidos zumbiam no silêncio. Ao meu redor, em meio aos brancos e beges e nas faixas roxas e alaranjadas iluminadas pelo alvorecer, formas esculpidas pelo vento se projetavam pelo ar límpido do deserto. Eu não vi nenhuma pessoa, nenhum sinal de vida.
Toda a costa do Peru é árida, mas ao sul de Lima ela se torna profunda. É um dos locais mais secos no planeta, a desolação quebrada aqui e acolá por vales verdejantes por onde passam riachos vindos dos Andes a caminho do mar.
Quase metade de todas as visitas por estrangeiros ao Peru inclui uma parada em Machu Picchu e por um bom motivo: o sítio inca ancestral é espetacular. Mas o país é bem mais do que um fenômeno de um só sucesso. A geografia que promoveu o nascimento de várias civilizações antigas (costa seca, uma espinha dorsal de montanhas elevadas e a flo-resta tropical ao leste) dá ao país áreas naturais sem paralelos.
E muitas são acessíveis, fáceis de acrescentar a uma viagem ao território inca. Em fevereiro, eu visitei dois extremos do Peru —o deserto e a floresta tropical. (O terceiro extremo —o alto dos Andes coberto de neve— eu deixei para outra visita.)
Picape "Mad Max" pelo desertoMeu guia pelo deserto foi Roberto Penny Cabrera. Ex-oficial naval peruano e engenheiro de mineração, Cabrera passa a imagem de uma figura intensa em seu uniforme bege, com uma longa faca presa na cintura. "Gostou da minha faca?", ele perguntou quando nos encontramos no adorável oásis de Huacachina, margeado por dunas. "Espere até ver minha picape."
Em pouco tempo nós estávamos rodando pelo deserto na dita picape, uma estilo "Mad Max" em cor de oliva, repleta de provisões: dois estepes, diesel extra e muita água (inclusive para um chuveiro que se projeta da lateral do veículo). Assim que deixamos a estrada pavimentada, foi um percurso difícil, saltitando no calor sobre colinas desoladas. Em fevereiro, o sol do meio-dia incide diretamente do alto, eliminando qualquer possibilidade de alívio. A maioria dos sinais de vida é igualmente sinal de morte: velhos cemitérios, múmias antigas e ossos secos do que Cabrera disse serem aventureiros fracassados.
De fato, as criaturas mais abundantes no deserto inca morreram há milhões de anos: a área já foi uma plataforma continental rasa, e eras de vento revelaram uma riqueza de fósseis. Dentes de tubarão em valas repletas de cascalho ou se projetando dos paredões polidos pela areia. Eles são uma paixão de Cabrera, e uma espécie de febre toma conta dele quando ele encontra um bom terreno de caça.
Os fósseis também são consumidos pelo vento. Mas em alguns poucos lugares -conhecidos apenas por aqueles que, como Cabrera, sabem ler a paisagem- esqueletos inteiros de baleia se encontram sem serem perturbados no chão do deserto. Eles jazem curvados, formas marinhas trágicas onde a simples idéia de nadar parece absurda.
 Meteorito no deserto de Ica, na costa do Peru; local está entre os melhores territórios para caça de fósseis no mundo |
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Alguns estão tão bem preservados que incluem pele fossilizada e até barbas de baleia. Um crânio de baleia foi aberto pelo vento para revelar os restos opalinizados do cérebro do animal, brilhando ao sol como um lembrete de que tudo o que está animado hoje vem da pedra muda.
O deserto peruano está entre os melhores territórios para caça de fósseis no mundo, mas tem recebido pouca proteção. Grande parte do território é ocupada por concessões de mineração, e a cidade de Ica não tem nenhum museu dedicado aos fósseis. Caçadores de fósseis não-autorizados atuam com impunidade.
"São estupradores!", bradou Cabrera quando nos deparamos com uma escavação de autoridade duvidosa. "Os fósseis pertencem ao solo!" Enquanto espiávamos ao redor, eu encontrei um fóssil estupendo de um golfinho com dentes longos e senti parte da febre de Cabrera.
O deserto recompensa aqueles dispostos a suportar certa dificuldade. Na segunda vez que o radiador estourou, o inconstante Cabrera entrou em pânico, e me vi sentado diante de uma fogueira, avaliando seriamente se sobreviveria a uma tentativa de fuga noturna.
Minha fidelidade foi recompensada com uma caminhada matinal à procura de dentes de tubarão com Cabrera. Nós não demoramos a encontrá-los: brancos, amarelos e marrons, impregnados ao longo de milhões de anos com a cor do sedimento que os conteve.
Ossos oferecidos pela deusa PachamamaEra como vasculhar em meio às eras: aqui está uma espinha de arraia, ali uma casca de lagosta. Isto é um osso de ave marinha e aquilo um ouriço-do-mar e madeira petrificada. E então, em um canal castigado pelo vento, Cabrera avistou um brilho inconfundível: um dente de mais de 10 centímetros de um megalodonte —o extinto tubarão gigante devorador de baleias. Ele fez uma dança, levantando uma poeira que pairava no ar e parando apenas para me mostrar os pêlos de seu braço arrepiados. "Coisas perfeitas como esta são uma mensagem de Pachamama", ele disse, se referindo à antiga deusa da terra andina.
Naquela noite eu dormi no chão do deserto ao lado dos restos expostos de uma baleia de 12 milhões de anos, com suas costelas peroladas ao lado da minha cabeça. Eu olhei para o alto para as chocantes estrelas do sul, a Via Láctea tão vívida que não mais parecia um lar improvável para criaturas como aquela.
Poucos dias depois, tudo aquilo foi obscurecido por vida luxuriante. Eu estava na floresta tropical, na pousada Amazonas, situada à margem do rio Tambopata, na Amazônia peruana. Água, a fonte da vida, estava por toda parte: no rio cor de chá preto, no ar úmido e pingando das folhas nas trilhas lamacentas. Uma diversidade fantástica e intricada —de árvores imensas a insetos minúsculos— nos cercava.
A região peruana de Madre de Dios está passando por um boom de ecoturismo. Mais de 70 pousadas na selva atendem aos visitantes ávidos por uma visita fácil à Amazônia imaculada. As áreas protegidas dali incluem Manu, um vasto parque que desce da encosta leste dos Andes até a floresta tropical primitiva, e Tambopata, que juntamente com uma área adjacente na Bolívia, é maior do que o Estado de Connecticut e abrange o maior pedaço de floresta protegida na bacia do Amazonas.
 Grupo da pousada Amazonas, situada à margem do rio Tambopata, na Amazônia peruana explora a floresta tropical |
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A segunda atividade após chegarmos à pousada Amazonas, depois de recebermos botas de borracha, é uma curta caminhada por uma trilha na floresta até uma plataforma na cobertura da pousada. A subida de mais de 35 metros levou nosso pequeno grupo de visitantes até o ar leve e agradável do topo das árvores da floresta tropical. Nós olhamos por sobre o mar de árvores que catalogavam todas as variedades de formas de verde: tufos, ramalhetes, botões, cascatas e ondulações. Parecia um recife de corais enquanto numerosas aves (um tucano, um maracanã-de-cabeça-azul, um jacu) buscavam se empoleirar nas imensas copas, algumas cheias de flores, outras carregadas de castanhas-do-pará.
O rio fazia curva ao longe e os contrafortes dos Andes flutuavam no horizonte. O pôr-do-sol traçou um ornamento de galhos no ar parado e espesso, excitando bilhões de cigarras.
A pousada em si é espaçosa e confortável. Telhados de palha abrigam grandes áreas bem ventiladas de jantar e descanso. Os quartos, ligados por passarelas elevadas de madeira, fornecem um conforto inesperado (mosquiteiros, chuveiros e privada com descarga) sem separar os hóspedes desnecessariamente da floresta; um lado de cada quarto é aberto diretamente para o verde.
Na pousada Amazonas, cada grupo de visitantes recebe um guia. Rodolfo Pecha, nosso guia, é um membro do grupo indígena ese'eja da comunidade de Infierno, que é dona da floresta intocada ao redor da pousada. Em uma parceria, a Rainforest Expeditions, a empresa que opera a pousada, arrendou a terra por 20 anos enquanto treina os membros da comunidade para assumirem a operação.
Para Pecha, o ruído da floresta é uma linguagem inteligível. Ele freqüentemente nos parava na trilha, destacando algumas poucas notas em meio à cacofonia sibilante de gorjeios, roncos, zunidos e assovios. Então ele respondia. "Isto é um pássaro formigueiro", ele disse entre o aumento dos gorjeios. "Eles são realmente bonitos." Ele penetrava na mata densa, binóculos de prontidão, conduzindo turistas consideravelmente menos graciosos em meio à vegetação.
 A pousada Amazonas, que opera em parceria com a população local, oferece confortos como mosquiteiros e chuveiros |
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Em nosso segundo dia, nós acordamos antes do amanhecer com a gritaria de macacos. Após um rápido desjejum de forte café peruano e frutas frescas, nós seguimos pelo rio e por um trilha lamacenta na floresta até um lago em ferradura, um trecho curvo de água isolada quando o Tambopata faz curva em outra direção.
Nós navegamos em um pontão silencioso em meio à luz da alvorada. Cascatas de jasmins-rosados desciam na direção da calma água marrom. A todo nosso redor a vida seguia seu curso: dezenas de pássaros, de aves aquáticas como biguás, martins-pescadores, garças de bela plumagem e uma águia-pescadora, ao jacu-cigano. Parecidos com um peru imaginado pelo Dr. Seuss, os jacus-ciganos atravessam a mata ao longo da margem do rio, comendo folhas e cantando de contentamento.
Um bando barulhento de periquitos passou no alto, anunciando um trio de ariranhas sulcando o lago em busca de seu café da manhã. Facilmente do tamanho de um homem alto e magro, as ariranhas são animais ariscos e seriamente ameaçados, mas pareciam à vontade em casa, deslizando alegremente e se aproximando o suficiente de nós para vermos seus dentes afiados.
Naquela manhã nosso barco tinha uma tripulação alegre de amantes da natureza: um par de observadores de pássaros, um casal húngaro e um casal brasileiro. Eram o tipo de pessoas que não se importam com um pouco de sol e alguns poucos mosquitos se isto significar avistar um grupo de macacos zogue-zogue. Certa manhã na trilha, eu cruzei com o casal brasileiro corajosamente comendo cupins por sugestão de seu guia. "Picante", eles disseram, me oferecendo um.
À beira do rio, Gyorgy Valyi, um dos húngaros, afundou até a coxa em areia movediça e certamente teria perecido ali se um punhado de guias não tivesse corrido em seu socorro. Mesmo enquanto afundava, Valyi tinha um sorriso de descrença prazerosa, como se de repente estivesse participando de uma aventura de Tintin.
Mais tarde naquela noite, enquanto me deitava, eu também me senti como se estivesse mergulhando na floresta viva. Os perfumes e ruídos estranhos se fundiam em uma visão estereoscópica barroca -sonhos de uma paisagem oculta sustentando a própria vida.
SE VOCÊ FORPara circularO aventureiro do deserto Roberto Penny Cabrera pode ser contatado pelo telefone (51-56) 956-624-868. O site dele é
www.icadeserttrip.com. Viagens de dois dias custa a partir de US$ 300 para uma ou duas pessoas.
Onde FicarInformações sobre a pousada Amazonas, a pensão ecológica em Madre de Dios, estão disponíveis em
www.perunature.com/pages/home_posada.htm. Programas de três dias e duas noites custam a partir US$ 295 por pessoas por quarto duplo.
Tradução: George El Khouri Andolfato