Estava longe de ser um piquenique típico. Por um lado, não estávamos em terra, mas flutuando em dez caiaques individuais. Um grupo de tamanho considerável de remadores iniciantes, com idades variando de 11 a 60 anos. Por outro, antes de nossa refeição ao meio-dia, John Lewis, nosso guia, insistiu para que déssemos meia-volta com nossos barcos, formássemos uma linha e prendêssemos nossos caiaques juntos, um exercício que soava simples, mas que exigiu de nosso grupo novato pelo menos 20 minutos para ser executado.
"Perfeito", ele disse, quando estávamos finalmente amarrados em fila desalinhada. "Agora podemos ficar de olho nela enquanto comemos."
Ele espiou casualmente para a direita. Nossos olhos acompanharam seu olhar e travaram na cabeça de uma fêmea de aligátor de 2 metros de comprimento a meros 6 metros de distância. Ainda mais perturbador, os olhos dela, que saltavam para fora da água verde escura, pareciam igualmente fixados em nós.
Cansados e famintos após termos remado e trombado uns nos outros por quase duas horas no Reserva Nacional Big Cypress, mais de 290 mil hectares de pântano da Flórida vizinho ao Parque Nacional de Everglades, nós rapidamente aceitamos nossa convidada para o almoço. Nós estávamos felizes por fazer qualquer coisa exceto continuarmos nos movendo.
"Quem pediu presunto com queijo?", perguntou Lewis, 57 anos, diplomado em vida selvagem e administração florestal, que antes de servir como guia e voluntário em vários parques nacionais era dono de uma loja de camping em Michigan. Meu filho, Charles, o membro mais novo de nosso grupo, agarrou com fome o sanduíche.
"Aligatores realmente adoram queijo!", disse Lewis, acrescentando, "é brincadeira", nem pela primeira e nem pela última vez naquele dia.
Felizmente, antes de partir naquela manhã, Lewis explicou que os aligatores não caçam qualquer coisa maior do que um pequeno animal ou ave, o motivo para em caso de cairmos de nosso barco, ele nos disse para simplesmente levantarmos. "Assim eles podem ver quão grande você é", ele disse.
Após passarmos por pelo menos meia dúzia de aligatores naquela manhã na estreita trilha de canoas, eu achava graça ao ver que meu filho e duas filhas, Harriet e Florence, 16 e 12 anos, pareciam um pouco pálidos toda vez que Lewis apontava para outro par de olhos espiando para fora d'água.
Meus filhos são a ecoconsciência nada sutil da minha vida. Eles me advertem quando esqueço de desligar o computador ou uma de nossas novas lâmpadas econômicas. Eles policiam meus esforços de reciclagem e insistem para que eu use transporte público ou minha bicicleta sempre que possível. Eles viram "Uma Verdade Inconveniente" e assistiram atentamente a uma série da BBC chamada "Planeta Terra". Então me pareceu natural (trocadilho intencional) fazermos uma miniecoaventura no sudoeste da Flórida enquanto visitávamos os avós deles durante a Páscoa.
Eu escolhi Everglades City, uma minúscula aldeia pesqueira na fronteira noroeste do Parque Nacional de Everglades, o terceiro maior parque nacional entre os 48 Estados americanos contínuos, atrás do Vale da Morte e de Yellowstone, assim como a maior área de mata subtropical restante na área continental dos Estados Unidos. Um motivo era a presença da pousada Ivey House, o primeiro lugar em Collier County designado pelo Estado como "hospedagem verde", por sua redução de resíduos e do uso de água e eletricidade.
E a família Harraden, que é dona da pousada, por acaso também dirige a Everglades Rentals and Eco Adventures, uma empresa que oferece uma grande variedade de ecopasseios diários e noturnos nos parques ao redor (além de Everglades e Big Cypress, também há o Parque Estadual e Reserva Fakahatchee Strand e o Refúgio Nacional da Vida Selvagem de Ten Thousand Islands, uma das maiores áreas de manguezal de estuário na América do Norte). Ainda melhor, muitas de suas viagens eram adequadas para famílias com crianças.
Enquanto entrávamos em Everglades City, eu fiquei surpreso em quão pequena a cidade realmente é (ela ocupa apenas 3,1 quilômetros quadrados, com uma população de 643 moradores). Mas, na verdade, há muito mais o que fazer na área do que apenas lembrar seus episódios favoritos de "Ben, O Urso Amigo" -a série de TV dos anos 60 sobre o filho de um guarda florestal de Everglades e seu urso de estimação, ao qual eu assistia religiosamente na infância.
 Aventureiro navega de caiaque em reserva natural perto de Everglades City, na Flórida |
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Não apenas há alguns restaurantes especializados em peixe (o Oyster House, o Everglades Seafood Depot e o Camilla Street Grill), mas também dois museus, incluindo a histórica Smallwood Store, um velho posto de comércio indígena de 1906 na Ilha Chokoloskee (a dois minutos de carro de Everglades City), que será sempre lembrado pela minha família como o lugar onde "papai bateu o carro do vovô em uma palmeira, fazendo em pedaços o vidro traseiro".
Para nossa sorte, nossa viagem estava centrada na água, não nas estradas, como a maioria das atividades da região. Pode ser um passeio não muito bom para o meio ambiente em um aerobarco barulhento (dotado de hélice e motor traseiros que permitem percorrer mangues rasos, pântanos e canais em alta velocidade), ou os passeios de barco narrados de 90 minutos pelo Ten Thousand Islands, dirigidos pelo Centro de Visitantes do Parque Nacional de Everglades, completo com avistamento de peixes-boi e golfinhos.
Mas, para o nosso passeio, eu queria uma excursão mais ativa. Olhando o folheto da Everglades Rentals, eu rejeitei o Swamp Stomp, onde você percorre a pé em meio a "aligatores e aguapés" e "lamaçais de água doce", e escolhi o aparentemente mais agradável Mangrove Tunnel Eco Adventure, no qual você rema "em um mar de lírios... sob a cobertura da floresta". Apesar de cara (US$ 95 com desconto por pessoa para hóspedes da Ivey House), eu sabia que receberíamos informações sobre fauna e flora de nosso guia, assim como proteção. Até mesmo dirigindo para Everglades pela Interestadual 75 nós encontramos tantos aligatores, tomando banho de sol como meninas no recesso de primavera, que eu quase dei meia-volta com o carro de medo.
Bem descansados após uma boa noite de sono na Ivey House -que tem um pátio protegido e piscina- e um jantar sem pressa de concha rainha frita, rã e nuggets de aligátor no Rod and Gun Club, um marco que data do final dos anos 1800, nós pulamos da cama cedo, nos sentido destemidos e empolgados para o início do nosso passeio às 8h.
Quando Lewis nos contou sobre uma criatura bem mais preocupante no parque do que o aligátor -a píton birmanesa, introduzida em Everglades por donos de cobras que as soltaram quando se tornaram grandes demais para serem mantidas como animal de estimação-, eu tinha certeza que as crianças correriam de volta à piscina com aquecimento solar dos seus avós.
"Há milhares de pítons vivendo atualmente na área", disse Lewis, acrescentando que sendo carnívoras, elas têm um forte impacto no ambiente, se alimentando de coelhos, aves de solo e até mesmo de um aligátor ocasional. "Elas podem crescer até 7 metros e por uma centena de ovos por vez." Eu senti minhas mãos começarem a suar.
Apesar de termos permanecido atentos por todo o percurso a remo de quatro horas pelo rio Turner, nós não vimos nenhuma píton. Em vez disso, nós atravessamos túneis vermelhos do manguezal, escutamos o riso de um frango d'água, vimos uma águia-pescadora pegar um peixe com suas garras e nos maravilhamos com os muitos tipos diferentes e cores das garças nas árvores: a levemente azul, a de três cores e a amarela. Mais importante, ninguém da nossa família caiu de um caiaque (apesar de não poder dizer o mesmo em relação ao nosso grupo como um todo) e as crianças mal podem esperar pela nossa próxima ecoaventura. Eu estou pesquisando por rastreamento de ursos nas montanhas suecas.
Cidade pequena, parques grandesNo Parque Nacional de Everglades (
www.nps.gov/ever), os quatro centros para visitantes e postos de guardas florestais ficam abertos 365 dias por ano; os horários de funcionamento variam de acordo com as temporadas, abrindo das 8h e 9h até as 16h30 e 17h30.
A Everglades National Park Boat Tours (239-695-2591) conta com vários horários de partida diárias de passeios das 9h até as 16h30, saídos do Centro de Visitantes da Costa do Golfo em Everglades City (239-695-3311). O passeio Ten Thousand Islands dura 90 minutos e custa US$ 26,50; metade do preço para crianças entre 5 e 12 anos (grátis para crianças com menos de 5 anos). A Mangrove Wilderness Tour, que dura 1 hora e 45 minutos, custa US$ 35 e metade disso para crianças com 12 anos ou menos.
A Everglades Rentals & Eco Adventures (239-695-3299;
www.evergladesadventures.com) oferece passeios diários e noturnos com guias, assim como aluguel de equipamento e serviços de translado de outubro até abril.
As diárias dos quartos na Ivey House (239-695-3299;
www.iveyhouse.com) são de US$ 63 e US$ 210.
O Rod and Gun Club (239-695-2101;
www.evergladesrodandgun.com) serve café da manhã, almoço e jantar. Vale a pena a visita, nem que apenas para sentar na varanda com pilares com vista para o Rio Barron. Jantar (das 17h às 21h) para dois com vinho custa menos de US$ 80.
Tradução: George El Khouri Andolfato