Conheça a pequena e medieval Bérgamo, na Itália

SHIVANI VORA
New York Times Syndicate

A lua iluminava gentilmente a Piazza Vecchia, em Bérgamo, uma cidade no norte da Itália, em uma noite de outono. Sombras manchavam os prédios do período da Renascença, casas com sacadas de ferro e grandes colunas em arcos, enquanto criava um brilho cintilante sobre os tijolos vermelhos da praça. Da torre do sino do século 12 vieram os ecos finais das 100 badaladas que antes significavam o toque de recolher das 22h desta cidade.

Acompanhada de minha irmã, Aditi, eu estava no meio daquela que podia ser apenas outra praça italiana encantadora e tranquila. Mas sob a quietude, nós estávamos cercadas tanto por séculos de história quanto por uma vida cultural moderna próspera.

  • Dave Yoder/The New York Times

    Basílica de Santa Maria Maggiore, em Bérgamo, uma igreja do século 12 com um interior impressionantemente ornamentado


Bérgamo, a menos de uma hora de carro ou trem ao nordeste de Milão, fica nos contrafortes das montanhas Orobie, popular entre os esquiadores italianos. Mas aqueles simplesmente de passagem correm o risco de perder uma mistura de classe mundial de diversidade arquitetônica, coleções de arte impressionantes (frequentemente localizadas nos locais mais improváveis) e gastronomia especial.

Um ótimo lugar para iniciar uma exploração de Bérgamo é a Piazza Vecchia, o coração e centro da Città Alta, a parte medieval da cidade, que fica situada em uma colina acima do restante da cidade. Por quase 400 anos, desde o início do século 15, Bérgamo fez parte da República de Veneza; foram os venezianos que construíram as muralhas de pedra ao redor da Città Alta. E, de fato, as áreas ao redor da praça parecem distintamente medievais, com ruas de pedra estreitas e sinuosas.

Mas os anos 1400 marcam apenas o início da Città Alta. Os séculos anteriores e posteriores estão todos ao seu redor em Bérgamo. A riqueza histórica ganhou vida para nós quando Guja Ajolfi, curador do Palazzo Moroni, um museu situado em um palácio do século 17, nos levou por um tour a pé.

Nós começamos pelo Palazzo della Ragione, uma estrutura romanesca que data do século 12; dizem que ele é o prédio da prefeitura mais antigo existente no norte da Itália, apesar de ter deixado de funcionar como sede da prefeitura no século 17. Então vimos o romanesco fundido com o gótico na Basílica de Santa Maria Maggiore, uma igreja do século 12 com um interior impressionantemente ornamentado.

Após um almoço descontraído, caminhamos até o Palazzo Terzi, um dos vários pequenos palácios da cidade que datam dos séculos 17 e 18. O palácio está empoleirado graciosamente na encosta de uma colina com vista para as planícies ao redor. Quando o escritor Hermann Hesse visitou Bérgamo em 1913, ele chamou o palácio e a praça que o cerca de "o canto mais belo da Itália". Ele não perdeu nada de sua beleza de lá para cá.

Um funicular liga a cidade alta e baixa, mas durante nossa visita de três dias, nós optamos pelas rotas a pé, descendo por largos degraus de pedras e ruas curvas repletas de trepadeiras. Città Bassa, o setor baixo da cidade, com grande parte de seu centro projetado no início do século 20, tem um ar mais espaçoso, moderno. Mas em qualquer parte da cidade em que você esteja, a arte, grande parte dela situada em pequenos museus, mansões e igrejas, é excepcional.

"As pessoas visitam cidades medievais como Bérgamo porque elas são bonitas, mas há muitas delas por toda a Itália", nos disse Ajolfi. "Bérgamo é diferente de muitas porque é basicamente um museu a céu aberto, com obras importantes por toda parte." De fato, Bérgamo possui uma das coleções mais pouco notadas de arte renascentista e barroca do país. Ajolfi nos mostrou vários exemplos a poucos passos da Piazza Vecchia, incluindo estuques barrocos e tapeçarias florentinas e flamengas na Santa Maria Maggiore.

Mas algumas das melhores artes da cidade podem ser encontradas no Palazzo della Ragione, na Città Alta, que oferece uma exposição rotativa da coleção da Accademia Carrara - quase duas mil obras de mestres como Botticelli, Rafael e Bellini - enquanto a galeria passa por uma reforma, que será concluída em 2011.

Você também encontrará dois artistas proeminentes com ligações locais: Giovanni Battista Moroni, um pintor do final da Renascença que nasceu em uma aldeia próxima e trabalhou em Bérgamo por grande parte de sua vida, e Lorenzo Lotto, um pintor veneziano do início da Renascença que morou aqui por mais de uma década.

Eu vi meu primeiro Lotto por acaso. Certa noite, Aditi e eu saímos para uns drinques com Rebecca Stasko, uma moradora que ajuda os visitantes a organizarem suas viagens por meio de sua empresa, A Cup of Local Sugar. Nós caminhávamos pela Città Bassa quando ela parou repentinamente diante da Chiesa di Santo Spirito e nos puxou para dentro. Lá, pendurada discretamente em uma parede, estava uma de suas pinturas mais famosas, "Madonna com Criança e Santos", de por volta de 1521.

Quando chegamos ao nosso destino, I Giardini, um popular bar de happy hour lotado de moradores locais, eu ainda estava pensando em quão incomum era uma obra de arte tão respeitada estar tão discretamente exposta. Em meio a taças do vinho tinto Valcalepio produzido localmente, Stasko explicou que a localização da pintura era apenas um exemplo da discrição que caracteriza a cidade. "Pode não haver obras muito famosas e obrigatórias aqui, mas aquelas que são conhecidas nem sempre são exibidas de modo grandioso", ela disse. "Elas, como grande parte daquilo que a cidade oferece, está sob a superfície."

Apesar dos turistas terem que caçar alguns dos tesouros artísticos da cidade, eles não têm como perder o imponente Teatro Donizetti na Città Bassa, uma casa de ópera que foi construída no início do século 18 e posteriormente dedicada ao compositor Gaetano Donizetti, nascido em Bérgamo. Os tetos com afrescos no auditório e as estátuas de compositores que adornam a entrada são típicos de uma casa de ópera italiana do século 19; os moradores dizem que a qualidade das apresentações se equipara a de seu ambiente dourado.

"A cidade sente esta responsabilidade de preservar o nome de Donizetti como o de um grande compositor", disse Gian Paolo Pasini, que é casado com Stasko e um frequentador regular de ópera em teatros por todo o país, "de modo que as produções no teatro têm a mesma qualidade das casas de ópera mais famosas".

É claro, para aqueles com interesses mais atléticos, um drama de outro tipo está disponível fora da cidade. Os dois vales próximos de Bérgamo, Seriana e Brembana, possuem mais de 160 quilômetros para esquiar e caminhar, além de altitudes de mais de 2.700 metros. Após uma caminhada montanha acima de testar a resistência no Vale Seriana, Aditi e eu compartilhamos outro dos atrativos da área: sua culinária farta. Em destaque estão os produtos de carne de porco, como salame, queijos alpinos, como o taleggio, e polenta, tanto doce quanto condimentada. A versão condimentada, casada com taleggio derretido e grandes cogumelos porcini fritos, fez parte de nossa refeição pós-caminhada em um restaurante popular no Hotel Milano, na cidade de Bratto, nas montanhas Orobie.

E, é claro, havia as massas: casoncelli parecido com ravióli, recheado com carne moída, migalhas de pão e biscoito e queijo, servido em um molho de manteiga de avelã, sálvia e pedaços de bacon; e pizzoccheri, uma massa de trigo sarraceno, misturada com couves, queijo fontina derretido, parmesão, sálvia e batatas.

Se esses nomes não soam familiares, é porque quando se trata de culinária aqui, a tradição reina.

"Em muitas partes da Itália, são os turistas que são a principal clientela dos restaurantes", explicou Roberto Iannotta, proprietário do Hotel Milano. "Na região de Bérgamo, nós não recebemos tantos visitantes, então são os moradores locais que nos sustentam, e eles esperam receitas mais tradicionais."

Aditi e eu passamos mais duas horas provando os pratos preparados por Maria Tomasoni, a mãe de 81 anos de Iannotta, que dirige a cozinha. O final de nossa refeição foi uma torta di mele, um bolo de maçã que é outro favorito local. Enquanto desfrutávamos a delícia doce e amanteigada e as vistas da montanha ao nosso redor, os muitos prazeres de Bérgamo se fundiram em um só.
 

Se você for


Para chegar lá

O aeroporto Orio el Serio fica ao largo de Bérgamo, que está a uma hora de carro de ambos os aeroportos de Milão. Um trem da Milano Centrale, a principal estação de trem de Milão, leva 50 minutos. É fácil caminhar por Bérgamo, além dos ônibus que circulam pela cidade e o funicular ligando a Città Alta e a Città Bassa, de modo que um carro é desnecessário. Mas os visitantes que desejam se aventurar pelo interior para esquiar ou realizar caminhadas devem planejar o aluguel de um.


Onde ficar

GombitHotel (Via Mario Lupo, 6 39-035-247-009; gombithotel.it). O interior contemporâneo deste design hotel com 13 quartos na Città Alta, que abriu no início de 2010 e está entre os mais luxuosos da cidade, contrasta de seus arredores: uma rua medieval ao lado de uma torre do século 13. Diárias a partir de 150 euros (US$ 197, com o euro cotado a US$ 1,31), que incluem café da manhã.

Agnello D'Oro (Via Gombito, 22; 39-035-249-883; agnellodoro.it). Este hotel mais tradicional, dirigido por uma família e localizado na rua principal da Città Alta, tem 20 quartos que são simples, mas limpos, e também tem um restaurante que serve especialidades locais. Diárias a partir de 93 euros para quarto duplo. O café da manhã custa 6 euros adicionais por pessoa.


O que ver e fazer

O Teatro Donizetti (Piazza Cavour, 15; 39-035-416-0601; teatro.gaetano-donizetti.com) oferece óperas e outras apresentações musicais.

A Accademia Carrara está atualmente fechada para reforma; a coleção do museu de obras renascentistas e barrocas está em exposição em um espaço temporário no Palazzo della Ragione na Città Alta.

Basílica de Santa Maria Maggiore e a vizinha Cappella Colleoni (Città Alta; 39-035-223-327).

Para informações para esquiar na região, visite www.bergamotour.it.

Para organizar viagens que incluam aulas de culinária com moradores e passeios privados, contate Rebecca Stasko da A Cup of Local Sugar pelo e-mail rebecca@cupoflocalsugar.com.


Onde comer

Taverna Valtellinese (via Tiraboschi, 57; 39-035-243-331; tavernavaltellinese.it) é espaçosa, mas as paredes e pisos de madeira, além das toalhas de mesa xadrez, dão a este restaurante de alto calibre e preço razoável na Città Bassa um ar aconchegante.

O Hotel Milano Alpen Resort (via S. Pellico 3, 24020 Bratto, Castione della Presolana; 39-034-631-211; www.hotelmilano.com), a 45 minutos de Bérgamo, oferece um lounge bar casual e uma enoteca mais refinada, que serve uma ampla variedade de especialidades locais preparadas pela mãe do proprietário; também há uma carta de vinhos impressionante.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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