Boa Viagem tem águas cálidas, azuis ou verdes, dependendo do sol, sendo que o sol sobre a areia da praia desaparece já no meio da tarde, barrado pelos paredões que são os prédios residenciais e hotéis de muitos andares fincados na orla. À tardinha e à noite, a iluminação sobre o trecho de 7 km convida a beber água-de-coco nos quiosques e a caminhar no calçadão.
Boa Viagem tem ao norte a praia do
Pina, tão urbana quanto, de mar calmo e bares movimentados, e ao sul
Piedade e
Candeias, estas já no município vizinho de Jaboatão dos Guararapes. Com 3 km de extensão, Candeias é a mais tranqüila das três.
Recife é considerada "
a capital dos naufrágios" e 15 dessas áreas de espólio recebem visitas regulares dos mergulhadores. Entre dez e 12 metros de profundidade, por exemplo, estão o
Arreiro San Martin, na saída do porto, e o galeão português
Alfama de Lisboa. Mais abaixo, entre 20 e 30 metros, observam-se os restos de um vapor inglês que uma tempestade fez afundar em 1910 e do
Vapor Bahia, abalroado em 1887.
Pelos corais, circulam
tartarugas,
raias,
moréias e
tubarões, que desde meados dos anos 90 deixaram o fundo do mar para provocar mais de 40 ataques a surfistas, sobretudo. Convém ao turista se informar sobre os pontos de risco para banho e mergulho em mar aberto.
Pergunte a um amigo sobre suas lembranças de uma viagem a Recife. "
Brennand" vai aparecer nas primeiras cinco palavras. São dois os centros culturais que este sobrenome manda visitar: a Oficina Cerâmica Francisco Brennand e o Instituto Ricardo Brennand, ambos no bairro da Várzea.
A
Oficina Cerâmica Francisco Brennand é o ateliê do maior ceramista brasileiro em atividade, ampliado com jardins, fontes, galeria de arte e templos para esculturas numa área de 10.000 metros quadrados. Parte da vasta obra de Brennand já percorreu capitais brasileiras e estrangeiras: numa miríade de combinações de cores, ele ergue falos, vaginas e seios gigantes, bichos e monstros também, receptivos ao toque na superfície fria da cerâmica.
O
Instituto Ricardo Brennand, idéia do primo e empresário Ricardo Brennand, coleciona obras e objetos de arte numa réplica de castelo medieval. A ponte levadiça é uma rara materialização no país daquele objeto mágico de filmes históricos e dos quadrinhos de Hagar. Mas há muito mais no castelo. Entre os milhares de itens sobressaem quadros do paisagista holandês Frans Post, do século 17, e também armaduras e facas, caso visitas indesejáveis avancem pela ponte.
O bloco de Carnaval
Galo da Madrugada foi citado no Guinness, livro dos recordes, como o maior do mundo. Imagens aéreas da folia mostram milhares de pessoas apinhadas nas ruas do centro e nas pontes sobre o rio Capibaribe, um dos mais cantados da literatura brasileira.
Menos fotografada, mas de força arrebatadora, a
Noite dos Tambores Silenciosos coloca os maracatus para chorar os escravos mortos na noite de domingo para segunda de Carnaval, no Pátio do Terço.
O
Carnaval é um dos eventos que tornaram a recepção "
gay friendly" mais oficial em Recife, eventualmente comparada a Rio, São Paulo e Salvador na abertura aos afetos alternativos. A
Central do Carnaval, por exemplo, reserva um quiosque para informações exclusivas ao público GLBT. Ao longo do ano, órgãos públicos promovem a
Quinta da Diversidade, às quintas-feiras, no Pátio de São Pedro, enquanto agências locais de turismo aprimoram a infra-estrutura com guias e roteiros de festas também no interior.
Depois da já tradicional
Parada Gay, no meio do ano, o mês de janeiro passou a sediar em 2007 o
Gay Games, na praia de Boa Viagem. Alguns espaços de convívio mais cotidiano são as boates Metrópole e MKB e os bares Pithausen, SPTZ, Ponto G e Galeria Joana d'Arc.
Tão importantes quanto o Carnaval, as
festas de São João se espalham por dez ou mais espaços (arraiais, coretos e palcos especiais) em Recife, ao longo de todo o mês de junho. De dia e de noite, são centenas de shows de bandas de forró, quadrilhas adultas e infantis, caminhadas, desfile de bandeiras, procissões por terra e pelo mar e apresentações de ritmos locais como o coco, também conhecido como "dança da umbigada", em que a marcação é feita com os pés, numa roda de participantes. Sem falar na comilança: uma orgia prolongada em louvor ao milho, em suas variações de pamonha, canjica, bolo, munguzá...
Antes mesmo de viajar, é possível
ouvir Recife (e a fundamental Olinda, logo ali, a 7 km de distância) de qualquer ponto do mundo. Artistas e grupos locais como Mestre Ambrósio, Fred Zero Quatro, Cordel de Fogo Encantado, Comadre Fulozinha e banda Eddie fazem de Pernambuco um pólo importante da cena musical brasileira, retomando e avançando na história do
manguebeat.
O movimento nasceu nos anos 90, com Chico Science e Fred Zero Quatro. Com a morte de Chico Science, o primeiro CD, "Da Lama ao Caos", virou um clássico precoce. Os versos das canções, de ontem e de hoje, falam de rios entupidos de sujeira, de homens-caranguejos de barriga vazia, de urubus e gente disputando o mesmo lixo, de uma cidade cujos problemas básicos ofendem os olhos.
Nada que lembre, portanto, a imagem da "Veneza brasileira", comparação com a rica cidade italiana citada pela propaganda turística oficial numa referência à quantidade de pontes e rios que cortam Recife. Os
shows do manguebeat se alternam entre Recife e Olinda. Jornais, rádios e TVs locais e o boca-a-boca dos fãs informam sobre locais e horários.
O bairro do
Recife Antigo fica mais bonito à noite, quando o casario colonial de lembranças portuguesas e holandesas se ilumina com boêmios, música ao vivo e os cheiros da
boa gastronomia. Os quitutes locais se comunicaram com a cozinha internacional e operaram milagres da criação - queijo coalho, mel de engenho, manteiga de garrafa sobre carnes e macaxeira, carne de caju, munguzá, cuscuz de tapioca, tapioca ensopada, feijão de corda, ciranda da agulha, escondidinho de charque, moquecas em geral. Vale provar e até produzir fotos: ou como é que se explica com gestos, na volta, um "escondidinho de charque"?
Tanto conhecimento e criatividade no fogão notabilizaram a capital no circuito nordestino: em bairros distintos, Recife soma
oito restaurantes recomendados pelo Guia Quatro Rodas 2008, mais do que Salvador ou Fortaleza.
Um lugar fresquinho para fugir do sol e fazer compras em Recife é a antiga Casa de Detenção, transformada em
Casa de Cultura de Pernambuco. Nas pequeninas celas se instalaram lojas de artesanato, de comida regional e também o Museu do Frevo. Fica no bairro Santo Antônio e abre todos os dias.